Um Olhar Crônico Esportivo

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sexta-feira, dezembro 05, 2008

Uma comédia de erros




Nem tão comédia e tampouco com um final tão divertido, independentemente do que venha a rolar em campo além da bola, mas tão shakesperiana como a homônima do gênio inglês. Uma comédia de erros que, nitidamente, tem a ver com
o poder, a ambição de políticos e o oportunismo de um grande dirigente do futebol tupiniquim. Depois de uma novela curta, mas intensa, com idas & vindas, sem mocinhos e só vilões, começou a venda dos ingressos para o jogo Goiás x São Paulo.
Sobre o qual falarei uma vez mais.



As vendas começaram ontem, finalmente, em Brasília e em São Paulo. Em Goiânia, devem começar somente hoje.




Em Brasília, as filas começaram a se formar durante a manhã, esperando a abertura das vendas, que estava previst
a para as 14:00, mas que começou depois das 16:00, com muito mais gente nas filas. Há relatos que os guichês fecharam no início da noite, deixando ainda muitos torcedores sem ingresso.

Em São Paulo, desinformação. Logo cedo já havia torcedores no Morumbi aguardando a abertura da bilheteria principal, o que só ocorreria depois que os ingressos chegassem de Brasília. Chegou a circular a informação, passada por funcionário do clube, que os ingressos só chegariam tarde e seriam vendidos hoje, sexta-feira. Muita gente abandonou a fila e foi embora, mas os que persistiram, sabe-se lá porque, foram recompensados, pois os ingressos chegaram ao Morumbi e a venda teve início.

Estamos falando de um jogo que decide um campeonato, que será realizado num estádio minúsculo, com capacidade para menos de 20.000 torcedores. Está certo que é moderno, recém-inaugurado, mas, assim mesmo, é muito pequeno e, assim mesmo, a operação banal de vender 19.000 ingressos é tão complicada, tão confusa, que chega a assustar. Quanto evoluiremos até 2014?

E ingressos caros, ou caríssimos, frente à média de preços do Campeonato Brasileiro e da Copa Libertadores. Esse é outro capítulo e mais um erro a ser somado aos que serão comentados agora.



Erros...


Na visão deste blogueiro, temos dois grupos de erros nesse episódio.
Os erros de fora do futebol, cometidos por instituições do Estado e os erros de dentro do mundo da bola.

Começarei pelos erros de dentro.

1 –
STJD: errou ao punir o Goiás por incidente no qual, a rigor, não há culpa objetiva do clube; curiosamente, o mesmo tribunal deixou de agir assim em casos parecidos, quando vândalos brigaram entre si e não foram contidos pela polícia.

2 –
STJD, que erra novamente, ao determinar que punição com perda de mando de campo deve-se dar através da realização da partida em outra cidade a mais de 100 km de distância; na prática, na vida real fora do tribunal, isso conduz muito mais a uma punição ao visitante do que ao punido, pois este, geralmente, continua jogando para sua torcida, não tem sua logística muito afetada e não toma a pior punição, que é a perda da renda; há mesmo casos em que a renda do jogo da punição supera a média de renda do clube punido. O visitante, porém, que nada tem a ver com a história, tem sua logística alterada sempre para pior, precisa mudar sua programação de treinos e viagens, geralmente acaba jogando em condições piores de estádio, gramado e até de segurança, do que os demais participantes do campeonato nos confrontos contra o clube punido. Diante disso, o melhor seria a manutenção da punição antiga, em que o clube punido jogava em sua sede habitual com os portões fechados. Chato, sem a menor dúvida, estranho de ver pela televisão, ouvir no rádio, mas uma punição que não dava margem a tantos problemas e bate-bocas.

3 –
CBF: cometeu o absurdo de decidir sozinha o local do jogo, sem consultar os clubes. Ignorou o desejo que os dois clubes manifestaram de jogar, por exemplo, no Rio de Janeiro, no Engenhão, ou em Uberlândia, no Parque dos Sabiás. A diretoria do Goiás encarava com bons olhos a perspectiva de jogar no Rio de Janeiro, onde a repercussão de mídia seria ainda maior do que o normal, mesmo em se tratando de jogo decisivo. Outro ponto a favor: a maior cobertura internacional, que tem muitos representantes no Rio de Janeiro, muito mais do que em Brasília, por exemplo.
Finalmente, mas não menos importante, fosse no Rio ou em Uberlândia, a presença de público seria muito maior, dando mais brilho e motivação para o jogo.
Curiosamente, até mesmo a direção do Grêmio, parte interessada nisso tudo, manifestou-se favorável ao jogo no Rio de Janeiro, acreditando que grande número de torcedores do clube iriam a campo torcer contra o São Paulo.
Para o Goiás também teria sido ótimo jogar na cidade de Uberlândia, que além do estádio com capacidade para 50.000 torcedores, prontificou-se a pagar as despesas dos dois times para jogar na cidade. No entanto, apesar de tudo isso, prevaleceu a decisão autoritária e solitária da CBF, marcando o jogo para Brasília, para um estádio pequeno, entregue a uma federação confusa que sequer consegue imprimir e distribuir num prazo razoável uma carga de menos de 20.000 ingressos.


