Um Olhar Crônico Esportivo

Um espaço para textos e comentários sobre esportes.

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domingo, agosto 03, 2008

Um olhar estrangeiro...


... sobre o Fluminense.

Na reta final da Libertadores 2008, lembro-me de ter comentado no Jogo Aberto que a opção total pela Copa LA feita pelo Fluminense era perigosa demais. Ainda antes, logo nos primeiros jogos, fiz o mesmo comentário, mas os torcedores do Tricolor carioca no blog do Lédio rebateram esse e outros comentários na mesma linha dizendo ser a coisa certa a fazer. Como muitas respostas eram extremamente agressivas, optei por não comentar mais a respeito, até porque o São Paulo acabou eliminado pelo Fluminense e muitos viam comentários do tipo como manifestações de despeito, dor-de-cotovelo, inveja e assemelhadas.

Talvez... Meus comentários, entretanto, foram inspirados pelas campanhas recentes do próprio São Paulo na Copa e, em particular, a de 2005.

A disputa da LA exige demais dos clubes e dos elencos. Tenho sempre presente na memória uma declaração do Muricy, dizendo que só quem está nos vestiários do São Paulo depois de cada jogo pela Libertadores consegue ver o estado físico em que os jogadores terminam a partida. Segundo ele, todo jogo da Libertadores é extremamente desgastante tanto no aspecto físico como no emocional.

Em 2005, terminado o jogo contra o CAP no Morumbi, título conquistado, fiquei vazio. Emocionalmente vazio, futebolisticamente vazio. Isso impressionou-me bastante, tanto que escrevi a respeito na época. A partir desse meu estado, que observei em outros torcedores são-paulinos, reforcei a crença que eu já tinha antes do jogo final: os titulares deveriam ser afastados do Brasileiro por pelo menos 15 dias. Mais que isso: deveriam ficar no mínimo dez dias afastados do futebol, em férias, período que talvez, e só talvez, fosse suficiente para recolocar a todos de volta na vida real, ou seja, jogos e mais jogos pelo Campeonato Brasileiro.

Eu acreditava que os jogadores também estavam esvaziados emocionalmente, sem condições, sem capacidade de concentração para a dura disputa do BR. De fato, o time jogou muito mal algumas partidas, freqüentou a última faixa da tabela por algumas rodadas e dali saiu a duras penas e a um custo emocional, novamente, bastante elevado. A salvação da lavoura foi a boa arrancada no início do campeonato, ao mesmo tempo que ainda disputava as primeiras fases da Libertadores. Sem ter sido brilhante, foi boa o bastante para dar ao time alguns pontos preciosos que tornaram menos difícil a saída da aterradora última faixa da tabela de classificação.

Ao criticar o empenho total do Flu na Libertadores, e ao ver o time derrapando com um ponto, dois pontos, na última posição da tabela, tinha em mente a situação vivida pelo Tricolor paulista apenas três temporadas antes.

Tinha em mente, também, a campanha do Palmeiras em 2002, quando o time dirigido por Roth despencou de uma cômoda posição para a zona do rebaixamento e de lá não mais saiu. O time era bom, nada espetacular, mas bom o bastante para que fosse aceito com naturalidade entre os 5 ou 8 primeiros colocados. As campanhas de times que sofreram o rebaixamento, como essa do Palmeiras e a do Corinthians, por exemplo, mostram os jogos na parte de baixa são mais difíceis, os erros são mais freqüentes, a falta de sorte vira uma rotina, ao contrário do que acontece com os líderes, para quem, às vezes, tudo parece dar certo. Tudo isso, evidentemente, é bastante subjetivo, mas o futebol é subjetivo. Nada mais idiota que o objetividade, e um famoso tricolor carioca de outros tempos escreveu magnificamente a respeito.

A perda do título para a LDU era uma possibilidade que jamais poderia ser ignorada por quem decide e comanda os destinos do clube. A história é pródiga em exemplos para que alguém deixe de pesar, criteriosamente, todos os contras de uma situação. Tudo bem que os torcedores pensem dessa forma, mas os profissionais em nenhuma hipótese podem dar-se a esse luxo. Esse foi, a meu ver, o maior pecado da direção do Fluminense, e uma frase proferida por seu treinador expressa à perfeição essa linha de pensamento e de conduta: “Vamos brincar no Brasileiro.”

Sou contrário ao uso de frases fora dos contextos em que foram formuladas, mas, nesse caso, essas já célebres palavras de Renato Gaúcho cobrem com bastante correção toda a situação, toda a linha de atuação tomada pelo clube. O time seria campeão, outra hipótese era impensável, e, uma vez Campeão Sul Americano, seria uma brincadeira de criança deixar as últimas posições da tabela e terminar com tranqüilidade o campeonato, usando-o mais para afinar a equipe para a disputa do Mundial, no Japão.

Diga-se, a bem da verdade, que a direção até tentou concentrar os jogadores no BR em certo momento, mas não conseguiu, o que levou o próprio time titular a ser derrotado em pelo menos um jogo do Brasileiro. Depois disso, vendo que o foco estava distante, foi mantida a opção de usar jogadores da reserva e dos times de base, preservando os titulares para a disputa mais importante. Naquela altura, não havia mais nada a fazer, os dados estavam lançados.

O intervalo entre a eliminação do Boca e o jogo em Quito foi outra fatalidade para a equipe. Não custa lembrar que esse intervalo já era conhecido desde antes do início da disputa, portanto não cabem críticas à sua existência. Num comentário da época, chamei-o de “férias”, tal como agora usando as aspas. Até fui contestado por um blogueiro, mas na verdade foi exatamente isso: um período de férias, em que os jogadores, depois de eliminarem de forma suada, brilhante, sofrida, disputada e outros adjetivos, os times “copeiros” e tidos como favoritos do São Paulo e do Boca, relaxaram, tanto física como, principalmente, mentalmente. O resultado foi a derrota em Quito, por um placar de respeito. O resto é história.

Ontem, ao chegar do sítio e ligar a TV, deparei com o jogo do Flu contra o Inter.

Jogo tinhoso, difícil, contra um time em ascensão, embora irregular. Meu palpite era por um empate, minha torcida era por uma vitória tricolor. Infelizmente, os colorados venceram e até com alguma facilidade, em especial no primeiro tempo. Nesse momento, ainda mais com os desfalques de dois jogadores negociados e dois convocados, começa a ficar ainda mais difícil encaixar três vitórias seguidas, capazes de dar um alento à equipe. Num campeonato por pontos corridos é muito raro um jogo deixar de valer alguma coisa. Nesse momento, os adversários mal colocados na tabela lutam com unhas e dentes para alcançarem uma posição cômoda. Os bem colocados precisam defender e melhorar suas posições, cada jogo é, em maior ou menor grau, uma verdadeira decisão.

Esse final de turno deixa dois jogos terríveis para o Fluminense: São Paulo em casa e Ipatinga fora. Na sequência, já no segundo turno, o Galo em casa e o Náutico em Recife. Por mais espantoso que possa parecer, creio que o jogo menos difícil para o time do Fluminense, por suas características, será contra o São Paulo, paradoxalmente o mais forte e melhor colocado desses adversários. O Ipatinga é osso duro, em especial na sua casa, e divide com o Fluminense as duas últimas posições da tabela. É o tal do jogo de “seis pontos”. O mesmo ocorrerá com o Galo, ferido, machucado, estremecido por derrotas terríveis, mas, que diabos, serão onze contra onze em campo. Depois, outra pedreira: o igualmente abalado Náutico, em pleno Aflitos, onde à inexistência de algo parecido com um gramado somar-se-á a luta desesperada dos donos da casa para escaparem, ou até saírem, da última faixa da tabela. Em tese, portanto, será justamente o São Paulo o único time que, provavelmente, deixará o Fluminense jogar e cujos jogadores não terão a lâmina cortante e fatal do rebaixamento em suas gargantas. Por outro lado, será o São Paulo, há poucas semanas eliminado da Libertadores por esse mesmo time, nesse mesmo estádio.

Ao fim e ao cabo, o que sobra desse longo texto?

A história de um erro.

Cometido pela direção e pela comissão técnica do clube.

Os seres humanos que se dedicaram e fizeram uma campanha magnífica na Libertadores sofrem, ainda, do vazio emocional criado pelo final da competição.

Vazio agravado ao extremo pela perda do título. Vazio que não foi previsto com seriedade e prevenido.

