Um Olhar Crônico Esportivo

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terça-feira, agosto 19, 2008

Receitas européias, salários tupiniquins


Na semana passada, em Tel Aviv, José María del Nido, presidente do Sevilla, acompanhado por dois de seus diretores, assinou a renovação do contrato de patrocínio do clube com a 888.com por três temporadas, até 2011. A multinacional israelense, cuja principal atividade é a realização de jogos de pôquer e apostas diversas, inclusive futebol, é chamada por torcedores sevillanos de ‘cassino on line’ e patrocina o time desde a temporada 2006/2007.

Foi um patrocínio comemorado efusivamente pelo campeão da Copa da UEFA e, teoricamente, terceiro melhor time da Espanha, dona de uma das ‘ligas’ mais importantes e rentáveis do mundo, ao lado da inglesa, alemã e italiana. Embora os valores não tenham sido revelados oficialmente, fontes diversas asseguram que ele é de 4 a 5 milhões de euros, perdendo apenas para os 6 milhões de patrocínio do Valencia e os 15 milhões de euros que a Bwin, outro cassino on line, paga ao Real Madrid por temporada.

Vejam, agora, essa tabela abaixo:

Clube

Patrocinador

Valor M Euros

Valor M Reais

Real Madrid

Bwin

15

36,3

Sevilla

888.com

4 a 5

9,7 a 12

Valencia

6

14,5

Corinthians

Medial

6,8

16,5

Flamengo

Petrobras

6,7

16,2

São Paulo

LG

6,6

16

Palmeiras

Fiat

3,5

8,5

Os três maiores patrocínios brasileiros são superiores a dois dos três maiores patrocínios espanhóis – lembrando que o Barcelona não aceita patrocínio. Nesse momento, os bastidores do Morumbi abrigam as negociações envolvendo o patrocínio do São Paulo para 2009. Julio Casares, diretor de marketing, disse esperar pelo menos 32 milhões de reais, nada menos que pouco mais de 13 milhões de euros, um valor, se concretizado, pouca coisa inferior ao do Real Madrid. Este Olhar Crônico Esportivo, desde setembro de 2007, acredita em um número mais próximo dos 25 milhões de reais – pouco mais de 10 milhões de euros, mas diante das movimentações do mercado tampouco desacredita de um número mais próximo do valor desejado por Casares, digamos, 30 milhões de reais, ou pouco mais de um milhão de euros mensais para estampar o nome na camisa do São Paulo. Com a má campanha do time no Brasileiro, o mais provável é que o novo contrato, com a LG ou outra empresa, seja fechado mais perto do final do ano, quando ficar claro que o São Paulo, ao menos, terá vaga assegurada na próxima Libertadores.

O novo patrocínio tricolor vai agitar bastante o mercado e sinalizará novos valores para Flamengo e Corinthians, como já aconteceu com a renovação da Reebok.

Dessa forma, os três clubes com maiores torcidas no país passarão a ter patrocínios de camisa com valores próximos ou não muito distantes do que é pago ao Real Madrid.

E daí, deve estar se perguntando você, o que isso significa trocando em miúdos?

Eis uma boa questão.

Para que um patrocinador paga para pôr seu nome na camisa de um clube?

Para mostrar sua marca ou seu produto para milhões de torcedores daquele time e de outros.

Por que uma empresa pagaria tanto dinheiro por isso?

Porque esses clubes oferecem boa visibilidade e, geralmente, disputam títulos ou fazem boas campanhas, o que aumenta ainda mais sua visibilidade.

Por que isso acontece?

Porque, de maneira geral, são clubes que montam boas equipes, contratam bons jogadores e...

Epaaaaaaaaaaaa!

Você pirou? Releia o que você escreveu, Senhor Blogueiro!

Hummmmmmmmm...

É, prezado leitor, você está certo em estrilar, acho que dei ‘uma viajada’ nessa.

“...montam boas equipes, contratam bons jogadores..”

Nada disso, ou muito pouco, vemos nesses times e em outros mais, na verdade, em todos os outros.

Sistematicamente, janela após janela, os clubes perdem seus melhores e mais promissores jogadores. São desmontados e precisam ser remontados no decorrer das competições. Os atletas vão embora atraídos por salários e luvas muito acima do que podem sonhar receber no Brasil. Muita gente reclama, muitas das reclamações são dirigidas, velho hábito tupiniquim, ao governo, que deveria, no entender desses críticos, baixar uma lei proibindo a saída de jogadores e coisas parecidas, medievais, injustas, ultrapassadas, em rota de colisão fatal com a postura de liberdade nas relações de trabalho que vigoram na maior parte do mundo. Lei que nada resolveria, evidentemente, pois não há lei capaz de separar um homem da busca de maior salário e melhor trabalho.

