Um Olhar Crônico Esportivo

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sábado, março 15, 2008

“Onde está o dinheiro?”

Pelé fala... Cartolas retrucam

Durante sua apresentação, o presidente mundial do Banco Santander disse que Pelé era um exemplo para “niños y jóvenes que quieren ser como tu”. Palavras difíceis de serem pronunciadas para a maioria dos profissionais de destaque no mundo esportivo, verdade seja dita (verdade contestada, curiosamente, apenas em dois países; ganha um doce o blogueiro que adivinhar quais são). Foi essa figura mítica que respondeu, com educação e toda a atenção, a uma verdadeira enxurrada de perguntas, tanto do palco como depois cercado pelo “muro móvel” citado em post anterior.


A primeira pergunta que provocou reações mais fortes de Pelé foi a respeito da saída que não aconteceu de Rodrigo Souto. Naturalmente, a pergunta encadeava a resposta (triste vício do jornalismo esportivo brasileiro) e esta tinha a ver com a atuação dos empresários no mundo do futebol e a lei que leva seu nome.

Pelé respondeu que os problemas, na verdade, começam com a administração dos clubes e, mais uma vez, explicou que a Lei Pelé foi muito mexida pelo Congresso Nacional, tendo uma redação final bastante diferente da original que saiu de seu gabinete. Ela previa, entre outras coisas, a profissionalização dos clubes de futebol, incluindo itens como prestação de contas anual (ainda hoje há problemas nessa área – nota do Editor). Se um clube pretende vender uma cadeira velha da piscina, é necessário haver uma autorização do Conselho Deliberativo. Entretanto, o mesmo clube vende (direitos federativos) um jogador no valor de muitos milhões sem nenhuma aprovação interna. Nada impede essse tipo de negócio.

Na mesma resposta, Pelé falou, também, que a falta de profissionalismo na gestão permite, ou facilita, a saída de jogadores jovens para o exterior e, nesse ponto, criticou a ação de empresários sem caráter, contando que, há dois anos, foi convidado para uma solenidade em memória de Yashin, o Aranha Negra, em Moscou, da qual participou também a viúva do antigo craque. E no Aeroporto de Moscou, ele e seu pessoal, encontraram dois jovens jogadores brasileiros ali abandonados, sem dinheiro, sem orientação, dormindo em bancos. Disse que providenciou o retorno dos dois jovens para o Brasil e casos como esse acontecem porque os clubes, em todos os níveis, não têm administração profissional. Citou o São Paulo como exemplo oposto, por ser bem administrado.

Pouco depois, o repórter Roberto Thomé perguntou-lhe sobre o êxodo de jovens para o exterior e que mudanças na Lei Pelé poderiam ser feitas para evitar isso. (No momento, por pressão dos clubes, o Ministério dos Esportes prepara uma proposta de mudança na lei no que diz respeito ao item conhecido como “proteção do clube formador” – nota do Editor.)

Segundo Pelé, e como defende esse Olhar Crônico Esportivo, não há como evitar a saída dos jovens por força de lei. Hoje, um clube europeu que quer determinado garoto, simplesmente leva toda sua família para fora e resolve a questão. E não há como impedir isso por ser inconstitucional. O direito de ir e vir é garantido pela Constituição (e é um dos Direitos Universais do ser humano – nota do Editor). Novamente, e demonstrando se não irritação, pelo menos uma ênfase muito maior, Pelé voltou a dizer que esse êxodo é fácil porque falta honestidade na administração dos clubes. E lançou uma pergunta:

- Por que ao invés de falar disso, vocês não perguntam onde está o dinheiro?

Com isso, referiu-se às muitas dezenas de milhões de dólares que entraram em clubes brasileiros e ali sumiram. Citou, nominalmente e com os valores:

- Flamengo: mais ou menos 80 milhões de dólares, lembrando que foi ele um dos que intermediaram o acordo entre a ISL e o clube;

- Vasco da Gama: 65 milhões de dólares do American Bank;

- Cruzeiro: 60 milhões de dólares;

- Grêmio: 38 milhões de dólares;

- Corinthians, que teve três parcerias...

E voltou à carga, repetindo que falta honestidade na administração dos clubes brasileiros, que é preciso profissionalizar a administração.

