Um Olhar Crônico Esportivo

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sábado, abril 05, 2008

Que canelada, Ricardo Teixeira!


Esse tópico ia entrar no post anterior, “Boladas & Caneladas”, mas achei melhor colocá-lo à parte. Algo me diz que esse assunto irá render muito, principalmente no futuro.

“Pensei que a Bolívia e algum outro país da área andina é que estavam aborrecidos com a posição de Teixeira [Ricardo, presidente da CBF], mas me surpreendi que outros estejam. Teixeira, como nosso representante no Comitê Executivo da Fifa, não nos representou", afirmou Carlos Chávez, presidente da federação boliviana.
Anteontem, na reunião do Executivo da Conmebol, todas as federações nacionais do continente, exceto a brasileira, ratificaram o apoio aos jogos em locais acima de 2.750 m de altitude, inclusive nas eliminatórias da Copa, como vetou a Fifa, entidade máxima do futebol.
Segundo Chávez, Teixeira anotou um ""gol contra" ao não assinar documento enviado à Fifa apoiando a decisão da Conmebol, que não vai vetar jogos na altitude em suas competições, como a Libertadores.
""É uma situação delicada. A atitude brasileira vai afetar o que sempre foi a Conmebol: unida, integrada e monolítica", afirmou o dirigente boliviano.
Teixeira agiu com base em resolução recente da Fifa.”

O trecho acima está transcrito da matéria a respeito publicada pela Folha de S.Paulo de hoje. O que a matéria não diz, mas eu me atrevo imaginar, é que essa decisão de R Teixeira será cobrada, e com juros, em futuro próximo.

Durante a maior parte de sua existência a Confederação Sul Americana de Futebol foi um local insalubre para o futebol brasileiro. Essa, por sinal, é tão somente a reprodução do que sempre aconteceu na vida real ou na vida geral. O Brasil sempre foi um estranho no ninho sul-americano, diferenciado, mas não isolado, pela língua e pela história. “Simon Bolívar” – Biografias Gandesa – México, 1960 (1ª edição), escrita por Gerhard Masur, a melhor biografia do grande ídolo de um certo coronel venezuelano, cita o Brasil em apenas 8 de suas 600 páginas. Pior ainda, nas menções significativas, o Brasil é o inimigo a ser temido e do qual se deve proteger. Em “Peixe na Água”, livro de memórias de Mario Vargas Llosa, intelectual de primeira grandeza com especial gosto pelo Brasil, inclusive com um livro de peso sobre Canudos, tampouco se encontra referências ao país e a seus intelectuais. Llosa só veio a descobrir o Brasil numa fase mais adiantada de sua vida e de sua carreira como escritor e intelectual combativo, além de político por algum tempo – foi candidato à presidência do Peru, derrotado por “El Chino” Fujimori.

Coincidindo com a maior abertura do Brasil para a América do Sul, a CBF também inseriu-se com jeito na CONMEBOL. Quando Teixeira pleiteou a Copa 2014 para o Brasil, em nenhum momento deixou de ter total apoio da Confederação, que ignorou simplesmente o desejo colombiano de organizá-la, curando-se do vexame de 1986, da mesma forma que jogou por terra quaisquer pretensões que grupos argentinos e chilenos chegaram a esboçar de apresentar uma candidatura conjunta – por sinal, estimulada abertamente por Blatter.

É esse castelo lenta e cuidadosamente construído que Ricardo Teixeira pode ter derrubado. Mais que defender a resolução da FIFA sobre os jogos na altitude, Teixeira defendeu a posição do Flamengo em campanha solitária a favor de não disputar jogos da Libertadores em cidades altas. Ao se posicionar contra a opinião majoritária dos demais países cometeu um erro político de peso, e que não pode ser chamado de acerto político no plano interno. A rigor, nenhum dos grandes clubes brasileiros, mesmo os que formalmente apoiaram o pedido de Marcio Braga, está empenhado em derrubar os jogos nas cidades elevadas, principalmente por nunca terem sido, de fato, prejudicados pelo fato de jogarem nesses locais. Mesmo quando derrotados, como no caso recente do Santos, tiveram amplas condições de superar os pontos perdidos e obter suas classificações. Como fez, por sinal, o próprio Flamengo em 2007.

Para complicar ainda mais esse quadro, dois dos presidentes dos paises afetados, o boliviano Evo Morales e Rafael Correa, do Equador, envolveram-se pessoalmente nessa disputa, contando com o apoio entusiasmado de Hugo Chávez, cujos tentáculos movidos a petrodólares vão muito longe da Venezuela.

Em minha opinião, errou o Flamengo com essa campanha, cuja motivação real desconheço. Muito mais que o Flamengo errou o presidente da CBF ao apoiar o pedido de seu filiado na reunião do Conselho Executivo da CONMEBOL e ao defender a recomendação da FIFA a respeito para jogos de seleções nacionais.

E voltou a deixar o Brasil isolado politicamente no seio de sua Confederação.

