Um Olhar Crônico Esportivo

Um espaço para textos e comentários sobre esportes.

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sexta-feira, agosto 29, 2008

A “Sul Americana” reage


Há muito tempo fala-se mal da Copa Nissan Sul Americana.


De minha parte já falei bem dela, em especial em sua edição de 2007, que contou com a participação de um time da MLS – Major League Soccer.


Mesmo o meu ‘falar bem’ era cheio de ressalvas, a principal delas a época de realização. Não faz sentido fazer a Sul Americana no segundo semestre apenas para agradar ao Boca Juniors e ao River Plate, equipes com presença a bem dizer cativa na competição e, pior, entrando já em sua segunda fase. Claro, é direito da AFA indicar quem bem entender e da forma que melhor entender, mas isso é um acinte às demais equipes. Por trás disso, a necessidade dos dois times fazerem dinheiro, qualquer dinheiro, a qualquer custo, principalmente, e a infantilóide disputa do Boca que quer ser o ‘maior vencedor de Copas’ do mundo. Infantil, sim, porque sabe todo amante da bola que há Copas e copas.


No Brasil, a Sul Americana castiga, quero dizer, premia o campeão brasileiro com participação – que é obrigatória – na mesma. É a velha lógica tupiniquim de sempre penalizar os melhores times com jogos e mais jogos, boa parte deles sem sentido ou utilidade. Realizada durante o segundo turno do Campeonato Brasileiro, quando as definições ganham força, seja em cima, seja embaixo, nossas equipes, acertadamente, privilegiam o Brasileiro. Ou porque almejam o título ou porque querem a Libertadores ou porque já estão na reta do desespero e querendo sair dela, pois ao seu final está o rebaixamento.


Aliado a esse fato, há o baixo retorno financeiro da Copinha. Segundo informações (que ainda pretendo confirmar), cada equipe recebe US$ 75,000.00 por jogo e mais a renda do mesmo. Renda que já vem descontada em 20% (CONMEBOL, CBF e federação estadual). Ao campeão cabe um prêmio de 1 milhão ou de meio milhão de dólares. Nada de extraordinário, mesmo que seja o valor maior, lembrando que o dólar, novamente em viés de baixa, caminha para 1,60 e daí para baixo, a depender do humor do eleitor americano.


Ontem, depois de vários jogos com reservas, e do campeão brasileiro ter mandado a campo um time com 7 garotos, 3 reservas e somente 1 titular, veio a primeira reação e, como não poderia deixar de ser, partindo de quem partiu, veio na forma de um golpe baixo, bem casuístico. A seguir, transcrevo nota da Painel, publicada na Folha de S.Paulo de hoje:


“Quem mandou?


Patrocinadores da Conmebol fazem lobby para que a confederação brinde o campeão da Copa Sul-Americana com vaga na Libertadores-2009. Retaliação aos clubes que desprezam a competição e usam times reservas, alguns eliminados já na fase nacional do torneio. A tese é que dar um prêmio extra ao vencedor não fere o regulamento do campeonato. Além disso, as regras da próxima Libertadores não estão definidas. Pressionada, a entidade dá sinais de irritação com os brasileiros, que protagonizam duelos de reservas.”



Agora, leitores deste Olhar Crônico Esportivo, façam um pequeno favor: onde lê-se ‘patrocinadores’, leiam Traffic.


Entenderam?


Pois é. O polvo estica seus tentáculos.


Bom final de semana para todos.


Este blogueiro atrasou sua viagem por culpa desse polvo – ops – dessa agência.



:o)


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terça-feira, maio 13, 2008

Boca x River, no meio da “La 12”



O Leo colocou o texto abaixo, de sua amiga Laura, nos comentários do post “Bocafobia”. Como vocês poderão ver, é um excelente relato de uma brasileira, que pelo jeito gosta muito de futebol, encarando uma verdadeira aventura. Ficou tão bom que tomei a liberdade de fazer dele um post, aumentando sua visibilidade. O fato de achar que o Boca não é invencível e que nós damos ao time e à torcida uma dimensão maior do que são, não significa que eu não goste ou, pior ainda, não respeite as duas entidades.

Boa leitura e, acredite, vale a pena.

Buenos Aires, 5 de maio de 2008.

