Um Olhar Crônico Esportivo

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segunda-feira, maio 19, 2008

Por Mexicanos e Americanos

Esse texto foi escrito para o Jogo Aberto, o blog do Lédio Carmona, onde foi publicado no sábado, dia 17 último com o título The Columbus Crew.

Trata-se de uma réplica, chamemos assim, a um post do próprio Lédio sobre a Copa Santander Libertadores 2008 e a ascensão de dois times mexicanos – América e Atlas – que, dependendo dos resultados, farão uma semi-final da Copa. Ou seja, teríamos, portanto, um time mexicano na final.

Isso acontecendo, independentemente da colocação desse time, o segundo jogo seria realizado, necessariamente, de acordo com o regulamento, na casa de seu adversário, um time sul-americano, que já seria, de antemão, o representante do continente no Mundial de Clubes da FIFA. Porque o regulamento da Copa Libertadores é claro e nítido desde o primeiro ano em que os mexicanos passaram a disputá-la: o representante da CONMEBOL ao antigo Torneio Intercontinental e ao novo Mundial de Clubes, será, sempre, o clube sul-americano melhor colocado na Copa Libertadores.

Aos que já o conhecem: publico-o aqui em especial para os leitores que não o leram no Jogo Aberto.

Por Mexicanos e Americanos, sem mudanças


FIFA

Asian Football Confederation

Confédération Africaine de Football

Confederation of North, Central American and Caribbean Association Football

Confederación Sudamericana de Fútbol

Oceania Football Confederation

Union des Associations Européennes de Football

Essa é a estrutura em que é dividido o futebol mundial, tendo a FIFA como órgão máximo e uma confederação para cada continente.

Cada confederação é um mundo à parte, um reino independente, dentro de certos parâmetros. Todos, com certeza, sabem disso, mas não custa relembrar.

Essa é a divisão formal, política, econômica do futebol.

Essa é, em síntese, a divisão do poder.

Todas as confederações têm o mesmo peso e importância na mesa de negociações.

A OFC vale o mesmo que a UEFA.

A CONCACAF vale o mesmo que a CONMEBOL.

Bem sabemos que na prática a teoria é outra, mas no mundo formal dos acordos e da ordenação de tudo que diz respeito ao futebol, é assim que é e é bom que assim seja.

Certo ou errado, de alguma maneira as sociedades precisam se organizar.

O futebol está alicerçado em símbolos desde seu princípio, e símbolos estão e sempre estiveram ligados à representação do poder e do território. Quando uma pessoa é investida num cargo de governo ou na direção de uma agremiação esportiva, por mais diferente que ela pense, por menos valor que ela dê a coisas desse tipo, o exercício do cargo acaba agregando alguns valores e necessidades, se não às crenças, com certeza à prática dessa pessoa.

As competições FIFA, a mais importante das quais é a Copa do Mundo, são guiadas e criadas tendo em vista a isonomia de todas as confederações. Da mesma forma isso acontece com o Campeonato Mundial de Clubes. No mundo das leis, no mundo formal, vale a máxima de direitos iguais para todos.

Mesmo antes de sua criação, quando tudo que tínhamos era a disputa, oficialmente, da Copa Intercontinental, a CONMEBOL, bem como a UEFA, já eram ciosas na defesa de seus interesses. E quais são os interesses de uma e de outra? São os interesses de seus associados.

O futebol mexicano ligou-se ao futebol sul-americano por interesses mútuos, mas que foram, inicialmente, muito maiores dos mexicanos, todos eles interesses de caráter técnico: os mexicanos, podemos dizer com pouco ou até nenhum exagero, queriam aprender a jogar o esporte bretão que consagrou Cabañas. O fato da seleção mexicana ter evoluído no ranking mundial e ser hoje considerada uma seleção de bom nível, ocorre de forma simultânea com sua entrada na Copa América e o ingresso dos clubes mexicanos na disputa da Copa Libertadores. Dessa forma, os confrontos contra equipes e seleções de países com pouca ou nenhuma expressão futebolística da América Central e Caribe, foram substituídos por disputas muito mais duras no seio da Libertadores, principalmente, e depois também na Copa Sul-Americana. Esses fatos não são apenas coincidências, há entre eles íntimas relações de causa e efeito, que não são totais, mas respondem, em minha opinião, por parcela significativa desse desenvolvimento. Portanto, aos mexicanos interessou, desde sempre, a associação ao futebol da América do Sul.

