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terça-feira, setembro 02, 2008

2008 não encaixou


(Aviso aos navegantes: esse é um post sobre o São Paulo F.C.)



2008, o ano que não encaixou



2008, para minha mais profunda infelicidade, é um ano em que nada vem dando certo.

Disse no início desse ano e repeti mais de uma vez que, em minha opinião, o título desse ano, o mais importante, o maior de todos, seria a conquista do TRI-Campeonato legítimo. Em seu nome, não me incomodava nem um pouco de ficar sem o título da Copa Libertadores.

Ao analisar a campanha do time até este momento, seja pelo meu desconhecimento do que é o futebol, seja pela minha visão do que seja administração, vejo que uma idéia que me incomoda há tempo e que expus nesse e em outros espaços, é a cada dia mais verdadeira - e já adianto: não se trata do 'facilitário' ilusório de trocar o treinador: a direção do São Paulo F.C. precisa rever sua política de contratações.


Sobre o ‘facilitário’: estamos acostumados a enxergar no trabalho do treinador a causa maior ou até única de todos os males que afligem uma equipe. É a mesma coisa que confundir a dor de dente com o problema real. Quando isso acontece, tudo que se faz é tomar mais e mais analgésicos para diminuir ou eliminar a dor, que, tão logo termina o efeito do medicamento, retorna com força total. A única e real saída para o fim da dor é através da eliminação de sua causa, ou seja, atacando o real problema, que é uma cárie ou um canal alterado.


Em muitos clubes, mas sobretudo no São Paulo, principalmente no São Paulo, e acima de tudo nesse presente momento, Muricy Ramalho não é causa, não é problema, não é o foco infeccioso a ser eliminado. A péssima temporada da equipe (embora uma quartas-de-final não possa ser considerada péssima) tem sua causa nas opções de contratação feitas pela diretoria. Tem sua razão de ser na política de contratações dessa direção, à frente do clube desde 2002, com absoluto sucesso, inegavelmente, nos mais diversos aspectos: esportivo, financeiro, estrutural, mercadológico. Por onde quer que se olhe, o trabalho da direção do São Paulo, primeiro com Marcelo Portugal Gouvêa e agora com Juvenal Juvêncio, é um grande sucesso.

No plano esportivo, porém, a linha de trabalho que permitiu ao clube manter-se à frente dos demais no decorrer desses anos, parece ter-se esgotado. Precisa ser revisada com urgência. Novos parâmetros precisam ser adotados, com o inevitável acompanhamento de uma maior dose de risco.


No jogo do último domingo, 31 de agosto, contra o Santos, o São Paulo foi um time patético, simplesmente. Ressentiu-se terrivelmente da ausência de Hugo, como vem sentindo a ausência de Souza durante toda a temporada. Faltou ao time um organizador, um condutor, um jogador capacitado a receber a bola no meio, segurá-la o bastante para olhar e pensar e distribuí-la. Ao mesmo tempo, no Maracanã e em Curitiba, pelo menos dois jogadores indicados pelo treinador jogavam muito: Conca e Diego Souza. Ambos estiveram próximos do São Paulo, ambos não vieram porque a direção não mudou sua política de contratações.


Trazer Conca implicaria num salário elevado, considerado perigoso e de alto risco pelo clube, principalmente por afetar, potencialmente, a relação dos demais jogadores com o clube.


Trazer Diego Souza implicaria num dispêndio elevado de dinheiro, embora com perspectivas mais do que razoáveis de retorno futuro.


Além desses dois citados, outros jogadores abriram conversações com o São Paulo, sem sucesso. Souza, além de meia, tornou-se excelente ala, eleito o melhor de 2006, outra posição carente. Joilson, o melhor de 2007, simplesmente não vingou. Como disse Muricy, ele sentiu o peso do São Paulo, não da camisa ou do clube, mas sim das expectativas transformadas em certezas, seguidas por uma cobrança fortíssima por resultados imediatos. Na esquerda o elenco não tem um lateral ou ala que jogue tão bem como jogou Junior em 2005 e também em 2006, embora já menos.