Essa fatura será cobrada do futebol brasileiro, estejam certos disso.

E não será barata.


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3 Comments:

  • At 1:26 PM, Blogger Rod Molina said…

    Boa tarde, Emerson

    Hoje vou discordar do amigo.

    Em 1°lugar, pela contraditória afirmação sobre uma "posição do Flamengo em campanha solitária a favor de não disputar jogos da Libertadores em cidades altas", para logo em seguida reconhecer que outros grandes clubes apoiaram formamlmente o pleito, inclusive o seu SPFC como você bem sabe e reprova. Ora, se eu tenho um procurador com seu mandato válido e devidamente assinado, ele não será o representante das minhas vontades e posicionamentos agindo dentro dos limites de sua procuração? Me parece que sim.

    Também não concordo com a tese do erro político. A quem o Ricardo Teixeira representa? Erro político, na minha modestíssima opinião, seria contrariar a vontade manifesta dos clubes aos quais a CBF representa. Não caia nessa, meu caro, de CONMEBOL unificada. Isso é conversa de bolivariano pra boi dormir. Como dizia o Dr. João Havelange -mentor intelectual do Ricardo Teixeira-, "Nós falamos enquanto eles ablan". Essa frase diz muita coisa, assim como as palavras do livro do Gehard Masur que você reproduziu.

    E outra coisa, o posicionamento dos clubes brasileiros, não se refere a todas as cidades altas e sim àquelas em acima dos 2.750m, que são pouquíssimas mas suficientes para afrontar os critérios esportivos e ameaçar a integridade física dos atletas.

    E por fim, não há que se falar em decisão da FIFA simplesmente. E sim, em decisão do congresso médico da FIFA.

    Um abraço,
    Rod.

     
  • At 2:27 PM, Blogger Emerson said…

    :o)

    Contava com tua resposta, Rod, mesmo discordando de minhas colocações.

    Não fui contraditório ao dizer que o Flamengo faz campanha solitária, pois ele o faz. Ninguém acompanhou ou acompanha Márcio Braga em suas conversas sobre esse tema. Os demais clubes participantes da Libertadores assinaram uma carta, um ato formal, mas em nenhum momento se envolveram com a campanha, nem mesmo o Perrella de plantão na presidência do Cruzeiro. Uma coisa é você chegar no palácio com tua voz e uma carta de apoio. Outra, muito diferente, é você chegar no palácio acompanhado pela massa, se for o caso, ou pelos demais interessados no assunto, provando ao “príncipe” que aquela reivindicação é coletiva de fato.
    Volto a dizer: politicamente, essa campanha ditada pelo emocional é um erro. Política se faz com cabeça gelada e coração quente. Como é a cabeça que controla a voz...

    Ricardo Teixeira tem múltiplas representações. Formalmente, ele representa os clubes brasileiros, o que sabemos ser mera ficção. Formal e politicamente, ele foi o indicado para representar a América do Sul junto ao Comitê Executivo da FIFA. Acredite, essa representação é muito mais autêntica do que a dos clubes brasileiros.

    Quanto à CONMEBOL, Rod, ela vota unida, sim, e não é de hoje. Havelange, como bem demonstra a frase que você citou, nunca entendeu a importância da América do Sul e fez carreira na FIFA apesar do continente e graças, é claro, a Pelé e aos títulos mundiais, sem falar nas promessas a um mundo de emergentes no futebol. A Copa 2014 veio para cá graças ao apoio da CONMEBOL. Leóz & Cia. foram fundamentais para pavimentar o caminho brasileiro sem concorrência.

    As cidades altas são todas acima de 2.750m:
    Quito – 2.800
    La Paz – 3.600
    Oruro – 3.760
    Potosí – 3.920
    Cuzco – 3.400

    São três países afetados, portanto, num total de dez. Outro país, a Venezuela, fecha incondicionalmente com essa posição, como sabemos. O mesmo faz a Colômbia, até porque ela própria tem algumas cidades quase no nível de Quito. Aí já estamos meio a meio. Historicamente, Argentina e Paraguai não votam com o Brasil, o Uruguai raramente e o Chile moderno vota de acordo com seus interesses políticos.

    Agora vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Sinceramente, eu acredito que viremos a ter problemas com a Confederação. Nada, talvez, que afete nosso dia-a-dia, mas a CBF, certamente, terá seus interesses atingidos, assim como Ricardo Teixeira.

     
  • At 6:33 PM, Blogger agepe said…

    Caro Emerson, na réplica ao Rod vc diz:
    "Historicamente, Argentina e Paraguai não votam com o Brasil, o Uruguai raramente e o Chile moderno vota de acordo com seus interesses políticos. "
    Sem muitas palavras: eis aí a mostra que não existe uma CONMEMBOL unificada.
    Tb não sou fã do Ricardo Teixeira, mas estranho seria se ele como representante do futebol brasileiro, em uma reunião na entidade sul americana não defendesse os interesses do(s) clube (s) brasileiro(s).

    Um abraço

     

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