Um Olhar Crônico Esportivo

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sexta-feira, julho 04, 2008

Cuidado! Janela aberta!



Terminou a Copa Santander Libertadores e o último time que ainda a disputava agora dirigirá seu foco totalmente para o Campeonato Brasileiro.

Ao mesmo tempo, foi aberta a ‘janela de verão’ para contratações na Europa. E, janela aberta, pássaros variados começam a bater suas asas no rumo do Sol Nascente – não necessariamente o Japão, embora esse também beneficie-se da revoada.

Os próximos 58 dias, até 31 de agosto, serão angustiantes para muitas torcidas e, principalmente, para muitas famílias brasileiras, todas empenhadas, rezando e fazendo promessas para que seus rebentos sejam chamados a jogar em algum clube europeu. Muitos diretores de clubes também estão rezando por boas transferências, que deixem algum dinheiro para pagar as muitas contas imediatas ou já vencidas.

Às vezes parece um circo.

É um circo, às vezes.


Roger, segundo o diretor do Grêmio, chegou de supetão e disse que está indo embora para o Qatar. Ainda falou em voltar caso não dê certo, mas sua proposta foi rechaçada.

O diretor gremista saiu vociferando contra o jogador. Há que saber, primeiro, se a iniciativa da negociação partiu dele ou do Sport Club Corinthians Paulista, ainda detentor de seus direitos econômicos e pagador de metade de seu salário, cabendo ao Grêmio pagar a outra metade. Se o contrato feito com o jogador tem essa liberalidade, não há o que reclamar, é mandar passar no “departamento pessoal”, pegar o chequinho de rescisão, assinar os papéis e embarcar para Cumbica.

Contratos existem para regularem e defenderem as duas partes. Se uma parte assina em posição de menor força, é claro que terá o contrato contra si em algum momento.

Foi o que aconteceu com Roger e Grêmio.

Ibson está solto e preso ao mesmo tempo. Já não tem vínculo com o Flamengo, mas tampouco é desejado no Porto, clube que é dono de seus direitos econômicos e, no momento, de seus direitos federativos. Há a expectativa em torno de seu futuro imediato: Flamengo, São Paulo ou algum clube europeu?

Diego Cavalieri está de partida, aliás, já partiu ou parte amanhã. Na volta saberemos se vai para um poderoso inglês ou um mediano espanhol. Uma coisa, porém, é certa: ele vai embora e vai barato, por apenas 3 milhões de libras, o equivalente a 9,5 milhões de reais ou 3,8 milhões de euros. Pouco desse dinheiro ficará com o Palmeiras, pois uma parte de seus direitos já fora repassada à Traffic e outra parte foi incluída na Cesta de Atletas (na verdade 1/3 desse valor e mais 25%, aproximadamente, de sua valorização). Se bobear, a Sociedade Esportiva Palmeiras ainda terá que pagar algum por conta dessa transferência.

Marcelo Moreno, o jovem e excelente centroavante boliviano, já se foi há semanas para a Ucrânia, por belos e sonoros 9 milhões de euros. Desse valor, apenas 40% ficaram com o Cruzeiro, pois 10% eram do jogador e 50% de um grupo de investidores.

As baterias da artilharia ‘janelística’ estão assestadas contra todos os clubes brasileiros de alguma expressão. Fazer uma listagem seria tedioso e nunca ficaria completo, pois a dinâmica do vai-e-vem é muito intensa. Duas das mais visíveis bolas da vez são o Fluminense e o São Paulo.

Do Fluminense, time que conquistou o vice-campeonato das Américas com gols e jogos bonitos, fala-se, naturalmente, nos Thiagos, o Silva e o Neves. E também em Gabriel e Arouca. Os rumores, dessa vez internos, dão conta da possível saída de Dodô para Belo Horizonte, para o Galo. No caso do Fluminense negociar esses atletas, pouco será o dinheiro em caixa, pois, pelo que sei (e posso estar enganado, já que não acompanhei detidamente esse clube), boa parte dos direitos econômicos desses atletas está em mãos do patrocinador ou de investidores. A conferir.

