Player global: teremos algum?
O Rodrigo, leitor deste Olhar Crônico Esportivo na bonita e aprazível Porto Velho (saudades de comer surubim no Caravelas), em Rondônia, enviou-me um e-mail muito interessante, do qual transcrevo um trecho:
“O ponto que gostaria de discutir com você é o seguinte: não me conformo com a pobreza técnica dos times brasileiros gerada por administrações, quando não calamitosas, perdulárias, inconseqüentes dos clubes, apenas abaixo do medíocre, deixando de aproveitar todo o potencial econômico que poderiam ser gerados por nossas agremiações.
O ano passado, li na Folha de São Paulo, caderno Dinheiro, uma entrevista de um executivo europeu ligado ao futebol. Não lembro o nome, mas acredito que seja o Peter Kenyon, ex-Manchester United, atual Chelsea. Na entrevista ele diz que ao menos um clube brasileiro, se bem gerido, deveria ser um player global, ou seja, um clube que disputasse os melhores jogadores do mundo em pé de igualdade com os clubes europeus.
O que você acha disso? Você realmente acredita nesta assertiva?”
Vamos começar pela questão de termos ou não um global player.
Há um ano, em palestra no Brasil, o vice-presidente econômico do Barça, Ferran Soriano, disse a esse respeito:
“Grandes marcas globais
A direção do Barcelona, assim como as dos demais, estou certo, trabalha com a previsão que o mundo comporta de 5 a 7 grandes marcas globais, clubes que vão dominar de forma decisiva o cenário do futebol mundial. Ele não listou os nomes, mas as probabilidades apontam para Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Milan e Bayern Munich. Particularmente, não enxergo o Chelsea de Abramovich como parte desse clube ultra-seleto. Talvez a Juve, dificilmente Arsenal, Liverpool e Internazionale.
Infelizmente, e obviamente, ele não vê perspectiva para nenhum clube brasileiro ser sócio desse grupo. Aliás, em termos internacionais, ele destacou que o Boca Juniors, e também o River Plate, já são marcas globais. Não é difícil entender essa ausência, uma vez que nossos grandes clubes estão sempre disputando os torneios estaduais ao invés de excursionarem por Europa, Ásia e Norte América, a bordo de um calendário mundial, ponto que esse blog vem batendo frequentemente.”
(Esse trecho faz parte da quarta parte da cobertura da palestra de Ferran feita por este Olhar Crônico Esportivo e postada em 7 de dezembro de 2007.)
Há diferenças entre marca global e player global, mas para efeito prático coloco tudo junto.
Temos clubes que faturam mais que o Boca Juniors e muito mais que o River Plate, desconsiderando, naturalmente, as receitas com transferências de atletas. A economia paulista, tomada isoladamente, é pelo menos 1,5 vez maior que a economia argentina. Apesar disso, como destacou Ferran, Boca e River são marcas globais, mais próximas de se tornarem global players que São Paulo, Flamengo e Corinthians, os clubes brasileiros de maiores receitas operacionais: TV, marketing, bilheteria, licensing. Outros clubes, como Internacional e Palmeiras, apresentam, em tese, melhores condições potenciais que um River, por exemplo.
O mesmo, provavelmente, com o Cruzeiro (cujas informações financeiras não foram obtidas, daí a ressalva).
O que, então, impede que o Brasil tenha um, dois, talvez até três global players no mundo do futebol? Pelo menos três marcas globais?
A meu ver:
- Gestão dos clubes
- Gestão do calendário
- Maiores receitas
Dos três itens, o menos importante – sempre a meu ver – é justamente o terceiro.
O próprio Peter Kenyon (ou quem quer que tenha dado a entrevista que o Rodrigo cita) já menciona a questão-chave para termos um player global: “se bem gerido”.
Nossos clubes, de maneira geral, pecam por gestões atrasadas, perdulárias, corruptas (com certeza em muitos casos), absolutamente ineficientes.
Gestões que desprezam o torcedor e, por extensão, a renda que ele pode gerar para os clubes.
Gestões que de marketing conhecem apenas e tão somente o vocábulo.
Gestões que não buscam a união para cuidar de assuntos graves como a proteção ao licensing através do combate à pirataria.
A sorte dos clubes é que no quesito TV eles contam do outro lado com o profissionalismo da Globo, essa sim uma player global. Se melhorassem seus times e gestões, conseguiriam maiores audiências e mais dinheiro ainda da TV.
Gestão, a meu ver, é a palavra-chave que define o status do nosso futebol, e que não se encerra na gestão dos clubes, como abordo a seguir.
A gestão do calendário, em particular, e a gestão do futebol brasileiro como um todo, é atrasada. Nossos clubes têm que disputar torneios deficitários (exceto dois) que a nada levam e consomem, no caso paulista, 23 datas. Falo, é claro, dos estaduais.