Cabe uma pergunta: a quem interessou mandar esse jogo de grande repercussão para o pequeno estádio do Gama, que há poucos dias já recebeu o mais importante amistoso da Seleção Brasileira disputado em Terra Brasilis nos últimos anos?


4 –
Federação Brasiliense e governo do DF: erraram ao estipularem preços absurdos para o uso de um estádio tão pequeno: R$ 135.000,00 de taxas e mais 10% da renda. A pressa com que recuaram diante do clamor de torcedores, imprensa e Goiás Esporte Clube, é um bom sinal do caráter meramente oportunista e especulativo de tal taxa.
Ficou claro, também, que o uso do estádio é fortemente condicionado por interesses políticos, causando espanto a este blogueiro que o governador de uma unidade da Federação tenha ficado 5 horas em reunião a discutir esse assunto. Ou é amor demais pelo futebol ou falta de ter o que fazer.

5 – Finalmente, errou o
Goiás ao indicar o preço esdrúxulo de 400 reais para os ingressos. Esse erro, contudo, seria pago somente por ele, que teria uma arrecadação pífia, que talvez nem cobrisse o pagamento dos juízes e a viagem de ônibus do time de Goiânia para Gama. Um erro que seria pago com a pior e mais "preciosa" parte do corpo do ser humano e de suas instituições: o bolso.
Muitos dizem que o Goiás assim agiu em retaliação à CBF e seu autoritarismo mais que suspeito nesse caso. Pode ser. Como também pode ser que seja verdadeira a explicação de seus diretores: aumentaram o preço, com a promoção de reduzi-lo em 50% com a entrega de donativos, simplesmente para fazer algum dinheiro e terem um bom lucro depois do pagamentos das taxas brasilienses e demais despesas do jogo.


O Goiás, entretanto, não teve tempo e condições para sofrer com seu erro, ou reavaliá-lo, pois foi atropelado por uma sucessão de outros erros: os erros de fora do mundo da bola. Vamos a eles:


1 –
PROCON: errou ao intrometer-se em assunto que não é e não pode ser de sua alçada. Um jogo de futebol é um produto para o entretenimento das pessoas, ninguém é obrigado a vê-lo. Vai ao jogo quem quer e quem pode. Como espetáculo, seu preço é condicionado por muitas variáveis, como, por exemplo, a qualidade dos artistas ou atletas, a importância da partida, sua condição de ser única. Os clubes têm o direito de estipularem os preços que melhor entenderem para cada partida, a partir de um patamar mínimo, somente. Se o preço para o espetáculo for muito alto, ninguém irá vê-lo e o clube terá prejuízo. Ponto. Compete ao PROCON, isso sim, zelar para que os direitos do torcedor, transformado em consumidor a partir da compra do ingresso, sejam respeitados. Isso inclui, por exemplo, a garantia do torcedor chegar ao local com minutos de antecedência e encontrar o lugar que está marcado em seu ingresso, vazio, esperando por ele. Inclui a existência de bons sanitários, por exemplo, além de outros pontos, muitos outros pontos passíveis de melhoras e carentes de fiscalização.

2 –
MP: errou tanto quanto o PROCON ao intrometer-se no mesmo assunto, querendo, talvez, mostrar serviço. Melhor faria agilizando o combate aos fatores que geram insegurança e trazem prejuízos reais para as pessoas.



Tivemos, enfim, uma sequência de erros que se transformou, com boa vontade e algum sarcasmo, numa comédia. Quem paga por ela, como de hábito, é o torcedor.

Os preços, finalmente definidos, continuaram altos para o padrão brasileiro:

-
R$ 100,00 para as arquibancadas atrás dos gols;

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R$ 150,00 para as arquibancadas laterais;

-
R$ 250,00 para as cadeiras na “tribuna de honra”

A meia-entrada será válida apenas para estudantes, idosos e professores (categoria que a imprensa não tem colocado como habilitada a comprar meio-ingresso, o que lhes é permitido por lei do DF), devidamente identificados. O desconto de 50% com a entrega de donativos foi cancelada. O motivo, segundo diretores do Goiás, é a existência de outra lei brasiliense que proíbe esse tipo de promoção.

As filas e a procura pelos ingressos estão mostrando que os preços, agora, talvez não sejam assim tão altos, tão caros.
Fica, de qualquer forma, uma certa tristeza por tantos erros terem sido cometidos.
Fica a tristeza de não ver esse jogo no Rio de Janeiro, num estádio com quase cinqüenta mil torcedores.
Fica a lição para os clubes.
Fica, por último, uma pergunta:
será que aprenderam alguma coisa?


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1 Comments:

  • At 8:01 PM, Anonymous tina said…

    precisa responder??? :o

     

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