Cobram Muricy pelo lançamento de jogadores da base, chegando-se ao cúmulo de dizer que ele não gosta de trabalhar com jovens vindos das bases dos clubes em que trabalha, esquecendo-se esses críticos, ou desconhecendo, o número de excelentes jogadores que ele lançou e sustentou nos times principais, como Daniel Carvalho, Nilmar, Breno, para não alongar a lista, que tem, também, Denílson, o atacante. Ora, se ele não lança é porque não acredita que tenha chegado a hora das jovens promessas entrarem no time.


Outra coisa que muitos ignoram ou confortavelmente esquecem para não estragar as críticas, é que o São Paulo funciona em forma parecida à de um colegiado. Existe uma Comissão Técnica que discute, analisa e propõe desde as contratações até o aproveitamento de jogadores, tudo isso em conjunto com a direção. A palavra final, naturalmente, é do treinador, mas quando ele a profere está embasado pelo trabalho e visão de vários outros profissionais.


Poderia prosseguir nessa lenga-lenga por mais tempo, mas não é necessário, creio que transmiti minha idéia básica: antes de culpar ao treinador, voltem seus olhos para a direção, não no sentido da crítica como é feita a Muricy Ramalho – exagerada, ofensiva, dramática e radical – mas, sim, no sentido de críticas construtivas, apontando caminhos alternativos para serem analisados, quiçá praticados. Não podemos perder de vista que o histórico dessa direção é vencedor no mais alto grau.


O São Paulo hoje tem cacife, tem condições para, sem auxílio de parceiros e ‘parceiros’, trazer jogadores com um certo risco, é bem verdade, mas plenamente capacitados a somarem e recolocarem o time no rumo de novos títulos. Cabe à direção repensar sua política de trabalho e passar a entregar a Muricy Ramalho um mínimo de jogadores que dêem equilíbrio e qualidade ao time.


2008 foi o ano do desencaixe e dos não-encaixes. Um ano perdido, lamentavelmente. Nessa reta final de campeonato, até mesmo a simples classificação para a Copa Libertadores 2009 parece ameaçada. O que mais dói ao torcedor são-paulino e, creio, ao seu treinador, é ver o sucesso de equipes com jogadores que ele mesmo pediu ou indicou, ou com jogadores similares. Todos dando boas condições aos seus clubes de se tornarem vencedores, além de, em alguns casos, jogar bonito.


2008 não encaixou.


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3 Comments:

  • At 8:29 AM, Blogger Luciano said…

    Pois é, Emerson.
    O Muricy, assim como a diretoria, jogadores, e até a torcida, tem sua parcela de culpa. Mas sem dúvida nenhuma, se hoje o grande motivo apontado pela torcida pelo time não jogar bem (consequentemente, não ganhar) é a falta do tão sonhado MEIA, nisso eu o eximo de culpa. No início do ano, é público e notório, Muricy indicou esses 2 jogadores a diretoria, não sendo atendido. Recebeu vários jogadores, alguns indicados por ele, outros por membros da diretoria tricolor. O Adriano, por exemplo, todos sabem pra que foi contratado: Marketing. Nisso, ele foi um sucesso! Trouxe visibilidade e $$$ ao SPFC. Quantos as demais contratações, não há como prevê que bons jogadores destaques em outras equipes, como o Juninho e o Joilson, p.e., sintam o "peso" do SPFC. Se hoje o time é acéfalo (palavra da moda na imprensa ao se referir ao meio do SPFC) a culpa é EXCLUSIVA da diretoria sãopaulino.

     
  • At 5:39 PM, Anonymous Anônimo said…

    Emerson, quando disseste Diego Carvalho, acredito que estava se referindo ao Daniel Carvalho, não? Outro guri que ele bancou contra tudo e contra todos foi o Rafael Sóbis, pois ele era odiado pela torcida do Inter e acabou como ídolo Colorado. Gabriel-PoA

     
  • At 7:39 PM, Blogger Emerson said…

    Correção feita, Gabriel, obrigado.
    E valeu a lembrança do Sóbis, tinha esquecido dele.


    Luciano, como faz falta esse meia, hein?

    :o)

    E não foi por falta de pedidos ou indicações.

    D'Alessandro também foi um nome muito ventilado e igualmente deu em nada, mas não para o Internacional.

     

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