Um Olhar Crônico Esportivo

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domingo, março 30, 2008

Tchau, Pedrão, boa sorte


Pedrão joga aqui perto de casa, é centroavante. Com esse nome só poderia ser isso mesmo, ou zagueiro. Outro dia, num jogo-treino contra um time de várzea daqui do município, ele fez 3 gols e encantou o Fabrício, jovem boleiro que está tentando começar a vida num time da Capital. Já avançou no processo de peneira, quem sabe...

Esse Pedrão de quem estou falando é o artilheiro do Campeonato Paulista, ao lado do Kleber Pereira, ambos com 11 gols (esse texto foi escrito na noite de sexta-feira, antes do início da 18ª rodada do Paulista). Kleber é famoso, já jogou no exterior, parece ter ganho um bom dinheirinho e estar com a vida arrumada. Pedrão, bom, para dizer o mínimo, não é o mesmo caso. Seu nome era desconhecido há apenas 60 dias. Hoje, já freqüenta as páginas dos grandes jornais, está presente em todos os sites, até mesmo nesse modesto Olhar Crônico Esportivo.

Pedrão precisa ganhar dinheiro e assentar a vida, preparar o futuro, ajudar a família. História velha e repetida, tão verdadeira como todas as outras.

Pedrão, centroavante do Barueri e artilheiro do Paulista deu tchau ao time, à Barueri, à São Paulo e ao Brasil. Bateu asas e foi para Seul, a bordo de um Boeing da KAL, a popular, no mundo da bola, Korean Air Lines.

Não sei por quanto ele foi negociado pelo Barueri, tampouco sei quanto irá ganhar em terras coreanas, só sei que ele foi correndo, tão depressa que nem esperou o Barueri disputar suas duas últimas partidas no Campeonato. Foi-se.

Como ele, outros 999 boleiros já foram ou ainda irão para o exterior no decorrer desse Ano da Graça de 2008. Pelo menos uns 996 irão pelos mesmos motivos e histórias de Pedrão, afinal, isso é Brasil. Críticas choverão sobre esse moderno êxodo em busca outras terras prometidas. Todas injustas, disso não tenho a menor dúvida.

O que é um boleiro?

Recentemente, encontrei um ex-jogador e que agora trabalha na mídia, na área de esportes, num evento. Tivemos oportunidade de conversar bastante, o que foi, além de agradável, bastante útil para que eu percebesse melhor um aspecto da carreira de boleiro. Falávamos sobre um curso de gestão esportiva que eu às vezes penso em fazer, e ele fazia. Parou porque a atividade esportiva, mesmo fora do campo, não lhe permite o luxo de estar disponível toda noite para ir a uma escola. Tampouco permite isso durante as manhãs, não só em função das viagens como, também, do horário avançado em que termina o trabalho de quem cobre esportes. Uma pausa de alguns segundos e ele disse “Mas eu preciso terminar o curso, preciso de um diploma.”

Fiquei surpreso e manifestei-me a respeito. Sua explicação foi simples: enquanto era adolescente estudava direito e em boas escolas. Mas aos 19 anos foi negociado para o exterior, justamente quando prestava vestibular. Daí para a frente sua vida foi uma roda-viva, tanto fora do Brasil como aqui, de volta. Começou a fazer o curso de gestão esportiva e precisou parar. Não tem um diploma universitário. Para sua sorte, por ser inteligente, estudioso e bem articulado e ter feito um bom curso básico e segundo grau, está se saindo bem na nova profissão. Além disso, amealhou um bom pé-de-meia ao longo da carreira. Porém, mesmo assim, ele lamenta e sente a falta do diploma, não pelo diploma em si, mas pelo que representa esse simples pedaço de papel: alguns anos de estudo que, em tese, preparam a pessoa para vir a ser um profissional, exercer alguma atividade que permita sua sobrevivência e a de sua família.

Esse boleiro, contudo, está muito longe de ter o perfil básico do boleiro brasileiro.

Que vem de família muito pobre, muitas vezes até mesmo desestruturada.

É um jovem que não tem estudo. Muitos, inclusive, tem enormes dificuldades para ler coisas tão simples como um gibi ou um artigo de jornal falando a seu respeito.

Rigorosamente, a quase totalidade deles não têm uma profissão que não seja “correr atrás de bola”, como diziam, criticamente, meus familiares há muitos anos em relação a alguns conhecidos.

Esse boleiro, com sorte, começa a ganhar algo trezentos a quinhentos reais por mês quando está com 20, 21 anos de idade. Muitos nem isso ganham. Salários acima de dois ou três mil reais, só existem para os que têm algum nome e para os que estão em grandes clubes. No Brasil, clubes que pagam salários desse porte para cima, existem uns sessenta a oitenta. Estou sendo otimista, muito otimista.