Repercussões

Era para ter escrito e publicado esse post ainda ontem, no calor dos acontecimentos, mas não consegui fazê-lo, por conta de atividades outras e também porque a Record pulou fora da licitação do Clube dos 13 como vocês já viram. Esse atraso, porém, permitiu a esse blogueiro tomar conhecimento da repercussão das palavras de Pelé.

Tomo aqui a liberdade de transcrever trechos publicados na edição de hoje da Folha de S.Paulo (não coloco o link porque o material só é acessível a assinantes):

Zezé Perrella, do Cruzeiro: "Pelé não pode falar do Cruzeiro. Se quiser saber alguma coisa, faça uma visita a Minas e venha ver o nosso CT. Nosso dinheiro da parceria foi auditado por duas empresas, e as contas, aprovadas", defendeu-se Perrella. "Parafraseando Romário, ele, calado, é um poeta."

Esse cartola foi mais longe ainda, além de citar a frase tola sobre ser ele um poeta quando calado: disse que é “bobagem” ele dizer que é inconstitucional fechar contratos com menores de 14 anos. Naturalmente, o cartola, que é deputado estadual (interessante isso, não?), desconhece o que seja um direito constitucional e o que seja o direito de ir e vir.

Eurico Miranda, do Vasco: "A lei foi feita para vender o futebol brasileiro", disse Eurico. "O negócio deles [Pelé] é fazer negócio. E briga com seu preposto quando a divisão do dinheiro não está certa [sobre desavença do ex-jogador com seu ex-sócio Hélio Viana]."

Kleber Leite, do Flamengo, não tentou tampar o sol com a peneira, totalmente: "A culpa [dos dirigentes pela evasão] é em parte. Há outros componentes, como a abertura de mercados. Há maus e bons dirigentes e empresários." Mas ele concordou com Pelé sobre a má gestão no clube durante a parceria com a ISL. Em função disso, o ex-presidente da época, Edmundo dos Santos Silva, sofreu impeachment.

Para esse blog, declarações como a do Perrella Zezé e Eurico Miranda, não surpreendem nem um pouco, pelo contrário. Perrella cita como fruto da parceria a Toca da Raposa, o moderno e excelente CT do Cruzeiro. Ora, dizer tal coisa é zombar com todos que têm uma noção ainda que mínima dos custos para se construir uma obra como aquela. Lembrando, o que é sempre bom, que naquela época o dólar era muito mais valorizado do que é hoje, no mínimo o dobro, descontando a inflação. Ou seja, trazendo para a nossa realidade econômica de 2008, o dinheiro que entrou no Cruzeiro foi de 200 milhões de reais para cima. Façam as contas para os outros clubes citados...

Apenas para efeito comparativo, qualquer blogueiro pode acessar os balanços do São Paulo e acompanhar os custos do CCT de Cotia, o mesmo cujo custo foi coberto várias vezes apenas com a venda do zagueiro Breno – meros 19 milhões de dólares, com o dólar valendo o que vale hoje.

Para esses dirigentes, sem a menor sombra de dúvida, Pelé é mesmo um poeta quando está calado.

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4 Comments:

  • At 9:34 AM, Blogger Rod Molina said…

    Emerson,

    Não sei se você sabe, mas dos 80 milhões de dólares enviados pela extinta ISL ao Flamengo, somente 65 milhões entraram nas contas do clube. O que aconteceu com estes 15 milhões que sumiram, é um suspense hitchcockiano que até agora não foi explicado lá na Gávea.

    Me dê licença para tocar num ponto que é meio off-topic. Vou reproduzir aqui no OCE, uma pequena parte de um texto meu, denominado "OS TRAÍRAS":

