Um Olhar Crônico Esportivo

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domingo, agosto 03, 2008

Um olhar estrangeiro...


... sobre o Fluminense.

Na reta final da Libertadores 2008, lembro-me de ter comentado no Jogo Aberto que a opção total pela Copa LA feita pelo Fluminense era perigosa demais. Ainda antes, logo nos primeiros jogos, fiz o mesmo comentário, mas os torcedores do Tricolor carioca no blog do Lédio rebateram esse e outros comentários na mesma linha dizendo ser a coisa certa a fazer. Como muitas respostas eram extremamente agressivas, optei por não comentar mais a respeito, até porque o São Paulo acabou eliminado pelo Fluminense e muitos viam comentários do tipo como manifestações de despeito, dor-de-cotovelo, inveja e assemelhadas.

Talvez... Meus comentários, entretanto, foram inspirados pelas campanhas recentes do próprio São Paulo na Copa e, em particular, a de 2005.

A disputa da LA exige demais dos clubes e dos elencos. Tenho sempre presente na memória uma declaração do Muricy, dizendo que só quem está nos vestiários do São Paulo depois de cada jogo pela Libertadores consegue ver o estado físico em que os jogadores terminam a partida. Segundo ele, todo jogo da Libertadores é extremamente desgastante tanto no aspecto físico como no emocional.

Em 2005, terminado o jogo contra o CAP no Morumbi, título conquistado, fiquei vazio. Emocionalmente vazio, futebolisticamente vazio. Isso impressionou-me bastante, tanto que escrevi a respeito na época. A partir desse meu estado, que observei em outros torcedores são-paulinos, reforcei a crença que eu já tinha antes do jogo final: os titulares deveriam ser afastados do Brasileiro por pelo menos 15 dias. Mais que isso: deveriam ficar no mínimo dez dias afastados do futebol, em férias, período que talvez, e só talvez, fosse suficiente para recolocar a todos de volta na vida real, ou seja, jogos e mais jogos pelo Campeonato Brasileiro.

Eu acreditava que os jogadores também estavam esvaziados emocionalmente, sem condições, sem capacidade de concentração para a dura disputa do BR. De fato, o time jogou muito mal algumas partidas, freqüentou a última faixa da tabela por algumas rodadas e dali saiu a duras penas e a um custo emocional, novamente, bastante elevado. A salvação da lavoura foi a boa arrancada no início do campeonato, ao mesmo tempo que ainda disputava as primeiras fases da Libertadores. Sem ter sido brilhante, foi boa o bastante para dar ao time alguns pontos preciosos que tornaram menos difícil a saída da aterradora última faixa da tabela de classificação.

Ao criticar o empenho total do Flu na Libertadores, e ao ver o time derrapando com um ponto, dois pontos, na última posição da tabela, tinha em mente a situação vivida pelo Tricolor paulista apenas três temporadas antes.

Tinha em mente, também, a campanha do Palmeiras em 2002, quando o time dirigido por Roth despencou de uma cômoda posição para a zona do rebaixamento e de lá não mais saiu. O time era bom, nada espetacular, mas bom o bastante para que fosse aceito com naturalidade entre os 5 ou 8 primeiros colocados. As campanhas de times que sofreram o rebaixamento, como essa do Palmeiras e a do Corinthians, por exemplo, mostram os jogos na parte de baixa são mais difíceis, os erros são mais freqüentes, a falta de sorte vira uma rotina, ao contrário do que acontece com os líderes, para quem, às vezes, tudo parece dar certo. Tudo isso, evidentemente, é bastante subjetivo, mas o futebol é subjetivo. Nada mais idiota que o objetividade, e um famoso tricolor carioca de outros tempos escreveu magnificamente a respeito.

A perda do título para a LDU era uma possibilidade que jamais poderia ser ignorada por quem decide e comanda os destinos do clube. A história é pródiga em exemplos para que alguém deixe de pesar, criteriosamente, todos os contras de uma situação. Tudo bem que os torcedores pensem dessa forma, mas os profissionais em nenhuma hipótese podem dar-se a esse luxo. Esse foi, a meu ver, o maior pecado da direção do Fluminense, e uma frase proferida por seu treinador expressa à perfeição essa linha de pensamento e de conduta: “Vamos brincar no Brasileiro.”