Ué, se os caras vão embora por causa do dinheiro...

Não só o dinheiro, não só.

... tá certo, não só o dinheiro, mas principalmente o dinheiro, né? Por que, então, os clubes não pagam salários maiores e seguram todos os jogadores aqui mesmo? Por que os clubes não mantêm boas equipes, ganhando mais jogos, jogando mais bonito, atraindo mais públicos, novos públicos, ganhando, assim, mais dinheiro, num círculo virtuoso?

Eis uma boa pergunta com respostas diversas, a maioria das quais, infelizmente, só sabemos depois de muito tempo. A primeira e maior resposta, sem a menor dúvida, chama-se descalabro administrativo. É o que provocou, sendo generoso e não apontando os dedos para ninguém, as grandes dívidas dos clubes brasileiros. Puro descalabro administrativo, acompanhado por gestões fraudulentas, em alguns casos, talvez em todos.

Nossos clubes reclamam da falta permanente, eterna, de dinheiro.

Os balanços são de chorar, mesmo o melhor deles, o do São Paulo.

Por sinal, talvez seja justamente o do São Paulo o que mais dá um certo desânimo, pois se com os números que o clube apresenta ainda é obrigado a vender jogadores para fechar as contas, é sinal que a coisa é feia.

Em meio a esse quadro descobre-se que nossos patrocínios de camisa estão longe de ser ruins, pelo contrário, até.

O crescimento, enfim, da economia brasileira, a estabilidade cambial, a valorização do real, o aumento na massa de consumidores, traduzido pelo crescimento do que se convencionou chamar de classe média, tudo isso combinou para dar uma nova cara ao mercado, e que estará se consolidando em 2009, ano em que os direitos de TV entram de uma vez por todas na ‘maioridade’, com números de 1º Mundo, associados, em alguns clubes, a grandes valores de patrocínio.

Em tese, o melhor dos mundos. Todavia, alguém acredita que deixaremos de perder jogadores para Grécia, Turquia, Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Oriente Médio?

Um novo Diogo trocará a Portuguesa pelo Corinthians, Flamengo, São Paulo, Palmeiras ou Grêmio ou Internacional? Ou um novo Diogo também irá para a Grécia?

Por que ainda não conseguimos segurar nossos jogadores com salários de respeito, em padrão europeu? Já temos receitas européias, mas continuamos pagando salários tupiniquins.

Deixo aberta a conclusão, mas, de bate-pronto, enxergo duas áreas em que somos pequenos, somos 3º Mundo: rendas de jogos e licenciamento. Ou, como se pretende dizer no moderno português de Pindorama, matchday e licensing.

Receita de jogo ainda é bilheteria, como os velhos e pequenos circos que iam de cidade em cidade faturando uns trocados para sobreviver.

Licensing ainda é algo que é burlado pelo mercado informal de forma rápida e criativa.

Segue em outro bat-post nesse mesmo bat-blog em algum outro bat-dia, digo, bat-day.

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7 Comments:

  • At 12:12 AM, Anonymous Anônimo said…

    P*, Emerson, você começa a mostrar o doce e depois esconde?

    O Palmeiras tem mais um patrocinador que acho que é uma empresa de tintas, dá um valor maior qeu esse um que vc escreveu.

    Adalberto

    o povo aqui tá mandando lembranças.

     
  • At 12:21 AM, Blogger Emerson said…

    Fala, Beto!

    Putz, hoje eu não durmo... hehhee

    Tô com saudades do pessoal, manda um abraço pra todos.

    A Suvinil patrocina o Palmeiras, mas é um patrocínio secundário, acho que paga 4 milhões por ano (1,5 milhão de euros).
    Outros times também têm esse tipo de patrocínio, mas é difícil levantar dados confiáveis e, de qualquer forma, o importante, mesmo, é o principal na camisa.

    ABração.

     
  • At 12:23 AM, Blogger RODRIGO MOLINA said…

    Fala, Emerson!!!