Não enxergo culpa nos jogadores. Sim, são eles que entram em campo e correm atrás da bola, mas suas ações são ditadas, orientadas, definidas em boa parte pelo que fazem direção e comissão técnica. O erro já aconteceu e, como sempre, a realidade está aí, presente e assustadora. Ontem, ao contrário das lotações estupendas e das festas maravilhosas, vimos um Maracanã com poucos torcedores, a maioria (ao menos aparentemente), cobrando, vaiando e xingando os heróis absolutos de há poucas semanas.

É difícil, bem sei, mas esse é o momento do torcedor do Fluminense apoiar de fato e com paixão, os jogadores e até mesmo seu treinador. Essa é, a meu ver, a única forma de preencher rapidamente o buraco criado pela derrota, o vazio emocional que mina as forças e a confiança de cada jogador. Se com apoio já será difícil, sem ele será muito mais, quase impossível, impedir que uma tragédia, tão absurda quanto injusta, aconteça.

Só lembrando que no futebol não há justiça ou injustiça, só resultados.


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quarta-feira, julho 02, 2008

Final de Libertadores





Hoje é uma daquelas noites especiais, que, felizmente, têm sido comuns nos últimos anos: a Copa Santander Libertadores chega ao seu final e um time brasileiro, ao menos, está envolvido. Assim tem sido desde 2005, quando o São Paulo recebeu o Atlético Paranaense para o jogo final. Em 2006, o Internacional recebeu o São Paulo e venceu. Buenos Aires e o Boca receberam o Grêmio em 2007 e fizeram a festa.

Hoje é uma noite inédita, pois o Maracanã receberá dois times que nunca venceram ‘La Copa’. De um lado, o anfitrião, Fluminense, e do outro, ‘La Liga’, a LDU de Quito.

‘La Liga’ entra em campo como campeã, pois traz consigo a vantagem confortável de poder perder por 1 gol e ainda conquistar o título. Se perder por 2 gols, o jogo vai para a prorrogação e, se assim permanecer, a decisão dar-se-á nos pênaltis.

O Fluminense entra em desvantagem, mas nada que possa assustar demasiadamente. Precisa vencer no tempo normal por pelo menos dois gols de diferença, levando o jogo para a prorrogação. Se vencer por três gols, será campeão.

Difícil?

Sim, muito difícil, mas não impossível e, como disse acima, não é assustador.

E paro por aqui.

Esse jogo é, acima de tudo, imprevisível. Se fosse o caso de apostar na velha ‘loteca’, seria palpite triplo obrigatório.

É, La Liga é frágil na defesa e o Flu é forte no ataque, mas, e daí?

Os fatores que entrarão em campo na noite de hoje e decidirão esse título, está além da qualidade técnica dos jogadores e da inteligência e astúcia de seus treinadores.

Falar sobre eles é tarefa para quem não mais está entre nós, caindo no chavão mais repetido desses últimos meses, desde que o Fluminense encorpou-se na competição: Nelson Rodrigues.

Ao contrário do que diz Galvão Bueno, o Fluminense hoje não é Brasil. É só o Fluminense, como tem sido há muito tempo nas disputas da Libertadores: o Brasil não torce de forma uníssona e unânime pelo time que tem as cores de sua confederação na disputa. Longe disso, até. Talvez não na noite de hoje, até por ser a primeira vez que o Flu disputa esse título, mas em outras noites, com outros times, a torcida contra chegou a ser maior que a torcida a favor. Nada vejo de errado nisso, pelo contrário. Acredito que futebol é o que é graças aos clubes e clube cada um tem o seu e torce, de verdade, somente por ele. Isso independe do torcedor ser do primeiro, segundo, terceiro, quarto ou quinto mundos. É assim que é.

Como diz Galvão Bueno, o Equador hoje é LDU. Do outro lado essa frase é verdadeira. Mais que nunca o futebol equatoriano torce por um só time nessa noite. A possível conquista da Liga Deportiva Universitaria de Quito será a consagração para um futebol que vem apresentando evolução segura, constante, nos últimos dez a quinze anos. Hoje, disputar um jogo pela classificatória para a Copa do Mundo em Quito, não importa se o oponente é Brasil ou Argentina, o favorito costuma ser a seleção equatoriana. Nas duas últimas partidas lá jogadas o Brasil foi derrotado. Não foi o Brasil que perdeu, como gostamos de falar, mas sim o Equador que venceu. Equador que fez belíssima Copa em 2006, cujo time contava com nada menos que sete jogadores de ‘La Liga’, que hoje à noite entrará em campo vestindo, de fato, as cores de seu país. Muito peso ou muito estímulo? Só teremos a resposta nos últimos minutos desse dia ou nos primeiros de amanhã.



E se...

Sim, e se o Fluminense perder o título?

A vida continuará.

Como sempre continua para todos que são derrotados num dia e acordam no seguinte com tudo pela frente, como sempre.

Esse trecho do texto não é movido pela chatice ou torcida contra ou descrença na conquista do Fluminense. Caso conquiste o título, o time e o clube estarão, por algumas semanas (poucas), no melhor dos mundos. Tudo será brincadeira, tudo será alegria. Mesmo assim, entretanto, a posição na disputa do Campeonato Brasileiro continuará extremamente perigosa e exigirá trabalho redobrado para recuperar a concentração e levar o clube a uma posição confortável na tabela.

Todavia, em caso de perda do título, a situação no BR 08 será dramática e o esforço para sair do buraco terá que ser triplicado, quadruplicado. Este é o motivo pelo qual escrevo esse trecho: em minha opinião, a Comissão Técnica do Fluminense errou na condução do Brasileiro durante a disputa da Copa Libertadores. Se foi correta a opção preferencial pela Copa, ela foi exagerada ao deixar o Brasileiro aos cuidados da equipe reserva, e ao não conseguir fazer os titulares entenderem a importância de também se dedicarem ao campeonato nacional nos jogos em que foram escalados. Os times brasileiros que disputaram as últimas finais: São Paulo, Atlético Paranaense, Internacional e Grêmio, relegaram, também, o BR a um segundo plano, mas sem perdê-lo de vista totalmente. O melhor exemplo, sem dúvida, foi dos finalistas de 2006, pois um deles foi o campeão e o outro só deixou de disputar o título nas últimas rodadas, quando a conquista não era mais viável e optou-se, só então, por poupar e preparar o time para a disputa do Mundial.

Conquistando ou não esse título, o Fluminense fez uma campanha simplesmente brilhante em toda a competição, de cabo a rabo, de ponta a ponta. Só por isso já merece sinceras congratulações.

Conquistando ou não esse título, o clube, a Comissão Técnica e o time aprenderam as vicissitudes de uma disputa de Libertadores, conheceram os riscos e os prêmios que ela reserva. Que esse conhecimento fique impregnado em todos que participaram da disputa, pois é ele que contará para o futuro, para as próximas disputas da Copa Libertadores de América.

(Hoje à noite, por motivos pessoais, basicamente alguns amigos e meus primos mineiros, serei simpático ao Fluminense. Creio que o jogo será muito duro, mas acredito numa vitória, talvez na prorrogação.)


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segunda-feira, maio 19, 2008

Por Mexicanos e Americanos

Esse texto foi escrito para o Jogo Aberto, o blog do Lédio Carmona, onde foi publicado no sábado, dia 17 último com o título The Columbus Crew.

Trata-se de uma réplica, chamemos assim, a um post do próprio Lédio sobre a Copa Santander Libertadores 2008 e a ascensão de dois times mexicanos – América e Atlas – que, dependendo dos resultados, farão uma semi-final da Copa. Ou seja, teríamos, portanto, um time mexicano na final.

Isso acontecendo, independentemente da colocação desse time, o segundo jogo seria realizado, necessariamente, de acordo com o regulamento, na casa de seu adversário, um time sul-americano, que já seria, de antemão, o representante do continente no Mundial de Clubes da FIFA. Porque o regulamento da Copa Libertadores é claro e nítido desde o primeiro ano em que os mexicanos passaram a disputá-la: o representante da CONMEBOL ao antigo Torneio Intercontinental e ao novo Mundial de Clubes, será, sempre, o clube sul-americano melhor colocado na Copa Libertadores.

Aos que já o conhecem: publico-o aqui em especial para os leitores que não o leram no Jogo Aberto.