Sou contrário ao uso de frases fora dos contextos em que foram formuladas, mas, nesse caso, essas já célebres palavras de Renato Gaúcho cobrem com bastante correção toda a situação, toda a linha de atuação tomada pelo clube. O time seria campeão, outra hipótese era impensável, e, uma vez Campeão Sul Americano, seria uma brincadeira de criança deixar as últimas posições da tabela e terminar com tranqüilidade o campeonato, usando-o mais para afinar a equipe para a disputa do Mundial, no Japão.

Diga-se, a bem da verdade, que a direção até tentou concentrar os jogadores no BR em certo momento, mas não conseguiu, o que levou o próprio time titular a ser derrotado em pelo menos um jogo do Brasileiro. Depois disso, vendo que o foco estava distante, foi mantida a opção de usar jogadores da reserva e dos times de base, preservando os titulares para a disputa mais importante. Naquela altura, não havia mais nada a fazer, os dados estavam lançados.

O intervalo entre a eliminação do Boca e o jogo em Quito foi outra fatalidade para a equipe. Não custa lembrar que esse intervalo já era conhecido desde antes do início da disputa, portanto não cabem críticas à sua existência. Num comentário da época, chamei-o de “férias”, tal como agora usando as aspas. Até fui contestado por um blogueiro, mas na verdade foi exatamente isso: um período de férias, em que os jogadores, depois de eliminarem de forma suada, brilhante, sofrida, disputada e outros adjetivos, os times “copeiros” e tidos como favoritos do São Paulo e do Boca, relaxaram, tanto física como, principalmente, mentalmente. O resultado foi a derrota em Quito, por um placar de respeito. O resto é história.

Ontem, ao chegar do sítio e ligar a TV, deparei com o jogo do Flu contra o Inter.

Jogo tinhoso, difícil, contra um time em ascensão, embora irregular. Meu palpite era por um empate, minha torcida era por uma vitória tricolor. Infelizmente, os colorados venceram e até com alguma facilidade, em especial no primeiro tempo. Nesse momento, ainda mais com os desfalques de dois jogadores negociados e dois convocados, começa a ficar ainda mais difícil encaixar três vitórias seguidas, capazes de dar um alento à equipe. Num campeonato por pontos corridos é muito raro um jogo deixar de valer alguma coisa. Nesse momento, os adversários mal colocados na tabela lutam com unhas e dentes para alcançarem uma posição cômoda. Os bem colocados precisam defender e melhorar suas posições, cada jogo é, em maior ou menor grau, uma verdadeira decisão.

Esse final de turno deixa dois jogos terríveis para o Fluminense: São Paulo em casa e Ipatinga fora. Na sequência, já no segundo turno, o Galo em casa e o Náutico em Recife. Por mais espantoso que possa parecer, creio que o jogo menos difícil para o time do Fluminense, por suas características, será contra o São Paulo, paradoxalmente o mais forte e melhor colocado desses adversários. O Ipatinga é osso duro, em especial na sua casa, e divide com o Fluminense as duas últimas posições da tabela. É o tal do jogo de “seis pontos”. O mesmo ocorrerá com o Galo, ferido, machucado, estremecido por derrotas terríveis, mas, que diabos, serão onze contra onze em campo. Depois, outra pedreira: o igualmente abalado Náutico, em pleno Aflitos, onde à inexistência de algo parecido com um gramado somar-se-á a luta desesperada dos donos da casa para escaparem, ou até saírem, da última faixa da tabela. Em tese, portanto, será justamente o São Paulo o único time que, provavelmente, deixará o Fluminense jogar e cujos jogadores não terão a lâmina cortante e fatal do rebaixamento em suas gargantas. Por outro lado, será o São Paulo, há poucas semanas eliminado da Libertadores por esse mesmo time, nesse mesmo estádio.

Ao fim e ao cabo, o que sobra desse longo texto?

A história de um erro.

Cometido pela direção e pela comissão técnica do clube.