Desde muito queria conhecer a Bombonera, cheia.
Já havia visitado em um período de vacaciones no esquema gringo, roteirinho, mas já dava pra imaginar como fica aquele lugar lotado. Outra vez, eu e a Re tentamos ir a uma partida, nem clássico nem nada, mas ou era os 300 dólares na gringa ou na Popular.
Ninguém quis nos levar à Popular, nem vender ingresso. Nos chamaram de loucas varridas pra mais.

Cheguei meio-dia nas redondezas de La Cancha.
Sem
ingresso, sem companhia. Algumas platas e muita vontade de ir ao jogo.
Ia encontrar um amigo do amigo tal e que ia me vender o ingresso, mas dependia de telefone, ligar na hora certa tal e que obviamente não rolou, o cara não atendia.

Ali rola desde cedo uma festa. Enquanto os vários ônibus de turismo chegam, La Boca toda vira uma parrillada familiar de domingo ao ar livre. Pertinho da entrada, há dois ou três restaurantes que vendem os tais Choripan, Lomito, Patty. Compra o Ticket depois de muito se amassar na fila, o cara pega o pão gigante, bota um naco de carne GIGANTE, te entrega de mão a mão e então pronto.


Esta altura, quase 13:30, já havia desistido de comprar ingresso na rua e enquanto comia meu Patty na sarjeta à frente de La Cancha me preparando para assim que acabar de comer ir embora, apareceu "un tipo" querendo me vender Platéia por 600 pesos. Disse que não tinha tal plata. Perguntou quanto tinha, disse "Cem!", ele disse "Vambora brasileira, te levo a la 12".

Era absolutamente tudo que eu queria. Clássico Boca X River. A la 12! A Popular. Onde, teoricamente, não se paga para entrar. Entra quem o porteiro, a organização conhece. O "tipo" me levou de namorada. Na hora de entrar acabei me dando benzaço, porque no empurra-empurra que é para passar deste portão, crianças, namoradas, esposas tem máximo respeito e passam na frente. Subimos as escadas e, UAU:

Lindo domingo de sol, popular já completamente cheia, e diziam que não era nem a metade.

Antes do clássico começar, a festa vai esquentando. A guerra de milho é geral ("Aquel que no salta es un Gallina!"). Entramos uma hora antes e na Popular já se distribuía os balões, os rolinhos de papel, os pedacinhos de papel, bandeiras, e a bateria, do ladinho, pertinho, é difudê.

Jogo começa. Dalí, nao há sequer espaço para deixar os dois pés no chão. As pessoas vão se engalfinhando, se apoiando para conseguir espaço pra se manter em pé, cantar e ainda assim ver o jogo. E logo no começo do jogo, Gol!! Achei que esse negócio ia cair, ou todos caírem pra frente, sei lá. Torcida toda, senhores, crianças, festejam num empurra-empurra na certeza que ninguém vai cair, pq não há espaço para tal.

Um abraço coletivo gigante-mor. A cantoria não pára um segundo, e a bateria acompanha num coro só, como um estádio pequeno de Bairro, um Juca, apenas com 50 mil pessoas dentro.

O juiz apita final do primeiro tempo. Automaticamente e simultaneamente (!) as pessoas todas sentam. Eu, no meio de uma torcida gigante fiquei em pé, com os pés presos porque tinham oito pessoas por metro quadrado sentados neles, esquema Joao-Bobo mesmo, quando um tiozão carinhosamente me oferece um pedacinho do degrau que tinha na frente dele. Logicamente não se vende bebida alcoólica, afinal ali tudo já está ao limite das CNTP, mas se vende CocaCola, água e amendoins. O cara que está lá em baixo quer comprar, a fila toda, desde lá de cima colabora, pq não há condições de ninguém se mexer. O que rola é uma intimidade de compartilhar as coisas, as conversas, as comidinhas, o espaço.

Começa o segundo tempo, a "inchada", torcida, não pára de cantar. Me impressionou a organização, a quantidade de canções e familiaridade com elas. O jogo, afinal, tava chato que só. O River decidiu não jogar, e restou ao Boca mais alguns chutes a gol e muita festa a La Cancha. Ah, vale citar também que o meu vocabulário chulo portenho cresceu 1000% depois desta experiência multicultural-multicultural.

Acabado o jogo, a festa continua lá dentro, até porque é um passo infinito sair de lá. Mas continua a festa pelas escadarias, e como a altura é grande, o por do sol contribuiu para o momento. Ao sair, na rua, a bateria está lá, e a festa continua nas parrilladas. O clima é de um Juca, com uma galerinha em volta da bateria1 à frente do estádio. Novamente fiquei impressionadíssima.