Por Mexicanos e Americanos, sem mudanças


FIFA

Asian Football Confederation

Confédération Africaine de Football

Confederation of North, Central American and Caribbean Association Football

Confederación Sudamericana de Fútbol

Oceania Football Confederation

Union des Associations Européennes de Football

Essa é a estrutura em que é dividido o futebol mundial, tendo a FIFA como órgão máximo e uma confederação para cada continente.

Cada confederação é um mundo à parte, um reino independente, dentro de certos parâmetros. Todos, com certeza, sabem disso, mas não custa relembrar.

Essa é a divisão formal, política, econômica do futebol.

Essa é, em síntese, a divisão do poder.

Todas as confederações têm o mesmo peso e importância na mesa de negociações.

A OFC vale o mesmo que a UEFA.

A CONCACAF vale o mesmo que a CONMEBOL.

Bem sabemos que na prática a teoria é outra, mas no mundo formal dos acordos e da ordenação de tudo que diz respeito ao futebol, é assim que é e é bom que assim seja.

Certo ou errado, de alguma maneira as sociedades precisam se organizar.

O futebol está alicerçado em símbolos desde seu princípio, e símbolos estão e sempre estiveram ligados à representação do poder e do território. Quando uma pessoa é investida num cargo de governo ou na direção de uma agremiação esportiva, por mais diferente que ela pense, por menos valor que ela dê a coisas desse tipo, o exercício do cargo acaba agregando alguns valores e necessidades, se não às crenças, com certeza à prática dessa pessoa.

As competições FIFA, a mais importante das quais é a Copa do Mundo, são guiadas e criadas tendo em vista a isonomia de todas as confederações. Da mesma forma isso acontece com o Campeonato Mundial de Clubes. No mundo das leis, no mundo formal, vale a máxima de direitos iguais para todos.

Mesmo antes de sua criação, quando tudo que tínhamos era a disputa, oficialmente, da Copa Intercontinental, a CONMEBOL, bem como a UEFA, já eram ciosas na defesa de seus interesses. E quais são os interesses de uma e de outra? São os interesses de seus associados.

O futebol mexicano ligou-se ao futebol sul-americano por interesses mútuos, mas que foram, inicialmente, muito maiores dos mexicanos, todos eles interesses de caráter técnico: os mexicanos, podemos dizer com pouco ou até nenhum exagero, queriam aprender a jogar o esporte bretão que consagrou Cabañas. O fato da seleção mexicana ter evoluído no ranking mundial e ser hoje considerada uma seleção de bom nível, ocorre de forma simultânea com sua entrada na Copa América e o ingresso dos clubes mexicanos na disputa da Copa Libertadores. Dessa forma, os confrontos contra equipes e seleções de países com pouca ou nenhuma expressão futebolística da América Central e Caribe, foram substituídos por disputas muito mais duras no seio da Libertadores, principalmente, e depois também na Copa Sul-Americana. Esses fatos não são apenas coincidências, há entre eles íntimas relações de causa e efeito, que não são totais, mas respondem, em minha opinião, por parcela significativa desse desenvolvimento. Portanto, aos mexicanos interessou, desde sempre, a associação ao futebol da América do Sul.

Da mesma forma, mas em menor intensidade num primeiro momento, interessou também à América do Sul ligar-se ao México, mais por motivos políticos do que econômicos. Num segundo momento, porém, e esse está ligado de forma clara à integração econômica com Estados Unidos e Canadá através do NAFTA, o México literalmente explodiu economicamente, crescendo numa velocidade muito superior a de todos os países sul-americanos. Em poucos anos o PIB mexicano ultrapassou o brasileiro. Nos últimos três anos, muito mais por motivos cambiais que propriamente econômicos, o PIB brasileiro voltou a ser maior que o mexicano. Isso, porém, nem é tão importante, pois o tamanho do mercado mexicano já é gigantesco o bastante para torná-lo extremamente atraente. Portanto, econômica e financeiramente, hoje interessa muito à Sudamericana estar ligada ao México.

Vou mais longe: em 2007 o Dallas disputou a Copa Sul-Americana. Nesse ano será outro, ainda não sei qual, mas teremos novamente um time da MLS – Major League Soccer – na nossa Copinha. A MLS está crescendo, e breve deverá ter 16 ou 18 clubes filiados, dois dos quais do Canadá (um em fase de ingresso). Talvez em 2010 – mas por mim seria já, ou até mesmo antes, em 2006 ou 2007 – teremos pelo menos dois times da MLS disputando a Copa Libertadores.

Isto não é informação de cocheira, não é inside information, é apenas a minha opinião e previsão baseadas no que conheço e tenho lido a respeito do futebol nas Américas.

Porque o Banco Santander investe tanto na Copa Santander Libertadores?

Em parte porque o banco tem no México sua maior operação latino-americana depois do Brasil. Da mesma forma, esse mercado ampliado é o que mantém a Toyota e motiva o VISA, outros patrocinadores de La Copa.

A satisfação dos clubes brasileiros e argentinos com a disputa daCopa Libertadores tem sua razão maior de ser nos ganhos que ela proporciona e que, estou certo, ainda têm muito a crescer. Quando falamos em México, falamos em agregar um mercado consumidor ligado a um PIB de 1,2 trilhão de dólares. E agora começamos a falar no mercado latino dentro dos Estados Unidos, um mercado que, sozinho, é maior que a soma de todos os países sul-americanos.

O caminho da integração é irreversível

Igualmente irreversível é que a CONMEBOL e a CONCACAF jamais abrirão mão de ter seus campeões a representá-las no Mundial de Clubes. A possibilidade de um time de outra confederação representar a CONMEBOL é nula. É um conjunto vazio, matematicamente falando.

Isso é sabido por todos desde sempre. Essa regra pétrea, imutável, foi estabelecida como condição sine qua non para que os mexicanos, e brevemente os americanos, disputassem a Libertadores. É algo sobre o qual não há discussão possível, algo como querer discutir a Lei da Gravidade. Os mexicanos aceitaram e aceitam plenamente essas condições, bem como a de que todo jogo final das Copas seja disputado em território sul-americano, porque para eles disputar esses torneios contra equipes sul-americanas é uma excelente forma de desenvolver seu futebol. Eles em nada são prejudicados, assim como os americanos futuramente, porque disputam a indicação para o Mundial de Clubes através de outra competição. Ninguém é prejudicado, portanto, numa análise fria da situação.

Em suma, a situação tal como é hoje, é atraente para todos os envolvidos, cada qual com seus motivos.

Nenhum centro de poder abre mão de seu sangue vital.

O poder não se transfere, o poder não se dá, o poder é sempre conquistado e defendido com unhas e dentes.

Essas regras são universais, atemporais, extremamente básicas.

Eu, particularmente, sou favorável e, dentro de minhas limitações, escrevo a favor da integração e da entrada dos americanos, dentro das regras do jogo tal como ele é jogado.

Ao menos por enquanto, estamos numa situação winning-winning, ou seja, onde os dois lados ganham e ninguém perde.


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sexta-feira, maio 16, 2008

Torcedor-VIP e o Marketing de Relacionamento


Marketing e Futebol já se estranharam, já andaram de namorico, passaram a namorar, noivaram (lembram, quando as pessoas noivavam, trocavam alianças e coisa e tal?) e, ao que parece, andam bem casados e em evolução patrimonial e familiar. A relação entre os dois vai muito além da estampa do nome de uma empresa na camisa de um clube. Essa é somente a parte mais visível de um mundo cada vez mais amplo e complexo, mas que, no fundo, se olharmos com um mínimo de atenção, é muito simples e resume-se a conquistar corações & mentes (*) para uma empresa, um produto, uma causa, uma política.

Uma das melhores ferramentas para cativar a simpatia do consumidor, do próprio funcionário ou de formadores de opinião, é o marketing de relacionamento. Um bom exemplo do casamento dessa ferramenta com o futebol é o programa “O Santander quer você na torcida”, em São Paulo. Através dele, convidados do banco são levados para o Morumbi onde assistem aos jogos do Tricolor em local especial do estádio, reservado, com alguns serviços que tornam o ato de ir torcer num programa inesquecível e, literalmente, delicioso.

Esse blogueiro foi o feliz convidado para ver o jogo São Paulo x Fluminense, primeira partida válida pelas quartas-de-final da Copa Santander Libertadores. É sobre esse passeio que vou escrever um pouco, e vou misturar a visão do profissional de marketing e do torcedor são-paulino. Quem não for tricolor, por favor, releve alguns arroubos.