No São Paulo, há muito dá-se como certa a saída de Hernanes, provavelmente para o Barcelona. A situação de Miranda começa a ficar definida e fala-se em proposta do Milan. A contratação de Miranda, inicialmente por empréstimo junto ao Sochaux, e depois em definitivo, discretamente e por baixo custo, foi um dos melhores negócios da gestão Juvenal Juvêncio. Sua multa contratual é de somente 20 milhões de dólares, pouco menos de 13 milhões de euros, dos quais 20% pertencem ao atleta (ou a terceiros, caso ele tenha negociado sua parte). Alex Silva é outro que, na minha opinião, dificilmente deixará essa janela fechar sem que ele a aproveite. Seu caso é bem diferente, pois ele, a rigor, nunca foi jogador do São Paulo de fato. Desde o início veio sem custo, mas com o grosso de seus direitos econômicos em seu poder e de seu agente, Juan Figger. Um grande negócio, apesar de até parecer que não, posto que ele nada custou ao clube além de salários, que nunca foram altos, pelo contrário (comparados aos salários praticados por alguns grandes clubes brasileiros). Fora esses três, há ainda a possível saída de Richarlyson, que teve proposta da Roma em 2007, mas optou por ficar (com novo contrato, uma participação em seus direitos econômicos e um agradinho no salário). Mas agora parece chegada a hora. E, finalmente, Dagoberto, para surpresa de muita gente, eu inclusive. Comenta-se que o Nantes ofereceu, de fato, 5 milhões de euros – 12,6 milhões de reais, pouco mais que o dobro do valor pago pelo São Paulo por sua transferência), mas o São Paulo recusou. Talvez porque haja negociação em andamento com o Borussia Dortmund.

O Palmeiras, provavelmente, perderá mais jogadores além de Diego e do zagueiro Henrique. Ah, sim, Henrique... A Traffic pagou por ele 5 milhões de reais ao Coritiba e negociou-o há poucos dias por 10 milhões de euros – 25 milhões de reais – com o Barcelona. Pagou 5, vendeu por 25, lucrou 20 milhões. Desse valor, 20% - 4 milhões de reais – foi pago ao Palmeiras por força do contrato entre as partes: o clube fica com 20% do lucro da empresa em cada negociação de jogador que a empresa trouxer para o elenco e depois negociar.

Não é difícil que os olhares estrangeiros voltem-se para o rubro-negro da Gávea. Na mira, Juan e Marcinho, pelo menos, lembrando que Juan já tem passaporte europeu, o que facilita sobremaneira sua negociação. Aparentemente, ainda não será dessa vez que o Flamengo negociará Renato Augusto, ainda um desejo de sua direção, apesar dos direitos econômicos já terem sido negociados em parte com investidores diversos.

Muito provavelmente, Roberto Dinamite, recém-empossado no Vasco, tentará negociar Morais e Leandro Amaral, para fazer algum dinheiro e pagar as contas mais imediatas. Uma péssima notícia para a torcida vascaína e, pior ainda, as indicações são de que outras notícias igualmente ruins virão. Roberto está começando a abrir caixa-preta euriquiana.

E assim caminha o mercado.

E daí?

Isso é certo?

É errado?

É evitável?

É inevitável?

Os clubes não perdem?

A meu ver não é certo e tampouco é errado, é apenas a dinâmica natural dos mercados que regem nossas vidas. Profissionais vão em busca de melhores salários e condições de vida e trabalho, algo perfeitamente legítimo, aliás, mais que isso, direitos inalienáveis de todo ser humano.

Não dá para evitar pelo simples fato de não termos, ainda, uma economia e principalmente clubes estruturados e ricos o bastante para segurar os jogadores. Porque segurar um jogador pretendido pelo exterior é negócio caro, de alto custo e riscos ainda maiores. Nenhum grupo de atletas ficará satisfeito se um ou dois ganharem uma fortuna e os demais, carregadores de piano, ganharem pouco. São muitas as histórias macabras envolvendo situações desse tipo. O adjetivo é forte, mas combina bem com os imbróglios criados por favorecimentos salariais.

Os clubes não perdem. Ou melhor, podem perder, dependendo da forma como contratam ou da forma como recebem os jogadores. Um clube pode contratar um jogador e pagar-lhe um salário dentro de sua realidade, talvez até inferior ao que o jogador ganharia num país menos badalado. Nesse caso, o jogador fica para aparecer e fazer uma transferência melhor. É claro que, como contrapartida, ele terá uma participação maior nos direitos econômicos de sua transferência.

Por outro lado, se um clube meramente recebe um jogador e nada paga por isso, tampouco ganhará alguma coisa substancial ou mesmo alguma coisa, simplesmente, em caso de transferência.

Qualquer pessoa, qualquer torcedor investido no papel de agente, negociaria do mesmo jeito. Se o clube banca e investe, ele se protege com um contrato bom. Se não faz isso...

Buenas, enquanto isso, bom final de semana a todos.

E cuidado com as janelas abertas.

No mundo da bola o problema não é quem entra, mas quem sai.


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