Um Olhar Crônico Esportivo

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quinta-feira, março 06, 2008

A noite de Adriano


Fui ao Morumbi ontem com a intenção de reviver o clima “Libertadores” e escrever a respeito. Diz o Galvão que há uma “química diferenciada que liga a torcida do São Paulo com a Libertadores”. É, existe, mas ela já foi mais forte, foi mais presente em 2004, 2005 e 2006. É difícil existir química quando o time deixa a desejar em campo e nesse ponto a torcida Tricolor é e sempre foi a mesma: só comparece para apoiar bons times e, de preferência, bom futebol.

O público ficou em 29.000 pagantes. Minha expectativa era para trinta a trinta e cinco mil. Passou perto, mas ficou de bom tamanho. Depois de uma ausência de dez anos, essa é a quinta participação seguida na Copa Libertadores, um recorde entre os times brasileiros, e o torcedor agora vai com menos sede ao pote, só voltará a comparecer em peso nas fases seguintes.

Mesmo assim, os caminhos para o Morumbi estavam tomados por bandeiras e camisas são-paulinas, as bandeiras para fora dos carros, mas poucas, infelizmente. A polícia paulista proibiu a presença de bandeiras em estádios há muitos anos, numa decisão comodista, sem sentido e ultrapassada. Tirou boa parte da beleza das arquibancadas e nem por isso eliminou brigas e ferimentos.

Jogo de uma só torcida é gostoso e dá uma boa segurança, algo que precisamos levar em conta nos dias que correm. As barracas de sanduíches estão cheias, o cheiro do pernil nas chapas é uma tentação, mas prefiro comer depois do jogo, quando é mais gostoso e a fome estará mais aguçada. Ou não, afinal, jogo é jogo, sujeito a qualquer resultado, e comer depois de uma derrota provoca indigestão.

Antes de entrar, um passeio básico pelo Memorial. Os ídolos do passado, as taças, as histórias, o boneco de Leônidas numa bicicleta dominando todo o salão principal... Meu filho aproveita, coloca a cara na grande foto do time Campeão da Libertadores de 2005 e me pede uma foto. Faz parte, é divertido.

Chega de prolegomenos e vamos ao jogo.

O São Paulo, se não fez um mau primeiro tempo, esteve longe de ter feito um bom jogo. Ao meu lado alguns torcedores reclamavam da falta de velocidade, mas o problema, na minha opinião é a falta de fluência. Associada a ela a má fase de alguns jogadores. Richarlyson não acertou um só cruzamento em todo o jogo, ou melhor, duas vezes a bola até chegou próxima de Adriano e Borges, mas encontraram antes as cabeças dos zagueiros chilenos. No meio, Hernanes fez, novamente, uma partida pavorosa do meio para a frente, errando passes, chutando mal de fora da área, desperdiçando ataques sem necessidade. Quase toda jogada de ataque passava por seus pés e perdia a seqüência. Adriano sempre muito marcado, com dois zagueiros o tempo todo ao seu lado. Pela direita, Zé Luiz e Eder Luiz até fizeram boas jogadas, mas o peso do jogo estava no meio ou na esquerda.

Muitos torcedores olham a tabela de classificação dos torneios nacionais à procura da colocação do adversário. Não poucas vezes encontram o outro time no meio ou na parte baixa da tabela e se animam, pensando que o jogo será fácil. Nada mais enganoso. Foi assim com o Atlético Nacional e repetia-se a história com o Audax.


Ora, jogo da Libertadores não é diferente e especial só para os times brasileiros, pelo contrário, aliás. A Copa – como é chamada intimamente nos outros países – foi sempre muito mais valorizada pelos outros países que pelo Brasil, onde ganhou importância, de fato, a partir da dupla conquista do São Paulo em 92/93. Em campo, o Audax fez um primeiro tempo mais cauteloso, bem postado na defesa, fechando muito bem a entrada da área, sem fazer faltas. As poucas ameaças vieram de chutes de fora da área.