Sou fã de carteirinha da Argentina e volto a afirmar que quem não gosta disso aqui tem é muita inveja ou não conhece suficiente. Até onde a rixa existe, o fabuloso futebol, os caras mandam bem pra cacete. Em termos de presença no estádio, eles são o verdadeiro Carnaval. E aí, que na minha opinião, está inserido o contexto paixão pelo futebol, na possibilidade do jogador e dos tantos outros no campo, fazerem algo único, uma jogada que nunca pode ser repetida, nas milhares de combinações de passes e lances que tornam o feito único, e estar presente apoiando o time torna também o fato como único, e imensurável.

Desta experiência não levei nada físico. Nem ingresso, nem foto, apenas estas recordações, que ainda anestesiada compartilho com vcs. Cheguei às 22h em casa ontem e capotei e tava morrendo de vontade de compartilhar com os amigos brasileiros mas não tive forças de chamar a ninguém.
Pai, Mãe, tá tudo bem.

Ainda em tempo: azeite porcada.

Beijos,
Lau

Pronto, Laura, graças ao Leo você compartilhou essa grande experiência com um monte de gente.

Parabéns por seu relato.

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segunda-feira, maio 12, 2008

Bocafobia, uma falsa síndrome




O Boca Juniors é um grande clube.

Não se discute.

O Boca tem um bom time.

Tampouco se discute.

O Boca tem Riquelme, que é craque.

Há controvérsias, a menos que um jogador possa ser tão grande craque com tão poucos títulos no currículo. Mas, vá lá, digamos que é craque.

O Boca tem La Bombonera, onde é invencível.

Nem tanto, nem tanto.

O Boca é um eliminador de times brasileiros, The Brazilian Teams Killer.

Nem tanto, nem tanto.

No penúltimo confronto contra um clube brasileiro o eliminado foi o Boca Juniors, vencendo o São Paulo em La Bombonera por 2x1 e perdendo no Morumbi por 1x0.

Por que essa síndrome com relação ao Boca?

Por que esse medo de jogar contra o Boca?

Não vejo, com sinceridade, motivos para isso. Não mais do que vejo para temer jogar contra o Chivas ou o Colo-Colo ou mesmo o River.

Digam que o Boca é um adversário terrível e concordarei.

Digam que é dificílimo de ser batido e também concordarei.

Indubitavelmente, o Boca parece dever parte de seu crescimento e poderio às manobras e ambições de Macri, que transformou o clube e o time em sua melhor plataforma eleitoral. Já é o correspondente entre nós a prefeito de Buenos Aires, se bem que, no caso, trata-se de algo misto entre prefeito de São Paulo e governador do estado. De certa forma, na prática, é um dos três nomes mais influentes na política argentina. A um grande clube não convém atrelar seu presente e seu futuro a um político de carreira. A mim não soa bem, mas talvez seja bobagem minha.

Sea como sea, a mi no me gusta.

E paremos por aqui.

Sinceramente?

Não vejo motivos para tanto temor, tanta onda, tão grande síndrome.

Não vejo tantos motivos, enfim, para essa bocafobia.





Mais da visita a La Bombonera

Por falar nisso, viram os leitores desse Olhar Crônico Esportivo o post sobre a visita do Gustavo, meu filho, ao La Bombonera.

Vejam agora o que ele deixou nas paredes da lanchonete, dentro do La Bombonera:







Tenho uma dúvida: foi só uma zoação ou foi uma profecia?

Para mim, foi uma profecia.

A ver.





Sobre esse texto e as fotos

Quando o Gustavo voltou de sua viagem para a maravilhosa Buenos Aires e mostrou-me as fotos e o folheto e falou da visita ao estádio La Bombonera, pensei apenas em escrever sobre a visita, como fiz e vocês tiveram oportunidade de ler.

Agora, todavia, com todo o burburinho em torno do Boca, sua implacável invencibilidade (sic) frente a times brasileiros, lembrei-me dessas fotos e achei que seria divertido dar uma resposta à bocafobia que parece tomar conta dos brasileiros.

Aos amigos argentinos, os xeneizes em particular: não levem a mal.

O Boca é gigante, tal como o são outros.


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