Um Olhar Crônico Esportivo

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terça-feira, abril 01, 2008

Marketeiras de 1º de Abril


O 1º de abril no título é somente uma menção à data, nada mais.

Marketing está na crista da onda, em todas as praias, da Azenha à Boa Viagem, essa última uma praia-praia mesmo. Estivéssemos ainda no verão e ele seria o tema da moda nos points da rapaziada, principalmente a mais descolada. Ou não, afinal, se há algo que não entendo é de rapaziada descolada.

A arena do Grêmio

O Grêmio de Futebol Portoalegrense anunciou hoje a construção de sua arena. Há algum tempo venho querendo escrever sobre algumas ações de marketing gremistas, como a TV e agora a rádio, mas é difícil encontrar informações. Só encontro propaganda, coisa que nem sempre bate com informação. Aliás, quase nunca, e na melhor das hipóteses guarda apenas remotas semelhanças. Fui atrás de informações sobre a Arena e... Nada. A foto de uma maquete, e pouco mais que isso:

Custo Estimado: R$ 270 milhões

Prazo de Construção: 2 anos, no regime turn key

Prazo de Exploração: 20 anos

Previsão de Retorno do Capital Investido (TIR): 15%

Composição Societária da SPE Arena: Grêmio Empreendimentos 65% e TBZ 35%

Receita anual estimada da SPE Arena: R$ 56 milhões

Financiamento: Quem toma o financiamento para a construção é a SPE Promotora, da qual o Grêmio não participa, não restando obrigação da SPE Arena com qualquer tipo de ônus decorrente do financiamento.

Componentes do empreendimento:


Shopping Center com 295.433 m2;
Escritórios com 214.700 m2;
Hotel com 35.000 m2;
Centro de Convenções com 21.075 m2;
Habitação com 155.540 m2;
Estacionamento com 66.500 m2.

Fica difícil pensar com mais profundidade a partir de tão pouca coisa. Parece muito, mas é quase nada. Apenas os números são muito grandes. De acordo com essas informações, a Arena custará 270 milhões de reais e o Grêmio nada pagará por ela, recebendo, ainda, 65% de sua propriedade. Os construtores estimam uma receita anual de 56 milhões de reais e um retorno de 15% sobre o investimento.

O regime turn key significa que o comprador, ou contratante, da obra vai recebê-la pronta, acabada e operacional. É um pacote fechado, em tese muito atraente, muito bonito, mas estamos no Brasil, onde vimos um estádio orçado em 80 milhões terminar custando – pelo menos – a bagatela de 400 milhões, ficando tudo por isso mesmo e não se fala mais no assunto.

Eu me pergunto como pode uma arena gerar uma receita anual de 56 milhões de reais – algo como 33 milhões de dólares ou 22 milhões de euros – e trazendo ainda um retorno de 40 milhões? Essa é a pergunta difícil de ser respondida.

“Aquilo” roxo

Há alguns anos, breve serão muitos, um ex-presidente disse que tinha “aquilo” roxo e não toleraria desaforo. Foi devidamente ridicularizado e a história encarregou-se de colocá-lo em lugar de acordo, embora tenha voltado à ativa por força do voto.

Ah, o voto...

Santo e abençoado voto...

Recentemente, o Sport Club Corinthians Paulista lançou sua camisa número 3, na cor roxa. Há várias conotações para a escolha dessa cor, pelo menos aqui em São Paulo, onde dizemos que fulano é torcedor roxo de um time qualquer, grande ou pequeno, da cidade ou de fora. Na minha família, sempre dissemos que alguém era são-paulino roxo ou corintiano roxo. Minha mãe diz que meu irmão é santista roxo, assim como meu falecido tio Silvio Menossi era palmeirense roxo. Então, o Corinthians adotar o roxo como a cor de seu terceiro uniforme é uma ação bem bolada, pode-se dizer.

O presidente Andrés Sanches, movimentando sua impressionante “agenda positiva” inaugurada no dia seguinte ao rebaixamento para a 2ª divisão, sacramentou o uniforme, decidindo que o time jogaria com ele contra o Marília. Na última hora, porém, refugou. Pressionado por membros de uma torcida organizada mandou o time jogar com o tradicional uniforme número 1, mas entrar em campo com o roxo por cima e jogar as camisas roxas para os torcedores antes do jogo começar.

Assim foi feito. O time entrou em campo, a torcida gostou, aplaudiu a entrega das camisas, mas, a grande e triste verdade é que o presidente do clube curvou-se ao desejo de um grupo que está muito longe de representar o pensamento da grande torcida corintiana. O presidente teve a camisa roxa, mas não teve “aquilo” roxo para sustentar sua decisão.

Tudo isso pode parecer engraçado, a menção àquilo do ex-presidente pode ser vista como divertida, chula ou inconveniente, deixo a critério de cada leitor, mas essa intromissão indevida na administração do clube significa a abertura de um precedente muito perigoso. É bom lembrar que, apenas há alguns dias, os conselheiros mudaram o estatuto do clube em votação aberta, contrariando a velha prática do voto fechado, secreto. Sem entrar no mérito da decisão, o que saltou à vista nessa eleição foram as ameaças truculentas feitas por membros do mesmo grupo organizado, entoando cantos com ameaças físicas contra os conselheiros que não votassem de acordo com sua vontade. A mesma coisa aconteceu com a camisa roxa.

Uma presidência de um clube de futebol não pode ceder a ameaças de quem quer que seja, muito menos de seus próprios torcedores. Há quem diga que por trás da decisão de Sanches há favores políticos a serem pagos. Pior ainda se isso for verdade.

Apego às tradições?

Os torcedores corintianos que impediram o uso da camisa roxa e picharam os muros do Parque São Jorge batem no peito e dizem que estão defendendo a tradição do clube.

Preciosa tradição, que para eles personifica-se na camisa e não na história, na paixão, no amor.

Do outro lado da cidade, no Morumbi, também em nome da tradição os “velhinhos” do Conselho Deliberativo do São Paulo vetam a criação de um terceiro uniforme para o clube. Assinar um contrato de naming rights, então, tendo o Estádio do Morumbi como alvo, nem pensar. Para essas pessoas, honrar a tradição significa não mexer em nenhum dos símbolos do clube.

Em ambos os casos o que vemos são pessoas distanciadas da realidade do futebol praticado hoje e das necessidades dos grandes clubes. Aumentar e diversificar as rendas geradas por ações de marketing é uma necessidade vital para sobreviver e fazer sucesso no ambiente ultra-competitivo do futebol. um terceiro uniforme é mais um item de consumo anual, ou bienal, no qual o fator “novidade” vai estimular a compra por parte de pessoas que já têm os uniformes tradicionais, além de agregar novos consumidores para a marca.

A tradição é fundamental para um clube e para seus torcedores. O apego dos “velhinhos” do Morumbi às tradições do São Paulo foi responsável pela construção de um grande clube e ajudou o clube a passar ao largo da febre de “parcerias” milionárias, cujo único resultado concreto foi a quase falência de muitos grandes clubes, em alguns casos amenizada por alguns títulos. Mas essa mesma tradição, esse mesmo apego a ela, não pode servir para deixar o clube imobilizado.


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1 Comments:

  • At 8:43 AM, Blogger ronaldo derly said…

    valeu emerson,obrigado pelo retorno
    como sempre um texto muito correto
    um abraço e parabéns.

    ronaldo derly

     

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