Esse boleiro, tendo sorte na profissão, vai jogar até os 30 anos de idade, se tanto.

Ou seja, sua vida profissional plena não chega a durar dez anos. Geralmente dura muito menos. Esse é o tempo que ele tem para ganhar dinheiro. Raramente consegue, no máximo sobrevive, cuidando de si próprio e da própria família mais próxima: mulher, filhos, pai ou mãe, e olhe lá. Não consegue parar em parte alguma, está sempre correndo atrás de outro time, outro “professor”, outra proposta tão ruim ou pior do que tinha. Mas é a vida. Não compra casa, tem que alugar uma em cada cidade, geralmente como “favor” de algum diretor. Os mais previdentes, compram um terreninho na terra natal em algum sertão, constroem uma casinha e tem o que se chama de “onde cair morto”.

O Brasil lança no mercado, anualmente, pelo menos quatro a cinco mil novos jogadores de futebol. Melhor dizendo, jovens que querem e tentam fazer do “correr atrás da bola” a sua profissão. Não temos mercado de trabalho para essa rapaziada. Mesmo porque, atrás dessa leva tem um número muitas vezes maior dos que nem sequer tentam se lançar na carreira.

Não existe emprego para eles.

Nosso mercado futebolístico não consegue absorver a maior parte desse exército de reserva, uma espécie de “lumpen proletariado” do futebol, buscando auxílio nas velhas leituras das teorias marxistas.

Para essa massa, resta trabalhar na construção civil, na prestação de serviços, ou o trabalho na roça.

Não há lugar para eles no mundo da bola, exceto como massa de pressão sobre os que nele já estão trabalhando.

Esse é o cenário básico, esse é o grande padrão.

Para esses brasileiros, jogar no Vietnã ou na Islândia, na Ucrânia ou no Usbequistão, significa sobreviver, ganhar algum dinheirinho, vir a ser alguém na vida que tenha, ao menos, onde cair morto. Então...

Enquanto os torcedores xingam o “mercenarismo” dos jogadores...

Enquanto jornalistas criticam sua saída em massa...

Enquanto cartolas engravatados e endinheirados bolam meios para prendê-los...

Enquanto nobres parlamentares movem-se nas sombras do Planalto Central criando leis restritivas...

Pedrão embarca em algum vôo KAL em Cumbica e vai tratar de cuidar de sua própria vida. Porque, se ele não fizer isso, agora, ninguém fará por ele nem agora, muito menos no futuro.

Boa sorte, Pedrão, felicidades na Coréia.


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3 Comments:

  • At 2:28 PM, Blogger ronaldo derly said…

    show de bola seu texto caro emerson
    a realidade é dura mas é melhor que a
    mentira,um abraço.

    ronaldo derly

     
  • At 12:36 PM, Blogger Rod Molina said…

    Entendo o lado dos jogadores. A esmagadora maioria dos "boleiros, não vingam na carreira. Mesmo os mais talentosos, pois nem sempre se transforma talento em realização. Uma oportunidade como essa do Pedrão pode ser a última.

    Ao mesmo tempo, entendo o lado do torcedor magoado. E acredito que o próprio torcedor, sabe muito bem distinguir um caso como o do Pedrão de um caso como o do Leandro "traíra" Amaral, por exemplo.

    Uma coisa é o jogador iniciante, de um clube pequeno, incerto sobre o desenrolar de sua futura carreira. A outra é o jogador rodado, com passagens por clubes europeus, dar thau e benção para quem lhe deu uma oportunidade quando sua carreira estava em baixa. Depois a figura aparece acusando o clube de querer mantê-lo sob regime de escravidão...E lá vai o boleiro...não honrando sua assinatura e, mais do que isso, sua palavra. E muitas vezes sob a complacência da Justiça(?) Trabalhista. Isso pra mim, meu caro, é mercenarismo sim.

    Agora, há casos e casos...O perigo reside na generalização.

    Não precisa nem dizer que seu amigo boleiro bem nascido é o Caio Ribeiro. Não o conheço pessoalmente como você, mas tenho certeza que é um tremendo sangue-bom.

    abraço.

     
  • At 1:01 PM, Blogger Emerson said…

    Casos como o do Leandro Amaral são raros. Ganham repercussão, claro, mas não representam a realidade.

    Se o governo e os parlamentares entrarem muito na questão, a coisa complica, pois o parâmetro é tirado a partir dos boleiros de renome, e esses são apenas a pontinha da ponta da pirâmide.

    Indoutrodia, questionava-se o fato de um brasileiro ser o goleiro da seleção do Vietnã.
    Assim como tem gente que reclama pelo Eduardo Silva ter saído de uma favela para jogar na Croácia.

    Mas, quando esses dois jogadores teriam alguma chance no Brasil, né?

    O torcedor comum, Rod, vai sempre entrar em choque com os desejos do jogador.

    :o)

     

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