A Confederação, que em tese deveria cuidar, proteger e fortalecer nosso futebol, que tem os clubes como base, preocupa-se, de forma quase exclusiva e obsessiva, com as seleções, as muitas seleções sub-alguma coisa e, sobretudo, a seleção principal, galinha fenomenal de ovos de ouro. Nosso futebol propriamente dito, esse pobre coitado que gerou os títulos mundiais, a fama e tudo o mais, fica jogado às moscas, fica entregue à sanha de dirigentes regionais que se perpetuam ad eternum no poder, eles próprios ou seus fechados grupos), e mexem seus pauzinhos de maneira a ter os grandes clubes como somente vacas leiteiras, cuja finalidade única é mantê-los abastecidos, gordos, luzidios, pelo brilhante, como gatos de estábulo que tanto leite gordo bebem que deixam os ratos tomarem conta das rações que deveriam alimentar as vacas que dão o leite que deixa-os gordos, felizes e preguiçosos.
Olhando para o que escrevi fiquei com vontade de cortar a torrente de adjetivos e imagens figuradas, mas, para que? Esse besteirol tem tudo a ver com essas pessoas que cuidam das federações e confederação, que jamais poderão ser chamadas de gestores. Melhor preservar essa palavra para quem faz algo pelo menos parecido com gestão.
Um player global tem que se mostrar ao mundo, este é o primeiro ponto. Nossos clubes, entretanto, e já abordei isso em um post intitulado “Bairrismo, o mal dos nossos clubes”, em 7 de fevereiro desse ano, são players paroquiais.
Temos times de paróquias.
Enquanto um Boca disputa um torneio de verão na Holanda ou Alemanha, engalfinhamo-nos na disputa do nosso Brasileiro. Porque as datas que deveriam ser utilizadas para enfrentar Real Madrid, Barcelona, Manchester e outros de igual porte e nome, em torneios na Europa, Ásia ou América do Norte, são usadas em vibrantes confrontos contra o XV de Campo Bom, o São Bento de Sorocaba, o Friburguense, o Ituiutaba...
Clubes de valor que, como os demais, merecem todo o respeito, mas que não podem ser privilegiados com a existência de campeonatos estaduais anacrônicos e, na quase totalidade, deficitários.
Então, Rodrigo, voltando às tuas perguntas, eu acredito que poderíamos ter, sim, um, dois, três global players, desde que tivéssemos um futebol gerido com um mínimo de inteligência e preocupação com os clubes.
Desde que tivéssemos um calendário modificado e adaptado ao calendário europeu, que está se tornando um calendário mundial.
Desde que, acima de tudo, tivéssemos nos clubes boas administrações. A partir da introdução dos pontos corridos, em meio ao mar de lamentações que o sistema provocou, já começamos a perceber que há mudanças para melhor na administração dos clubes, inclusive entre os que vivem tomados pelos fantasmas de dívidas monstruosas. Isso é animador.
O Crash de 2008 veio complicar um bocado, ou melhor, irá complicar um bocado o fortalecimento dos clubes no aspecto financeiro. Tudo indica que teremos dois ou três anos de recessão, acompanhando o que irá ocorrer com a economia dos Estados Unidos e da Europa. Os fatores Obama e China poderão influir positivamente, mas não sabemos como e em que medida.
Fazer prognósticos hoje é tarefa mais difícil que o normal.
Há comentários que 2010 será o ano da mudança.
Aproveitando a realização da Copa do Mundo, a CBF mudaria o calendário do nosso futebol, adequando-o ao europeu. Isso por si só não bastará.
Será muito útil no sentido de termos o mesmo time disputando o BR praticamente do começo ao fim, o que hoje não ocorre devido à janela de verão (europeu), mas não será o bastante, a menos que se mexa nas datas destinadas aos torneios estaduais.
São eles que mantêm nossos clubes presos em suas paróquias, repetindo o que já expus.
‘Trocentas’ linhas depois, sequer falei do aspecto técnico e pouca importância dei à questão das receitas. Nesse último caso porque não considero nossas atuais receitas, em fase de crescimento, como o fator limitante. E no aspecto técnico eu não compartilho a opinião que temos um campeonato de baixo nível técnico, que só contamos com jogadores de 3º escalão, etc e tal. Apesar do êxodo anual, temos, sim, bons jogadores e bons times, que seriam ainda melhores e mais estáveis com boas gestões nos clubes.
O Peter Kenyon fala em ser um player globar e “disputar os melhores jogadores do mundo em pé de igualdade com os clubes europeus”. Tão cedo não disputaremos os melhores do mundo, e nem chega a ser o caso. Simplesmente não teríamos como pagar jogadores nessa faixa, em primeiro lugar. Em segundo, podemos, sim, ter clubes em posição de destaque no futebol mundial sem que, necessariamente, tenhamos o dinheiro suficiente para tirar Kaká do Milan ou Cristiano Ronaldo do Manchester.
É o que eu penso. Por favor, fique à vontade para contestar, você e os demais, claro.
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