O prazer de ser torcedor VIP no Morumbi

Anteontem fui ao Morumbi em alto estilo, como convidado do Banco Santander, patrocinador oficial do torneio preferido dos são-paulinos, a Copa Santander Libertadores, a competição com a qual a torcida do São Paulo tem uma “química especial”, como há anos diz Galvão Bueno.

Foi uma noite em alto estilo, e vi futebol como nunca antes havia visto, apesar de freqüentar estádios desde o já distante 1967, quando Benê, centroavante do Corinthians, a 30 segundos do apito final da partida tirou da boca de dezenas de milhares de são-paulinos o grito há 10 anos sufocado de “campeão”. Na seqüência, o São Paulo disputou um “supercampeonato” com o Santos e... Bem, passaram-se mais três anos antes do grito sair da garganta.

Não preciso e não vou recorrer aos chavões de “parecia que estava na Europa” ou coisa parecida, para falar da experiência vivida nessa quarta-feira. Melhor que isso, estava no Brasil, mesmo, estava na minha cidade. Bom, vá lá, pensando bem, ficaria ainda mais feliz se algumas das boas coisas da Europa estivessem por aqui, como Kaká, Cicinho, Luiz Fabiano, Breno e Lugano, e paro só nesses nomes para não fazer uma lista quilométrica. Vamos, então, ao assunto, pois já é hora.

O Espaço Santander está localizado no anel inferior, na quina do campo, e para melhor visualização imagine que a bandeira de escanteio está quase no centro do local reservado aos convidados do Banco. Para quem é são-paulino, trata-se de um local privilegiado, pois num tempo do jogo assiste a Rogério Ceni trabalhando ali perto – eu disse trabalhando? nem tanto, nem tanto, com essa defesa voltando a jogar em alto nível Rogério não tem tido muito trabalho, felizmente – e no outro tempo tem o privilégio de ver de perto o ataque do Tricolor. Nesse jogo, por exemplo, aquela arrancada do Adriano até o cruzamento para o Aloísio quase no final da partida, foi bem na nossa frente. Um privilégio – essa é a palavra certa – ver um lance como esse dali, mais próximo do nível do campo, mas sem perder a visibilidade dos anéis superiores. Acostumados com a visão distante das câmeras ou a visão superior – só pela altura – das cativas e arquibancadas, a gente acaba esquecendo de como é gostoso assistir a um jogo quase no nível do gramado. As ações são mais vivas e emocionantes.


Afinal, foi bom ou não?

Você já deve estar perguntando se foi bom, certo?

Não, não foi bom simplesmente, foi bom demais. E não me refiro ao jogo, estou falando da experiência de ser torcedor convidado do Santander, um torcedor-VIP.

Nós, os convidados, reunimo-nos num shopping, numa área especial de uma churrascaria que o que tem de chique tem de comida gostosa. Com as canecas de chopp indo e vindo, acompanhadas por costelinhas de porco, frango frito e batatas fritas, a espera é tão boa que o chamado para embarque é recebido com alguns “Mas já?”, meio entristecidos. Dali, em vans bem confortáveis, fomos para o estádio. Detalhe: cada van tem uma escolta própria. Infelizmente, essa é uma despesa necessária para o Banco, pois segurança é coisa boa e todo mundo gosta e nesse assunto a única coisa que conta é prevenir.

O único problema, como de hábito, é o nosso velho trânsito, mas a conversa animada dentro da peruona, como a gente falava no interior, fez com que esquecêssemos o trânsito. Naquela em que eu estava o papo foi animado, com uma maioria de são-paulinos, mas também um corintiano bastante feliz com a festa e um torcedor do Fluminense, por coincidência bem ao meu lado. Como temos idades próximas, a conversa fluiu agradavelmente, menos quando falamos da maravilhosa Seleção de Telê, em 82. Aí, não tem jeito de evitar uma certa tristeza, especialmente para quem já era adulto naquela altura. Um são-paulino de uma cidade da Grande Campinas fez parte da conversa e quando chegamos ao Morumbi já éramos “amigos de infância”. Só o futebol, mesmo!

Paramos em frente ao Portão 4 e dali para o Espaço Santander foi um pulinho, com direito a uma catraca exclusiva. Podem apostar que tudo isso foi colocado na planilha de custos pelo São Paulo, que não dá ponto sem nó, como diria minha avó.

O Santander caprichou. A entrada reproduz o túnel que liga o vestiário ao gramado.

Dá quase vontade de fazer um grupinho, todo mundo abraçado e coisa e tal e soltar um grito de guerra. De repente, termina o túnel e estamos à vista do gramado. Só para variar, o coração dá uma batida mais forte à vista do tapete verde que foi, é e será palco de muitas alegrias. Tristezas também, afinal, elas têm a serventia de valorizar ainda mais os momentos de alegria.

Capricho, mesmo, estava reservado para nós ali dentro: depois do gramado, a gente não tem como não olhar para um comprido balcão, cheio de comidas prontas ou sendo preparadas na hora. Até cardápio para fazer a escolha tinha! Logo depois, outro balcão, esse para as bebidas. Se o primeiro balcão ainda estava vazio, o segundo já estava cercado pelo pessoal. Alguém se espanta com isso?

Ontem, comentando o assunto com o pessoal do Santander, perguntei se a restrição do álcool atrapalharia o sucesso dessa ação e a resposta foi curta e tranqüila: “Nós respeitamos as regras, se não puder ter álcool não terá e não acreditamos que isso vá trazer alguma perda de interesse em atender nossos convites” – disse meu interlocutor, que terminou a resposta e perguntou-me à queima-roupa: “Você deixaria de ir só porque não tem cerveja?” Nem é preciso responder, não?

No mais, as conversas rolaram gostosas, e com a bola em jogo a rapaziada deu sossego ao pessoal dos comes & bebes. No intervalo peguei um copo de refrigerante e estava voltando para minha cadeira quando fui educadamente barrado por um dos seguranças: não pode descer com copo, mesmo de plástico. Perfeito, afinal, lembram da resposta do executivo da empresa? As regras devem ser respeitadas por todos, convidado-VIP ou não. Bebi minha Coca (já é parceira do São Paulo, quem sabe será a próxima patrocinadora da camisa, como diz a boataria?) e fui sentar sem o copo.

O Espaço tem um monte de televisores por toda parte. Confesso, envergonhado, que me flagrei algumas vezes vendo o jogo pela tela. Mas corrigi a falha e voltei o olhar para o campo. Uma curiosidade: há um delay, um intervalo de dois segundos, entre o evento que vemos no campo e sua reprodução ao vivo e a cores na telinha. Esse atraso acontece porque a imagem é captada pelas câmeras, passa pela unidade de transmissão ao lado do estádio, é jogada para um satélite do qual volta para a antena que vai distribuir o sinal pelos monitores. O satélite está em órbita geoestacionária – ou seja, aparentemente “parado”, pois sua velocidade é a mesma do planeta – próximo à linha do Equador, a 36 ou 40.000 quilômetros de distância. Então, esse circuito de 80.000 mil quilômetros provoca esse delay de dois segundos. Dá tempo de ver o Adriano chutar, acompanhar a bola até o gol e ver o lance novamente, ao vivo pela segunda vez, nos monitores. Depois é só soltar o grito de gol, dois segundos atrasado em relação à galera que só viu a imagem do campo mesmo.

Gostei da experiência e relatei-a para vocês para dar uma idéia do que acontece no Morumbi e de como o marketing vem se tornando mais e mais importante na vida e nas finanças do São Paulo F.C.


O marketing pelo clube e pelo cliente


O Estádio Cícero Pompeu de Toledo deixou de ser apenas um centro de custos, como era até poucos anos atrás, para transformar-se numa unidade de negócios e, como tal, ser um gerador de receitas.

Quem viu as matérias sobre o balanço do clube, aqui mesmo nesse Olhar Crônico Esportivo, e como foi destacado, por exemplo, no Futebol & Negócio pelo Maurício Bardella, deve ter ficado impressionado com os números do estádio: receita de 14,2 milhões de reais para uma despesa de 6,5 milhões, gerando um superávit de quase 8 milhões de reais, ou seja, mais de duas rendas brutas de uma final de Libertadores com seus preços especiais.

Dessa receita total, quase um terço veio dos camarotes, uma fonte de renda que ganha maior importância a cada ano. Para mim, foi uma descoberta incrível saber que o Espaço Santander não está incluído nesse número. Sim, porque eu tinha certeza que o Banco Santander tinha um megacamarote no Morumbi. Descobri somente anteontem e até para minha surpresa, que o Banco tem um espaço ainda mais interessante e agradável que um camarote, mas isso já ficou claro mais acima.