    "Gilmar Rinaldi foi goleiro do Flamengo durante a conquista do Pentacampeonato Brasileiro de 1992, quando defendeu as cores do Clube com afinco, conseguindo grande identificação com a torcida. Se tornou diretor de futebol do clube, a convite do então presidente Edmundo Santos Silva, quando já era agente FIFA credenciado para intermediar transferências de jogadores. Confesso que me soou estranho, mas devido a bonita história de Gilmar vestindo a camisa n° 1 rubro-negra, inocentemente não dei maior importância ao assunto. Pois não é que o Gilmar, aproveitando-se de seu cargo e da proximidade com os atletas, se tornou procurador de três jovens revelações do clube: Adriano, Reinaldo e Juan. E mais, quase que numa pancada só, os três foram vendidos, sendo que Adriano e Reinaldo numa negociação pra lá de esquisita e desvantajosa para o Flamengo. Os dois foram trocados pelo irregular e indisciplinado Vampeta, e mais uma diferença em dinheiro. Que feio, Gilmar... sinceramente não esperava isso logo de você. Exercer a função de diretor de futebol de um clube, e ser procurador de jogadores da mesma instituição, definitivamente, não existe! São funções incompatíveis de se exercer ao mesmo tempo. É uma mistura que combina tanto, quanto siri com toddy, e faria corar os arautos da ética."

    Como diria Renato Maurício Prado, Pano Rápido!

     
  • At 9:42 AM, Blogger Rubão said…

    Pelé merece crédito pelo que foi, mas é preciso ter muito cuidado com o homem de negócios. Ao longo da carreira se associou à pessoas desonestas, desde o tempo de Pepe, o Gordo, em Santos até o Hélio Viana. Ele tem um faro imenso para atrair a pior laia possível do seu lado e não se incomoda em fazer negócio com essa gente.

    Pelé pode cutucar muita gente dizendo coisas que todos cansamos de saber, mas eu fico muito aborrecido em vê-lo associado à CBF e Ricardo Teixeira. Se Pelé quisesse realmente algo de bom para o futebol brasileiro deixaria Romário com o mico de ser o garoto-propaganda da Copa e começaria a trabalhar internamente para tirar a dinastia Havelange da CBF.

    Por que, por exemplo, não sai ele candidato às eleições? Por que não busca algo como Platini e Beckenbauer? Será que precisa ainda viver como garoto-propaganda? Não tem milhões acumulados para duas vidas? Enfim, poderia pensar mais no coletivo e não apenas apontar mazelas alheias.

    Rubens Leme

     
  • At 10:14 AM, Blogger Emerson said…

    Hummmmmm...

    Só saia justa ultimamente.
    :o(

    Mas, faz parte, como dizia o filósofo das noites de alguns anos atrás.
    hehehehe

    Rod, essa história do Gilmar é complicada. Ele, particularmente, é excelente pessoa, mas, de fato, virar empresário enquanto era diretor é aético.

    Rubão, sobre o Pelé eu sempre sou suspeito, pelo fato simples de ser macaco de auditório dele. Assumo.

    Posso estar errado, é claro, mas parece-me que ele jamais conseguiria vencer a malha de interesses que preserva a cartolagem federativa no comando das federações.
    Uma simples passada d'olhos pela lista de presidentes passados e presentes dá uma boa idéia do perfil desse pessoal.

    Nenhum Beckenbauer, nenhum Platini (burocratazinho de primeira grandeza), nenhum ex-atleta.
    Só doutores, que da bola só conhecem a circunferência.

    A própria história da Lei Pelé é um bom exemplo. Sua Majestade era Ministro de Estado e mesmo assim seu projeto de lei foi fragorosamente mudado para pior.

    Embora sem base sólida, e apenas por curiosidade, creio que o dinheiro do Pelé deve ser muito menor que o $$$ do Ronaldinho, por exemplo.

    Por mais que ele ganhe como garoto-propaganda, ainda assim é muito menos do que ganha Ronaldo, Ronaldinho, Beckham e outros.

     
  • At 10:30 AM, Blogger Rubão said…

    Concordo contigo, mas não podemos nos esquecer que Pelé adora meter os pés pelas mãos em transações nem sempre bem explicadas.

    Não entro no mérito de $$$ mesmo porque ele ganha eu e você não veremos em 10 vidas, por isso tanto faz se ele ganha 5, 10 ou 100 milhões.

    A questão é: alguém precisa quebrar esse círculo vicioso da CBF. É preciso juntar uma "comissão de notáveis", ou sei lá o nome que queira se dar e mobilizar uma ação contra essa dinastia.

    Zico, Pelé, Sócrates etc... são bons nomes. Sozinhos, não têm chance alguma. Juntos, e trabalhando em conjunto (muito importante) podem mudar algo.

    Utópico? talvez sim, mas não vejo muitas opções.

    Rubens Leme

     

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