Bola entrando, empate. (Foto Emerson Gonçalves)


O segundo tempo começou igual, mas pouco a pouco o Audax, consolidado atrás, foi para a frente, até levando algum perigo para Rogério Ceni. Como se diz, nada é tão ruim que não possa ficar pior, bem pior. Com Richarlyson fora de campo, uma rápida jogada feita em seu setor resultou no que já era temido pela torcida: gol do Audax, bonito gol do garoto bom de bola, Villanueva. Ele, que já havia feito duas boas partidas contra o São Paulo em 2007, jogou novamente bem, aproveitando a bobeira na marcação, imperdoável num time tão experiente.

O São Paulo não passou a jogar melhor depois de sofrer o gol, mas redobrou a vontade, um ponto positivo. Antes da saída de bola, Junior entrou no lugar de Richarlyson.

Parte da torcida já xingava Muricy. Parte da torcida já xingava Adriano. E várias vezes já se ouvia o coro “É, Aloísio!”, em clara demonstração da insatisfação com o jogo e, principalmente, com o resultado, ainda mais ameaçador porque o São Paulo, como disse um torcedor próximo, deixou o Audax gostar do jogo. E o audacioso Audax fazia jus ao seu nome em pleno Morumbi. Villanueva marcou aos 18’, Rocco tomou o segundo amarelo e o vermelho aos 24’ e aos 25’ Muricy tirou Fábio Santos e colocou Aloísio. A satisfação da torcida foi manifestada em aplausos. Com quatro atacantes a pressão aumentou e o empate passou a ser, acreditava-se, questão de tempo. Esteve nos pés de Borges, aos 26’, mas a bola passou raspando o travessão. Muitos atacantes, mas sem criação no meio campo, um pecado mortal.

Jorge Wagner cobrou um escanteio curto para Eder Luiz, recebeu de volta e colocou a bola na cabeça de Adriano. Empate. E uma comemoração raivosa de Adriano, perceptível no campo e mais ainda pela televisão. Justa raiva. A cobrança sobre ele da torcida e da imprensa é grande, mas a marcação dos zagueiros é maior ainda. É muita marcação e pouco aproveitamento dos espaços que sua presença cria para outros jogadores, porque o São Paulo perdeu sua chegada na área com as saídas de Souza e Leandro.

Pressão. Com Borges, com Hernanes, que finalmente acertou bom chute, com Aloísio, com Eder Luiz, com Jorge Wagner municiando o pessoal dentro da área. Contudo, o audacioso time chileno não se acovardou, mesmo com dez jogadores. Continuou indo à frente, menos, é claro, mas com algum perigo. Não dava para bobear novamente.

40’ do segundo tempo, Hernanes entra na área pela primeira vez, chuta forte e certo, o goleiro espalma, Adriano toca a bola e entra com ela no gol. Era a virada. E a comemoração agora foi sem raiva, só alegria. Finalmente.



Já no acréscimo, Aloísio fez boa jogada na defesa e limpou uma jogada perigosa do Audax. O velho e estimulante Aloísio, sempre importante, tanto no ataque como na defesa. Pouco depois, Hernanes fez sua terceira boa jogada (a primeira havia sido um chute perigoso), colocando a bola nos pés de Adriano na área, que ajeitou com precisão para Borges chutar mal e perder o terceiro gol.

E assim terminou a noite que foi de Adriano, o Imperador. Primeiro xingado, depois ovacionado, como costuma ser no futebol.

Porque fez dois gols e fez um terceiro pouco percebido: ela "amarelou" os zagueiros e terminou por "avermelhar" Rocco. Foi nesse lance que nasceu, verdadeiramente, a vitória do São Paulo.

3x1 para Adriano, o Imperador.


Um resultado importante para o São Paulo, menos pelos pontos e muito mais pelo espírito e pela determinação. O importante, porém, não mudou: o time ainda não existe e Muricy terá muito trabalho até conseguir que o jogo volte a fluir como nos bons momentos de 2007.


E eu, bem ou mal, reencontrei o velho clima de Libertadores no final do jogo, seguido por um super-sanduba de pernil, saboreado em frente ao Morumbi em noite festiva, como deveriam ser todas as noites no Morumbi.



Vitória histórica

Enquanto isso, em sua volta ao Maracanã pela Libertadores 23 anos depois de seu último jogo, o Fluminense goleou o argentino Arsenal por sonoro 6x0. Resultado histórico, pois foi a maior vitória em diferença de gols de um time brasileiro sobre um argentino.

E assim, pelo menos até hoje, os cinco times brasileiros são líderes em seus grupos.