O relacionamento da Unidade de Negócios Morumbi com o Santander não pára, entretanto, na locação desse espaço e, hoje, o Morumbi é parte importante do investimento da empresa no futebol. Para aproveitar melhor as transmissões, duas placas extras nas laterais do gramado e a cobertura do círculo central antes do jogo e no intervalo, com o logo Santander, foram negociadas com o clube.

Tudo isso, incluindo o Espaço Santander, foi negociado dentro do acordo mais amplo de patrocínio da Copa Santander Libertadores com a CONMEBOL, sempre através da ISM – International Soccer Marketing – a agência de marketing contratada pela Confederação para organizar e negociar tudo que diga respeito à Copa. Dessa forma, o Santander foi além do que lhe deu direito o contrato de patrocínio – o nome da competição e duas placas nas laterais – transformando cada jogo num evento e otimizando-o cada vez mais.

Anteontem, segundo a avaliação do patrocinador, foi o ponto alto nas ações envolvendo convidados para assistir aos jogos do São Paulo pela Libertadores até esse momento, que começou com apenas 50 convidados e que nesse jogo chegou a nada menos que 200 pessoas, entre clientes do banco, funcionários e jornalistas. À medida que o número de convidados aumentou, diferentes locais do estádio foram testados, até fixar-se nessa área das “cadeiras azuis”, sem dúvida muito bom. As pesquisas realizadas depois de cada evento apresentam resultados excelentes, com um índice de Satisfação elevadíssimo – 96%. Não duvido absolutamente nada dessa marca, pois, apesar de exigente e crítico nesse assunto, meu índice de satisfação superou os 96% da média. Honestamente, posso assegurar que a vitória do São Paulo não foi determinante para isso. Já a boa comida, essa sim, com certeza influiu.

Aqui vale a pena falar um pouco mais sobre o assunto. Para expandir-se, o Santander fez aquisições de outros bancos no México, Chile, Argentina e Brasil. Depois de um período inicial de ajustes e aprendizado, as marcas antigas deram lugar à marca única Santander, e essa convergência de marcas, associada ao crescimento dos negócios é o objetivo maior da grande campanha de marketing lançada nos dois continentes, que tem na Copa Santander Libertadores seu carro-chefe e peça mais visível de comunicação.

Nas conversas com os companheiros de perua, descobri que alguns eram funcionários de diferentes agências e áreas internas, vindos de organizações que foram adquiridas pelo Santander e que estão no foco do marketing interno da corporação, com a finalidade de incorporá-los, plenamente, ao espírito do banco.

É um trabalho intenso, com pessoas de diferentes culturas organizacionais, e eventos desse tipo dão a esses funcionários uma dimensão maior e melhor do que é a corporação e, sem dúvida, facilita e acelera o nascimento entre eles do orgulho de pertencer ao Santander, objetivo final das ações de integração.


Agora e no futuro também

Antes de concluir, não posso deixar de dizer, também, que quando o maior banco da América Latina e terceiro do mundo faz negócios como esses com um clube, ele está, também, e ainda que indiretamente, reconhecendo a seriedade e a importância dessa entidade esportiva como parceira de negócios, o que vem a demonstrar a importância cada dia maior de administrações sérias e profissionais, coisas ainda raras no nosso mundo futebolístico.

Posso adiantar que tudo isso vai repetir-se e até crescer em 2009, na próxima Copa Santander Libertadores. Só depende, é claro, de cada clube fazer sua parte no campo.

O futebol agrega satisfação e alto grau de comunicação.

Mesmo antes do final da primeira competição contratada, percebe-se que há satisfação com os resultados alcançados, cuja tendência é melhorar.

Em setembro de 2007 esse Olhar Crônico Esportivo previu que a chegada do Santander ao futebol latinoamericano seria importante e que a Copa Libertadores, agora Copa Santander Libertadores, ganharia importância ainda maior.

Mesmo sem os números para comprovar, dá para afirmar que é o que está ocorrendo.

Para quem gosta de futebol, o banco vem cumprindo seu lema:

Sua paixão, nosso compromisso.

*(Essa menção a “corações & mentes” tem lá sua razão de ser, em especial para alguém da minha geração; Lyndon Johnson, então presidente dos Estados Unidos, disse que era importante que os americanos conquistassem os corações e mentes vietnamitas para deter o avanço vietcong... Não deu muito certo, como bem sabemos, mas rendeu um dos maiores documentários, talvez o mais importante, da história do cinema – “Hearts and Minds”.)


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segunda-feira, abril 28, 2008

Já são duas e meia e nada

Atendo o telefone em meio a um roteiro meio complicadinho que deixa o tico e o teco meio perdidinhos.

- Emerson.

- Emerson, é você?

- Não, é meu espírito, desencarnei e voltei só pra atender telefonemas. Diga lá...

- Tá bom, mas você é chato, hein?

- Hum hum, eu sei. Diga lá.

- Pô, cara, já são quase duas e meia da tarde e nada!

- Nada? Ihhhh, rapaz, isso é grave. Olha, fica assim não, dá uma corrida à padaria mais próxima e coma pelo menos um mixto-quente e tome um suco de laranja. Melhor ainda: uma vitamina. Vai te dar mais sustança e substituir bem o almoço.

- Que almoço, cara? Tá louco?

- Eu não, você é que parece meio doidinho, mas deve ser pela fome, afinal, duas e meia da tarde e ainda sem almoçar é...

- Se liga, cara, tô falando da inscrição de novos jogadores pros mata-mata da Libertadores! Daqui a pouco fecha o negócio, lá, guichê, escritório, o que quer que seja da Conmebol e a gente não inscreveu ninguém. P****, você não falou que o São Paulo ia contratar o Rodrigo? Cadê ele?

- Ué, e eu vou lá saber? Pra mim ele está treinando no Flamengo.

- Mas você falou que ele vinha pro São Paulo...

- Não, nada disso, eu só comentei que ele poderia vir pro São Paulo se e somente se não resolvesse sua situação com o clube da Gávea e o Dínamo Kiev desse seu ok para a transferência. Você anda lendo colunas e notinhas sensacionalistas.

- Ah, mas assim não vai dar, a gente já perdeu o Paulista e agora só resta a Libertadores.

- Calma, garoto, não se precipite. Perder o Paulista não quer dizer muita coisa, já cansei de falar isso. Imagine o Flamengo que vai pro México, joga quarta-feira, volta, joga domingo e recebe o time mexicano na outra quarta. Seguir adiante no Estadual leva a isso: desgaste físico e o desgaste emocional provocado pelas pressões de todo mundo: torcedores, dirigentes, jornalistas, uma festa, em suma, a Festa da Pressão.
Sem direito a válvula. Se ficar muito forte estoura tudo. Pro São Paulo foi bom negócio ficar fora dessa final contra a Ponte Preta, apesar do dinheiro da renda e do prêmio pro campeão.

- Ah, mas pra você é fácil falar isso, fica aí metido a analista e coisa e tal. Coloque-se no lugar do torcedor pra ver o que é bom.

- Ué, e eu sou o que? O ET de Varginha? Fique tranqüilo, o São Paulo e os outros brasileiros têm bons elencos, vão encarar bem esses jogos que virão, pode apostar.

- Ah, tá bom, tá bom, até parece que vamos encarar o Riquelme e...

- Alto lá! Vamos parar com isso, que coisa chata e boba. O Juan Román é um grande...

- Quem?

- João Romão, para os íntimos, Juan Román para os xeneizes e Riquelme pra todo mundo, captou?

- É, captei, você é cheio de graça sem graça.

- Hehehehehehe... Tem quem goste.

- É, tem mesmo, os desmiolados.

- Vai baixar o nível agora?

- Não, é que você me irrita com essas palhaçadinhas.

- Hummmmmmmmmmm... Tá bom, vamos lá, então, sem palhaçadinha.
Olhe, o Riquelme é muito bom, provavelmente o melhor jogador em ação na América do Sul nessa temporada, mas ele é humano, sujeito a dores de barriga e de cabeça, sujeito a humores, sujeito a ter noites ruins, tanto quanto noites ótimas. Então, não é um semi-deus, entendeu? Pode ser bem marcado, ora pílulas!

- Ah, sei, quem é que vai marcar o cara? De repente ele faz uma jogada lá e resolve tudo. Aí eu quero ver.