Os seres humanos que se dedicaram e fizeram uma campanha magnífica na Libertadores sofrem, ainda, do vazio emocional criado pelo final da competição.

Vazio agravado ao extremo pela perda do título. Vazio que não foi previsto com seriedade e prevenido.

Não enxergo culpa nos jogadores. Sim, são eles que entram em campo e correm atrás da bola, mas suas ações são ditadas, orientadas, definidas em boa parte pelo que fazem direção e comissão técnica. O erro já aconteceu e, como sempre, a realidade está aí, presente e assustadora. Ontem, ao contrário das lotações estupendas e das festas maravilhosas, vimos um Maracanã com poucos torcedores, a maioria (ao menos aparentemente), cobrando, vaiando e xingando os heróis absolutos de há poucas semanas.

É difícil, bem sei, mas esse é o momento do torcedor do Fluminense apoiar de fato e com paixão, os jogadores e até mesmo seu treinador. Essa é, a meu ver, a única forma de preencher rapidamente o buraco criado pela derrota, o vazio emocional que mina as forças e a confiança de cada jogador. Se com apoio já será difícil, sem ele será muito mais, quase impossível, impedir que uma tragédia, tão absurda quanto injusta, aconteça.

Só lembrando que no futebol não há justiça ou injustiça, só resultados.


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2 Comments:

  • At 1:54 PM, Blogger RONALDO DERLY said…

    Como sempre um texto excelente e
    acompanho o relator integralmente.

    abraço ronaldo.

     
  • At 10:37 AM, Blogger RODRIGO MOLINA said…

    Excelente texto, Emerson, observações bastante pertinentes que dissecaram a situação do Fluminense, analisando bem os fatos para entender os acontecimentos. E digo mais, se o Flu fosse o campeão da Libertadores, as dificuldades para se reabilitar no Brasileirão seriam as mesmas, pois assim como na derrota inesperada, existe também o "vazio" após uma grande conquista. A dificuldade de concentração nesse momento era bem previsível, menos para o treinador, que enxergava uma brincadeira à sua frente.

    Rapaz, o Renato foi um ídolo que tive na minha infância e na adolescência. Com poucos anos acompanhando futebol, conheci o Grêmio de Renato Gaúcho, e aquela partida contra o Hamburgo no Japão em que o Grêmio sagrou-se campeão mundial, era tudo o que meus sonhos de criança imaginavam pra mim: Decidir um campeonato pelo meu clube de coração marcando os gols da vitória, igualzinho ao Renato. Virei seu fã.

    Para minha agradável surpresa, ele veio para o meu Flamengo em 1986, e por aqui teve uma passagem brilhante. Campeão Brasileiro em 87 e Bola de Ouro da Revista Placar. O grande jogador do futebol brasileiro naquele momento. Aquele ano ficou maracado pra mim. Recebi minha "carta de alforria", e passei a freqüentar o Maraca sem a companhia de meu Pai ou outro adulto responsável, e assim pude presenciar de corpo presente todo o esplendor do futebol do Renato. Ele voava...

    Nem mesmo o gol de barriga pelo Flu contra o meu Flamengo me fez desgostar do Renato. Gostava de seu estilo fanfarrão e provocador, que combina muito com o jeito carioca de ser. Mas Renato está ficando velho...velho e bobo. Desandou a falar besteiras, num infreável surto de logorréia. Você está certíssimo Emerson, os jogos na zona do rebaixamento são dificílimos. Tão difíceis ou ainda mais do que os jogos realizados entre os times do G-4. Tudo o que os jogadores de um time nessa situação precisam é de serenidade. Declarações polêmicas só acirram os ânimos, e parece que o treinador não entende isso.

    É...Vejo que o Renato não extraíu nenhum ensinamento de sua amizade e proximidade com Papai Joel.

    Pensei que o "Baby" fosse mais malandro...mas ele vem me decepcionando...

    Um abraço,
    Rod.

    PS- Emerson, não é qualquer torcida que lota o Maracanã com o time na lanterna ou na zona de rebaixamento e empurra os jogadores como se estivessem disputando o título.

     

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