Um Olhar Crônico Esportivo

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terça-feira, outubro 09, 2007

Futebol periférico


Era uma vez, muito tempo atrás, em que o futebol brasileiro era conhecido não só por sua mágica seleção, mas também por vários de seus times, um em particular, que abrigava um rei e uma constelação de craques. Um dia o Rei parou, mas os clubes continuaram conhecidos em terras d’Europa. Todo ano, no verão, lá estavam eles em campos de Espanha, França, Itália, Portugal, Alemanha... Jogavam, ora mais, ora menos bonito, ganhavam, perdiam, mas diziam presente à hipotética chamada de presença dos clubes importantes.

Esse tempo se foi, há muito.

Há poucos dias, um amigo blogueiro, o Cristiano, lá das Geraes, voltou de viagem por terras asiáticas, mais precisamente Índia e China. Apaixonado por futebol, andou pelas cidades, entrou em lojas de esportes, todas com belas camisas dos clubes importantes: Barcelona, Manchester United, Real Madrid, Milan, Arsenal, Liverpool, Juventus, Bayern Munchen, Boca Juniors, River Plate, Ajax, Olympique Lyon, ...

- Epa!

- Volte a fita, por favor.

- Aí, nesse ponto... Play, por favor.

- ... Bayern Munchen, Boca Juniors, River Plate, Ajax

- Ok, pode parar.

- Boca e River? Isso está certo?

- Sim, está certo.

- E o São Paulo e o Internacional? E o Flamengo, o Corinthians, o Grêmio, o Palmeiras, o Vasco, o Cruzeiro, o Galo? E o Santos de Pelé, mesmo sem ele?

Nada. Nadica de nada.

Pois é, assim foi a visita do Cristiano em lojas indianas e chinesas. Dois países que estão, hoje, na dianteira dos desejos de todos os negócios, de todas as expansões. Dois países onde o futebol começa a despontar e a despertar paixões. Onde qualquer um reconhece a camisa amarela de uma certa seleção, sabe falar Ronaldo, Kaká e Ronaldinho nos mais insólitos idiomas e dialetos, desde os altos do Himalaia até o asfalto de Shangai e as margens do Ganges, mas onde ninguém conhece e compra uma camisa de um de nossos grandes times.

Outro amigo blogueiro, o Ricardo, estava em Buenos Aires. Em conversa com o taxista, ouviu desse que o River só passara adiante na Sudamericana porque enfrentara um time pequeno do Brasil. Um time pequeno... Assim ele referiu-se a nada menos que o time de Garrincha e Nilton Santos, para dizer só dois de uma constelação. O taxista amante do Boca e do futebol, do Brasil só conhece São Paulo, Internacional, Grêmio, Flamengo... Times com passagens mais constantes ou recentes pela Libertadores. O “resto”, tão poderoso e cheio de glórias e histórias, ele desconhece.

Enquanto isso, simultaneamente também, pois o Cristiano e o Ricardo estavam viajando ao mesmo tempo, outro amigo, também Ricardo, mas esse um português do Porto, e portista fanático (ele preferirá ser chamado de racional), claro, chegava em Madrid para morar e estudar por algum tempo. Surpreso, viu seus novos colegas de escola disputando um desses jogos de futebol em computador, e o jogo era um FlaFlu em plena cidade de... São Paulo. Então ele constatou que seus colegas, madridistas ou blaugranos fanáticos, nada sabiam do futebol da terra que gerou Dinho, Robinho, Ronaldo, Roberto Carlos, e tantos outros que povoaram e povoam o futebol d’Espanha. Todavia, conheciam e bem, o futebol de nossos hermanos argentinos. Do futebol brasileiro, conheciam apenas a seleção e os jogadores, os muitos jogadores brasileiros que atuam por toda a Europa.

Ainda simultaneamente a tudo isso, a lista de inscrições para a atual UEFA Champions League, mostrava nada menos que 102 – cento e dois, para não haver confusão – jogadores brasileiros (dos quais uma meia dúzia naturalizada em diversos países) inscritos na competição. Sem contar, portanto, alguns outros não inscritos por problemas diversos. O país com maior número de jogaodores na competição, era apenas e tão somente o atual campeão do mundo, a Itália, com 64 atletas.

Assim estamos hoje. Apesar de termos um excelente campeonato, com vinte clubes, há cinco anos já disputado em pontos corridos, com os compromissos sendo cumpridos rigorosamente (bom, teve o Pan, mas não é todo ano, nem mesmo toda década) e jogadores aparecendo em profusão, quase ninguém vê nossos jogos, nem mesmo na hermana Argentina. No hotel em que o Ricardo ficou tinha 4 canais de esportes disponíveis e nenhum mostrava o Campeonato Brasileiro. Na Europa, um ou outro canal ainda passa nossos jogos para os insones das altas madrugadas.

Também, por que passariam em outros horários mais nobres? Para quem? Afinal, a geração que conheceu e apreciou nossos clubes já morreu ou já não mais domina o controle remoto da televisão.

O futebol brasileiro, entretanto, não liga para isso. Nossos times, pelo visto, preferem as emocionantes disputas contra o São Bento de Sorocaba, contra o Americano de Campos, contra o Tupi de Juiz de Fora, contra o XV de Campo Bom... Sem falar, é claro, da paixão alucinante pelos portentosos clássicos municipais, mesmo que repetidos sete, oito, nove vezes por ano, e na incompetência ou inapetência dos dirigentes do Clube dos 13 em vender nosso campeonato mundo afora. Talvez falte tempo a eles, pois a disputa interna pelo poder é mais importante.

Além disso tudo, gostamos de ceder nossos jogadores ao mercado mundial em agosto. Isso é excelente, uma grande jogada de marketing para apimentar e dar mais emoções ao nosso principal campeonato, onde mal e mal se sabe como começa um time e nem se desconfia de como ele terminará.


Muito emocionante. Os tolos europeus, se descobrissem nossa fórmula de sucesso... Fariam questão, com certeza, de nos mandar seus melhores jogadores todo agosto, todo janeiro. Ainda bem que não são capazes de enxergar alto tão inteligente.
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E assim ficamos, na periferia.
Porque Brasil e Argentina são países periféricos, mas, como no futebol os argentinos nos passam a perna nas "estranjas", somos, portanto, periferia da Argentina.
Periferia da periferia.

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