- Aí não terá nada demais, será apenas um jogo perdido por causa de uma grande jogada de um grande jogador. Você acha que o Santos de Pelé & Cia. ganhava tudo? Não era bem assim. Perdia, também, tinha jogo que o Pelé não resolvia. Isso é esporte, e acima de tudo é futebol. Relaxa, com ou sem Rodrigo o São Paulo tem tudo para fazer boa campanha nessa Copa.

- Você acha mesmo?

- Sim, eu acho. Não só o São Paulo. Vamos ver como o Flamengo vai resolver esse abacaxi do América do México mais o Botafogo. Começou bem ontem, mas o jogo-chave é depois de amanhã e vai ser brabo, brabíssimo. O Cruzeiro ontem deu show, em parte porque o Atlético entrou em pane, deu curto-circuito. Não foi normal aquele placar. Vamos ver como eles vão se sair na frente do Boca e do Juan Román lá na Bombonera. Vai ser interessante.

- E o Flu e o Peixe?

- Acho que a LDU não anda muito bem, o time perdeu muito em relação ao de 2006 e 2007, deve passar o Fluminense. Já o Santos, bom, vai depender do jogo na Vila, que é o primeiro. Tem que fazer resultado. Se não conseguir, não será na Colômbia que vai fazer. Já disse quase tudo isso no post de outro dia, só estou repetindo.

- É, bom, tá certo... Mas eu é que não queria pegar o Boca pela frente.

- Ué, se você sonha em ser campeão não pode ficar com frescurite de enfrentar um ou outro. Tem que enfrentar e ponto. Peraí, deixa abrir um e-mail aqui...

...


- Chegou uma notícia agora: o vice-presidente de futebol do São Paulo disse que o Rodrigo poderá vir, mas não a tempo de ser inscrito para essa fase. Talvez para a próxima.

- Puta merda! Eu sabia, eu sabia, pô, a gente tá sem zaga, não quero nem ver.

- Calma, garoto, relaxa.

- Que calma o que, cara! Essa diretoria tá louca, só pode ser, nunca vi uma coisa dessa, onde já se viu! Fui!

É, taí um torcedor preocupado, e o pior é que nem tem tantos motivos para tanta preocupação com o que vem pela frente.




Post scriptum

Diretamente da CONMEBOL:

Los clubes San Lorenzo (ARG), Cruzeiro (BRA), Flamengo (BRA), São Paulo FC (BRA), y Atlas (MEX) realizaron modificaciones sus listas de jugadores inscriptos para la Copa Santander Libertadores 2008, previo a la disputa de los octavos de final.


Detalle de los reemplazos:


SAN LORENZO

Entra: 4 VOBORIL Germán Ariel (Defensor, 05/05/1987, ARG)

Sai:4 ORTIZ Jorge

CRUZEIRO

Entra: 22 FERRAZ DAS NEVES Bruno "BRUNO" (Lateral izquierdo, 11/06/1984, BRA)

Sai: 22 FERNANDINHO

FLAMENGO

Entra: 19 RIBEIRO SANTOS Airton "AIRTON" (Volante, 21/02/1990, BRA)

Sai: 19 LEO MEDEIROS

SÃO PAULO FC

Entra: 19 DE OLIVEIRA BARROS Jancarlos "JANCARLOS" (Lateral derecho, 15/08/1983, BRA)

Sai: 19 CARLOS ALBERTO

ATLAS

Entra: 7 GARCÍA DE LEÓN Eduardo (Delantero, 01/11/1988, MEX)

Sai:7 ACHUCARRO Jorge

Entra: 22 VERGNE Danilo (Volante, 15/10/1981, BRA)

Sai: 22 ALFÉREZ Hebert

Entra: 24 GUTIÉRREZ Carlos Alberto (Defensor, 03/02/1990, BRA)

Sai: 24 MARTÍNEZ Hugo


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sexta-feira, abril 25, 2008

Caminhos para o título

A Copa Santander Libertadores entra na sua 3ª e última fase, a das eliminatórias, ou, popularmente, a fase do mata-mata. São dezesseis clubes, dos quais cinco são brasileiros, cinco são argentinos, dois colombianos, um equatoriano, um uruguaio e dois mexicanos. Seria ainda mais interessante se pelo menos um time do Chile e um do Paraguai tivessem entrado, preferencialmente em lugar de um brasileiro e um argentino. Dessa forma, a geografia e a realidade do futebol latino-americano estariam ainda melhor representadas. Nesse ponto, penso como a CONMEBOL: maior diversidade, maior representatividade, maior atração para o público das três Américas e também de todo o mundo. Isso, é claro, respeitando os méritos esportivos dos participantes.

São dois os caminhos possíveis para chegar ao título: um, sai da esquerda do quadro abaixo, e o outro sai da direita, ambos convergindo para o centro. Aliás, tal como acaba ocorrendo na vida das pessoas e das sociedades, pelo menos daquelas, na minha opinião, com mais visão e sensatez.





Aqui é importante esclarecer que, uma vez mais, surge a possibilidade de uma nova final entre clubes brasileiros, pois os cinco classificados estão em chaves opostas, sem confronto direto inicial, e de tal forma que três poderão chegar à semifinal. O mesmo não ocorre entre os cinco argentinos, pois River Plate e San Lorenzo se enfrentam nas oitavas-de-final. O vencedor desse duelo enfrenta o vencedor de Estudiantes e LDU. Supondo que seja o time argentino, teríamos, assim, um argentino na semi-final do lado direito da chave. Pelo lado esquerdo, Boca e Lanús podem chegar às quartas-de-final, passando um deles para a semifinal pelo lado esquerdo. Nesse caso, teríamos, provavelmente, um confronto entre Boca e um time brasileiro – Fluminense ou São Paulo. Isso, porém, não acontecerá, pois o regulamento da Copa Santander Libertadores determina que clubes do mesmo país se enfrentem na semifinal, de forma a tentar garantir uma final entre times de países diferentes. A final brasileira, entretanto, poderá acontecer caso cheguem à semifinal o Cruzeiro e Fluminense ou São Paulo. No outro lado da chave, Flamengo ou Santos enfrentariam um dos times argentinos ou a LDU.

Da forma como ficaram colocados os times, esse ano é possível uma final Brasil x Argentina. Nesse caso, na visão desse Olhar Crônico Esportivo, o menos improvável seria entre Boca e São Paulo ou Fluminense.

Quanto às análises e chances de cada time, os jornais e sites estão recheados de ótimas matérias, melhores do que poderia fazer esse blogueiro. Em relação ao que está por vir, um pequeno lembrete: o fato de times como o América mexicano e o colombiano, por exemplo, estarem se arrastando pelas rabeiras de seus campeonatos nacionais é irrelevante. A importância da Libertadores fora do Brasil é ainda maior que aqui, onde as equipes dividem sua atenção entre um campeonato estadual e a competição máxima do continente. Para um colombiano, por exemplo, tal coisa é impensável. Todos eles sabem que não há título maior que o de campeão da Libertadores, exceto o de campeão Mundial. O Flamengo e o Cruzeiro estarão divididos entre seus estaduais e a Libertadores. Ambos disputarão os títulos em dois clássicos locais de alta rivalidade e octanagem. A menos que estejamos diante de dois times excepcionais, prontos a fazer História em grande estilo, essa disputa será péssima para ambos.

Alea jacta est.

Boa sorte a todos.


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sexta-feira, março 14, 2008

S.Excia., o Embaixador da Libertadores



O Rei agora é Embaixador, mas sem perder a majestade jamais.

A presença maciça de jornalistas de todos os tipos de mídia é a comprovação, como se fosse necessária, dessa verdade. Ao final da entrevista coletiva, um muro sólido e compacto ergue-se em torno do Rei do Futebol. Quando ele se movimenta, o “muro” movimenta-se junto, e só um garçom com muita presença de espírito e agilidade evitou o desastre que teria sido o choque do “muro” móvel com uma mesa onde mais de 200 copos e taças estavam arrumados, aguardando para serem usados. Mesmo de raspão, o choque levou algumas finas taças para o chão. O “muro”, impávido colosso, nada sentiu, nada percebeu, pois o “muro” é todo olhos e ouvidos para o Rei.

Rei do Futebol só existe um e um só, Pelé. Informação redundante, pois estou certo que todos já sabiam sobre quem eu falava.



Embaixador Santander

O Banco Santander apresentou hoje, em São Paulo, Pelé como seu Embaixador na Copa Santander Libertadores.