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5 Comments:

  • At 11:07 AM, Blogger Rod Molina said…

    Fala grande Emerson,

    Em 1°lugar, parabéns pela foto bacana que você tirou. A cabeçada de Adriano foi como manda o figurino de um bom centroavante, para o chão.

    Quanto ao Fluminense, meu caro, há muito que eu não via uma vitória tão expressiva de um time. Uma vitória que é ainda mais marcante, pois tratava-se de uma partida da Copa Santander(o Cal adora!)Libertadores da América. Se você tiver aoportunidade de assistir o tape da partida vai entender o que foi a apresentação do Fluminense.
    Um abraço, Rod.

     
  • At 11:19 AM, Blogger Rod Molina said…

    Fala Emerson,

    Era muito garoto em 77, ainda não acompanhava futebol. Mas o meu interesse pelo velho esporte bretão é tamanho, que conheço todas estas histórias sobre os títulos de São Paulo e Corinthians em 77.

    Assisto futebol desde 1980, e ainda tive a oportunidade de ver muitos destes jogadores do São Paulo que vc citou.
    Me recordo do São Paulo do início da dec. de 80, com W. Peres, a zaga com Oscar e Dario Pereira, o Getúlio, o grande ponta esquerda Zé Sérgio e o polêmico Serginho Chulapa.

    Grande lembrança o Reinaldo. Também concordo que ele poderia alcançar o nível de Romário, não fossem as graves lesões. Ronaldo também foi grande, 3 eleições no FIFA GALA e 2 títulos mundiais não é pouco. Mas particularmente, não acho que Ronaldo tinha a mesma categoria de Romário e Reinaldo. É só uma questão de gosto pessoal, que fique bem claro.

    Quanto ao jogo da Libertadores de 81, com Reinaldo e tudo, mesmo com arbitragem sem polêmica, jamais o Atlético superaria o Flamengo naquele ano. Nem o Atlético e nem ninguém.
    Um abraço, Rod

     
  • At 12:11 PM, Anonymous Anônimo said…

    Big Emerson,

    Dando uma de reporter fotográfico. Fantastico!!!! Parabens!!!!

    Abs

    Pedro Goulart

     
  • At 12:16 PM, Anonymous Anônimo said…

    Fala Emerson!

    Qual a sua opinião sobre a atuação do Éder Luís? Vendo pela tv, achei-o apagado e um tanto quanto nervoso.

    Acho que o Carlos Alberto, mesmo fora de forma, é o jogador que está faltando para que o time consiga essa fluência a que você se refere.Ele sabe penetrar pelo meio, além de saber segurar bem a bola. Com isso, imagino que os "chuveirinhos" diminuam. Espero que ele não corte mais o pé...

    Outro que pode contribuir para isso é o Dagoberto.

    Fora isso, gostei do Zé na lateral. Acho que vai ficar e não sai mais. Falta resolver a questão "Richarlysson". O Junior melhorou a forma física e acredito que poderia ficar de vez (embora não acredite que o Muricy faça isso agora). O Ricky disputaria uma vaga com o Fábio Santos como volante, onde ele rende melhor.

    Abração.

     
  • At 12:40 PM, Blogger Emerson said…

    Valeu, Rod. Pretendia ver o tape do jogo do Flu, mas, sei não, estou o dia inteiro fora, em reuniões.

    Heehehehehehee...

    Acho que o Flamengo 81 era o bicho. Lembro muitíssimo bem, como lembro, também, do jogo contra o Atlético. Agora tudo é história.]



    ;o)

    Obrigado, Pedro. Eu até fotografo muito, mas principalmente as coisas do sítio e pássaros. O lance da cabeçada foi fácil, só deixei no sequencial. hehehe

    E ao amigo "anônimo": estou gostando mais e mais do Eder Luiz. Chego a delirar com ele e Dagoberto no time, mas acho que isso tá na categoria "delírio" mesmo.

    Ando preocupado é com a inconstância do Ricky e do Hernanes. Por mim, os dois voltariam a fazer o meio, com o Junior na esquerda e o JW solto, mas aí depende da forma do Junior e, sobretudo, da forma da zaga. Talvez,quem sabe, com o retorno de Alex Silva...

    O time tem muito a crescer, mas ainda não "encaixou". Leva tempo.

     

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