Da mesma forma, mas em menor intensidade num primeiro momento, interessou também à América do Sul ligar-se ao México, mais por motivos políticos do que econômicos. Num segundo momento, porém, e esse está ligado de forma clara à integração econômica com Estados Unidos e Canadá através do NAFTA, o México literalmente explodiu economicamente, crescendo numa velocidade muito superior a de todos os países sul-americanos. Em poucos anos o PIB mexicano ultrapassou o brasileiro. Nos últimos três anos, muito mais por motivos cambiais que propriamente econômicos, o PIB brasileiro voltou a ser maior que o mexicano. Isso, porém, nem é tão importante, pois o tamanho do mercado mexicano já é gigantesco o bastante para torná-lo extremamente atraente. Portanto, econômica e financeiramente, hoje interessa muito à Sudamericana estar ligada ao México.

Vou mais longe: em 2007 o Dallas disputou a Copa Sul-Americana. Nesse ano será outro, ainda não sei qual, mas teremos novamente um time da MLS – Major League Soccer – na nossa Copinha. A MLS está crescendo, e breve deverá ter 16 ou 18 clubes filiados, dois dos quais do Canadá (um em fase de ingresso). Talvez em 2010 – mas por mim seria já, ou até mesmo antes, em 2006 ou 2007 – teremos pelo menos dois times da MLS disputando a Copa Libertadores.

Isto não é informação de cocheira, não é inside information, é apenas a minha opinião e previsão baseadas no que conheço e tenho lido a respeito do futebol nas Américas.

Porque o Banco Santander investe tanto na Copa Santander Libertadores?

Em parte porque o banco tem no México sua maior operação latino-americana depois do Brasil. Da mesma forma, esse mercado ampliado é o que mantém a Toyota e motiva o VISA, outros patrocinadores de La Copa.

A satisfação dos clubes brasileiros e argentinos com a disputa daCopa Libertadores tem sua razão maior de ser nos ganhos que ela proporciona e que, estou certo, ainda têm muito a crescer. Quando falamos em México, falamos em agregar um mercado consumidor ligado a um PIB de 1,2 trilhão de dólares. E agora começamos a falar no mercado latino dentro dos Estados Unidos, um mercado que, sozinho, é maior que a soma de todos os países sul-americanos.

O caminho da integração é irreversível

Igualmente irreversível é que a CONMEBOL e a CONCACAF jamais abrirão mão de ter seus campeões a representá-las no Mundial de Clubes. A possibilidade de um time de outra confederação representar a CONMEBOL é nula. É um conjunto vazio, matematicamente falando.

Isso é sabido por todos desde sempre. Essa regra pétrea, imutável, foi estabelecida como condição sine qua non para que os mexicanos, e brevemente os americanos, disputassem a Libertadores. É algo sobre o qual não há discussão possível, algo como querer discutir a Lei da Gravidade. Os mexicanos aceitaram e aceitam plenamente essas condições, bem como a de que todo jogo final das Copas seja disputado em território sul-americano, porque para eles disputar esses torneios contra equipes sul-americanas é uma excelente forma de desenvolver seu futebol. Eles em nada são prejudicados, assim como os americanos futuramente, porque disputam a indicação para o Mundial de Clubes através de outra competição. Ninguém é prejudicado, portanto, numa análise fria da situação.

Em suma, a situação tal como é hoje, é atraente para todos os envolvidos, cada qual com seus motivos.

Nenhum centro de poder abre mão de seu sangue vital.

O poder não se transfere, o poder não se dá, o poder é sempre conquistado e defendido com unhas e dentes.

Essas regras são universais, atemporais, extremamente básicas.

Eu, particularmente, sou favorável e, dentro de minhas limitações, escrevo a favor da integração e da entrada dos americanos, dentro das regras do jogo tal como ele é jogado.

Ao menos por enquanto, estamos numa situação winning-winning, ou seja, onde os dois lados ganham e ninguém perde.


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