Seu carisma, aparentemente eterno, vai ajudar ao banco a consolidar sua marca por toda a América Latina, onde já é a maior instituição financeira na somatória dos países. No mundo, é o sétimo, mas como disse Don Emilio Botín, seu presidente mundial, já está brigando para vir a ser o maior banco do mundo. Em seu discurso, Pelé declarou-se pronto a lutar por isto, lembrando que só jogou em times campeões, para alegria dos muitos diretores do Santander presentes ao evento.

Gostei de ver isso: o presidente mundial de uma empresa do porte do Santander, acompanhado por meia dúzia de seus principais diretores, prestigiando um evento ligado à Copa Libertadores de América.

Sem dúvida, é mais que justo acrescentar-lhe o Santander.

O banco dá enorme importância à Copa, como esse blog destacou desde antes da assinatura do contrato de patrocínio, e isso é muito positivo para o torneio, portanto, para o futebol latinoamericano como um todo.

Cabe destacar que o Santander é um dos maiores empregadores dessa imensa região, com nada menos que 65.000 funcionários do México à Argentina, sem contar, ainda, com os milhares de funcionários do recém-adquirido Banco Real.

Emilio Botín destacou em suas palavras o prazer de vir ao Brasil num momento como esse, em que uma crise de porte ronda os grandes mercados mundiais, a começar pelos Estados Unidos, onde originou-se e ameaça crescer. Segundo ele, “venir al Brasil es una injeción de otimismo... y dinamismo”. Disse mais Don Emilio, que o Brasil “será o último país a ser afetado por uma crise, pois o Brasil hoje é uma fortaleza e está preparado” (para enfrentar turbulências externas). Suas palavras podem ser protocolares, mas não deixam de ser agradáveis, mesmo porque por mais protocolares que sejam, são verdadeiras em boa parte, talvez na totalidade, apesar dos muitos problemas que vivemos.

(Essa estabilidade econômica é parte da “herança maldita”... nota do Editor.)

E o futebol só tem a ganhar com economia estável e mais ainda com renda melhor distribuída.

Pelé falou sobre o futebol brasileiro, mas para suas palavras vou abrir um post exclusivo. O Rei merece.

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terça-feira, março 11, 2008

¿Qué pasa?


¿Qué sucede con San Pablo?

Tempos estranhos...

O aquecimento global é uma realidade, mas o verão teve cara e gosto de inverno brando, em janeiro e fevereiro.

Terroristas, narcotraficantes e seqüestradores ditam os rumos da política externa de vários estados independentes da América do Sul e muita gente acha normal.

O dólar despenca e o real sobe. Mais um pouco e será mais barato fazer shopping na Florida que no Iguatemi aqui da Faria Lima.

Aquele que é celebrado em prosa e verso de norte a sul, leste a oeste, como o melhor time e melhor clube do Brasil, é agora a “geni” da vez. Jogam pedras sobre tudo, nem o famoso REFFIS escapa, nem a decantada diretoria se livra dos petardos.

Como em “A vida de Brian”, muita gente que não deveria atirar pedras está atirando, usando as proverbiais e circenses barbas falsas que Monty Python consagrou.

O disfarce é inócuo e bobo como no filme, mas é usado para disfarçar a moral e não o rosto. É compreensível.

Torcedores, talvez enfastiados com o histórico recente de conquistas, são os primeiros a pegar os pedregulhos. Os que chegam atrasados valem-se dos não menos proverbiais camelôs, vendendo os projeteis em sacolas com doze e seus múltiplos. Ninguém quer perder a festa, o happening do Morumbi. No blog Jogo Aberto, meu amigo Lédio Carmona elegeu o São Paulo como a decepção desses primeiros... 70 dias de 2008, ou primeiros 62 dias da temporada Tricolor.

Senhores, senhoras, 62 dias de atividades, é a isso que se resume a temporada. Entretanto,nesse curto período, a equipe disputou 15 partidas – quinze. Não foi a única, bem sei, há outras com o mesmo número de jogos. Nessas 15 partidas em 53 dias, ou um jogo a cada três dias e meio, Muricy Ramalho não conseguiu repetir a mesma formação uma única vez. Nem para remédio. Foram 15 jogos com 15 formações diferentes.

O São Paulo foi o grande clube que mais perdeu jogadores titulares: nada menos que três, um em cada setor da equipe. O Palmeiras perdeu apenas um e o Flamengo nenhum jogador, por exemplo (o caso do Corinthians não se encaixa aqui). Essas perdas desmontaram não tanto o esquema tático, mas principalmente a fluência do jogo do São Paulo. E, tão ruim ou pior, quebraram o encaixe que tinha o time de 2007. Por causa de três saídas, várias posições e jogadores foram mudados.

Pesa nos resultados o fato do time disputar um estadual que é, sem dúvida, o mais difícil do Brasil, onde, das 20 equipes, 4 estão na Série A do Brasileiro, 7 na Série B e mais algumas na série C. Vale dizer que o líder da competição, o empresarial Guaratinguetá, preferiu não disputar a Série C para não perder dinheiro. Obviamente, o grau de dificuldade num campeonato como esse é muito maior do que o enfrentado por clubes grandes de outros estados, alguns com campanhas excelentes. Boa parte da gritaria recente deve-se à derrota para a Portuguesa. Aparentemente, as pessoas parecem ter esquecido que a Lusa subiu para a Série A com um time bem montado, ancorado em forte e eficiente sistema defensivo, muito bem dirigida por Vagner Benazzi. Uma derrota para esse time, numa fase da competição como essa, não é anormal, nada tem de extraordinária.

O jogo contra a Portuguesa foi o terceiro em sete dias, numa seqüência que pode ser ampliada para quatro jogos em quatorze dias, com três viagens no meio, sendo que duas delas ocuparam um dia inteiro, praticamente, cada uma. Meros detalhes sem importância, aparentemente, principalmente para quem tudo vê de fora, sem vivenciar o dia-a-dia do clube e dos atletas.

O atual elenco Tricolor é reduzido, conta com 26 atletas, incluindo os juniores promovidos. Desse total, nada menos que 9 jogadores estavam sem condições de jogo na noite de sábado, dos quais dois por suspensão e os demais por contusões. Com apenas 17 jogadores em condições, sobrou um lugar no banco de reservas.

O técnico Muricy Ramalho diz que o time está cansado e o Depto. Médico tem vários casos para trabalhar. O que acontece com o São Paulo do famoso REFFIS?

Comentei a respeito disso ainda ontem no blog do Marcelo Damato. Transcrevo minhas palavras e a sua resposta:

“Isso (o número de contusões e o cansaço) vem me intrigando nesse início de ano, início de temporada.

Não conversei com ninguém da área a respeito, embora tenha essa vontade, mas acredito que times desarrumados expõem os jogadores a maiores riscos de contusões.

Associado à desarrumação, temos a forte pressão externa que parece acompanhar o São Paulo, tanto ou mais que clubes sem a mesma taxa de sucessos.

Jogadores tensos, estressados, atuando sem o famoso “encaixe”, desgastam-se mais, ficam mais cansados e, uma coisa é certa, mesmo sem falar com especialistas: pessoas estressadas são mais sujeitas a lesões.”

E a resposta do Marcelo:

“...acho que você tocou num ponto importante. Jogar num time desarrumado, os próprios profissionais do São Paulo já me disseram, aumenta a chance de contusão, pelo aumento do esforço e pelo estresse.”

Agradeci ao Damato pela confirmação do que eu vinha pensando, baseado em conversas e leituras diversas de outras situações, mas com pontos de semelhança. Ainda ontem, um torcedor são-paulino fez uma comparação entre o mesmo período desse ano e o de 2005, mostrando que os jogadores de 2005 estavam, em sua maioria nessa mesma altura, com um número de jogos bem superior ao dos atuais titulares. Bom, eis aí uma verdade incontestável, mas que serve para provar a importância de um time entrosado. Quando o jogo flui, as jogadas acontecem, cada um sabe onde ficar e todos sabem onde cada um está, os resultados acontecem e o cansaço é menor. Sem tensão, a recuperação física é mais fácil e mais rápida, pois há necessidade apenas de descanso e repouso para a musculatura. O cérebro é poderoso e interfere com o corpo de formas diversas, algumas nem sequer compreendidas em toda sua extensão, ainda.

Ao mesmo tempo, avolumam-se as críticas a jogadores como Juninho e Joilson, além de Hugo e até Dagoberto.

Impaciência e insatisfação são os sentimentos na ordem do dia. Contra eles é difícil que qualquer argumento funcione. São os mesmos sentimentos que num tempo recente mandaram embora do Morumbi dois dos melhores jogadores que por lá passaram, Kaká e Luiz Fabiano. Outro vocábulo que começa com “in” tem lugar nessa análise: intolerância. Os três, por sinal, em algum momento podem até ser sinônimos, tão grande é a afinidade entre eles.

Na minha visão, modesta e de fora, o time não está jogando bem porque ainda não existe um time. O São Paulo 2008 não está pronto, está em fase de ajustes e testes. Não sei até quando vai essa fase, como também não sei se ela será o bastante para fazer a equipe avançar nas competições que disputa, principalmente a Copa Libertadores. O que sei é que vivemos um período semelhante em tudo ao vivido em 2007. Para o são-paulino, ficar mais um ano sem conquistar a Libertadores será um golpe terrível. A torcida parece ter-se acostumado a uma conquista que é extremamente difícil e que exige boas equipes. No momento, paradoxalmente, o São Paulo encontra dificuldades para montar uma boa equipe. Vários jogadores que eram pretendidos pelo clube assinaram com outros. A mesma política salarial e administrativa que foi e é a razão do sucesso do clube, contribui, nesse momento, para o não fortalecimento da equipe. Muito ruim a curto prazo, mas, sem dúvida, correto e bom a médio prazo, desde que a equipe existente consiga manter um bom nível de apresentações e de conquistas, como fez em 2006 e em 2007.

Na minha visão, portanto, nada há de errado com o São Paulo.

O que enxergo é uma coleção de “ins”: insatisfação, impaciência e intolerância.

Uma comandando e alimentando a outra, num ciclo vicioso.

Al San Pablo no le pasa nada.


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sábado, março 08, 2008

O falso mito da Libertadores


O jogo parecia-me normal, típico de uma partida bem disputada da Copa Libertadores.

O estádio, um pouco pequeno, estava lotado, a torcida cantando o tempo inteiro, animando e empurrando seu time contra um visitante de nomeada, poderoso, vindo do Brasil. Faltas normais, de jogo, uma ou outra um pouco mais forte, nada porém digno de chamar a atenção.

O final do primeiro já se aproximava quando o time da casa abriu o placar.

Um gol que nasceu com um certo auxílio, digamos, do goleiro adversário.

Festa, no campo e na arquibancada.

Reiniciada a partida, o time visitante parece querer correr mais do que corria antes. Bola para fora, o pegador de bolas, um garoto, não tem muita pressa em devolver a pelota. Subitamente, aparece ao seu lado um jogador do time visitante, correndo. Tira-lhe a bola e dá-lhe um empurrão. O garoto cai e o juiz, a poucos metros, corre em direção ao jogador. Sem titubear, mostra-lhe o cartão vermelho.

Dois minutos depois, um ataque do time da casa termina com a bola fora, pela linha de meta. Na jogada, um zagueiro visitante e o atacante local caem, a bola já fora, ambos encostados à linha de meta e dentro da grande área. O zagueiro levanta-se e, antes de se afastar do atacante ainda caído, dá-lhe um chute no rosto. Não um chute forte, mas um chute. No rosto. A arbitragem não vê o lance, ocorre um início de tumulto, mas fica só por isso.

Terminado o intervalo, os times voltam a campo. O visitante, como é natural, deve voltar mais calmo, cabeça no lugar, um jogador a menos, perdendo por 1x0, é hora de esfriar o jogo e tentar o empate em rápidos contra-ataques.

Certo?

Sim, em tese.

Então foi o que aconteceu, certo?

Não, não foi assim. Com poucos minutos de jogo, cinco ou seis, não recordo, o lateral-direito visitante simplesmente dá um chute nas costas de um jogador local, pegando-lhe as costelas. O árbitro corre e, embora o lateral já tivesse um cartão amarelo, mostra-lhe o vermelho. O lateral, pela gesticulação, diz que não viu o adversário. Impossível, simplesmente.

Não fosse o intervalo, tudo isso, do gol à segunda expulsão, teria ocorrido em cerca de dez ou doze minutos.

O visitante, que todos já identificaram, perdeu o jogo por 3x0. Um resultado até pequeno, dadas as circunstâncias.

Muito bem, vamos a uma pergunta fundamental?

Por que o experiente time do Flamengo perdeu a cabeça, perdeu-se e perdeu o jogo?

A arbitragem não influiu no resultado. Cometeu alguns erros, mas aqueles típicos, comuns a todos os jogos, nada dramático. De certa forma foi até favorável ao Flamengo ao não expulsar seu capitão, Fábio Luciano, ainda no primeiro tempo.

O que, então, terá levado um time como esse, que sequer é dos que mais cometem faltas, a ter um jogador empurrando um gandula (o nome disso, embora feio, é agressão), seu experiente capitão chutando o rosto de um adversário caído, e o não menos experiente lateral chutando as costelas de um adversário?

Provavelmente, a força, ainda que inconsciente, do velho mito segundo o qual nos jogos da Libertadores vale tudo, os adversários sul-americanos batem o tempo todo, catimbam antes, durante e até depois do jogo e os árbitros nada marcam, tudo relevam. Esse mito vai mais além, e inclui agressões por parte da torcida, pedradas, barulho na rua para não deixar os jogadores adversários dormirem, entre outras coisas.

A primeira parte é falsa, embora de vez em quando tenhamos alguns jogos meio atípicos. Os times sul-americanos evoluíram, jogam hoje, na média, melhor que antigamente, quando, a rigor, somente argentinos, brasileiros e uruguaios jogavam bom futebol (mas, mesmo sendo donos de bom futebol, o “bicho” pegava feio nos jogos contra eles, inclusive entre as seleções). As provocações diminuíram e o futebol cresceu. A violência em campo diminuiu muito, as arbitragens melhoraram e como a arbitragem nos demais países sul-americanos é mais à européia que à brasileira, os jogos fluem mais e têm baixos números de faltas. A televisão vem mostrando todos os jogos para todo o continente há muito tempo, e agora para todo o mundo. Antigamente não existia a menor preocupação com o doping, ao contrário de hoje em dia. Atualmente, jogar em Montevidéu, Santiago, Buenos Aires, Bogotá, Assunção, é a mesma coisa, praticamente, que jogar em Belo Horizonte, Recife, Rio ou São Paulo. Esse velho mito, portanto, é somente isso: um velho mito.

A segunda parte, porém, ainda é muito verdadeira. Na semana anterior, no jogo contra o Atlético Nacional em Medellín, Jorge Wagner, do São Paulo, só conseguia cobrar escanteios mal e porcamente, com a proteção dos grandes escudos de cinco ou seis policiais, que aparavam as pedras atiradas contra. E os jogadores que estavam na reserva não puderam manter-se aquecidos no local a eles reservado, porque a chuva de pedras não permitia.

Dentro de campo, porém, nada anormal. O time da casa saiu na frente e o São Paulo conseguiu empatar, levando o empate até o final, sem dramas, sem acidentes ou incidentes, sem faltas mais duras, sem bate-boca destemperado com adversários ou arbitragem.

Outros jogos, todos eles, aconteceram sem problemas dignos de notas.

Volto, então, à mesma pergunta: o que provocou o nervosismo e as reações destemperadas dos jogadores rubro-negros?

Creio que a falsa necessidade de ser mais catimbeiro que o time uruguaio, bater primeiro para não apanhar depois, ou bater para revidar. Falsa por se basear no já citado mito. Tudo bobagem, felizmente. Se tais atitudes nunca foram boa prática, hoje o são menos ainda. Vale repetir: a Copa Santander Libertadores é vista em mais de uma centena de países e esse número vai crescer, assim como vai crescer, também, o número de países que verão jogos integrais e não somente compactos. Portanto, até por uma questão de imagem de nossos clubes, comportamentos desse tipo precisam ser evitados.

O Flamengo perdeu o jogo porque estava com a “cabeça quente”. Pequenas coisas como um gandula que retarda a entrega da bola ou marcações equivocadas da arbitragem, não podem ser o estopim de nervos alterados. Profissionais devem ser treinados a se comportarem com frieza diante de situações adversas. Ganham para isso, treinam para isso, são preparados, teoricamente, para isso.

Conquista-se a Copa Libertadores, hoje, simplesmente jogando futebol.

O tempo da porrada já passou há muito.

Felizmente.


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