    Ando meio sumido dos blogs que costumo freqüentar, como o OCE, o JA, o Mensagem na Garrafa, o do Ronaldo Derly, o Pedro Costa, o Vou de Kombi e outros poucos mais...
    Mas tenho lido todos os amigos. Problemas profissionais me têm tomado a cabeça de uma tal forma que me falta inspiração para escrever comentários.

    Mais uma vez, encontro um excelente post aqui no OCE.

    E não precisa nem "apontar o dedo" que eu, como um rubro-negro lúcido que sou, já vesti a carapuça. "Descalabro administrativo" é uma expressão que combina perfeitamente com Flamengo.

    Ontem mesmo, foram penhoradas todas as nossas receitas, sejam de bilheterias ou direitos de TV, e mais o CT do Ninho do Urubu. Tudo para garantir um pagamento de uma dívida que hoje gira em torno de 50milhões de reais. Esta dívida é resultado de um adiantamento que uma empresa fez ao CRF de 6 milhões de dólares em 1995, destinados à contratação do Edmundo. Seria esta empresa que construiria o shopping na sede da Gávea que foi embargado pelo Governo do Estado.

    Assim, meu caro, não há patrocínio vultoso nem grana alta da TV que dê jeito...Chego até a achar engraçado quando você diz que o balanço do SPFC é de chorar... Eu é que lhe digo, meu caro, não chore de barriga cheia...Veja a nossa situação aqui... Adivinhe quem era o presidente do clube em 1995? Quem? Quem? Quem? Ele mesmo, Kleber Leite 666.

    Você, que é um estudioso do marketing esportivo, sabe que o Flamengo, como fenômeno espontâneo de massa, se fosse bem administrado, seria uma máquina de fazer dinheiro inigualável! Mas o problema não é só má administração não, Emerson...É picaretagem mesmo. E o pior, no caso específico do Flamengo, é que não surgi um nome novo para dirigir o clube. É a mesma curriola há mais de 30 anos, desde que eu me entendo como torcedor...Entra um e sai outro...Na única vez que surgiu um nome diferente, o Edmundo Santos Silva, deu no que deu. Agora, fala-se na Patrícia Amorim como candidata a presidente do CRF. Ela é ex-atleta do Flamengo, vereadora aqui no Rio, e vice-presidente de esportes olímpicos do clube. Vejo com bons olhos, mas duvido que ela se crie no meio dessas cobras.

     
  • At 12:28 AM, Blogger RODRIGO MOLINA said…

    No mais, é bastante curioso saber desses dados, que os nossos patrocínios, pelo menos os dos clubes de maior torcida, batem mais ou menos com os números dos patrocínios de clubes importantes no cenário europeu. Muito curioso...Novidade pra mim.

    abraço.

     
  • At 8:38 AM, Blogger Emerson said…

    Péssimo começo de dia, Rod.
    Essa notícia é um chute no...
    Bom, é um chute.

    Eu tenho firme convicção que quanto mais o Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, Internacional e outros grandes clubes se derem bem, melhor ficará o São Paulo, pois melhor ficará o todo.

    Dentro de campo, como todo torcedor, quero mais é que todos percam... hehehehe...

    Acredito que parte da felicidade de uma pessoa é promovida pela felicidade dos que a rodeiam.
    Não dá pra ser feliz sozinho (isso dá música... hehehe).

    Essa é parte da minha visão sobre o nosso futebol. Por isso, acompanho com interesse tudo que acontece com o Flamengo no extra-campo. Torço por um bom acerto com a Nike, ou com a Olympikus, tanto faz, pois esse acerto vai refletir-se no SP, assim como no SCCP e nos outros clubes. E vice-versa.

    Por isso, torço pelo Roberto no Vasco.

    E cada vez mais aumenta minha bronca contra os elementos que provocaram esses rombos monstruosos em um monte de clubes.

    Cada vez mais aumenta minha certeza que a grande doença, o grande mal do esporte brasileiro, está nos bastidores, nas salas refrigeradas dos presidentes, diretores e conselhos.

    CRF e SCCP são duas máquinas de fazer dinheiro, todo mundo sabe disso.

    Ah...

    Putz...

    Taí... Todo mundo sabe disso.
    Principalmente quem jamais deveria saber disso.

    :o(


    Quanto à Patrícia, acho interessante. É nova, é nova no 'pedaço', se é política é porque aprendeu a negociar (isso é importante), mas precisa ter muito pulso. Pulso de halterofilista peso-pesado.

    Quanto a essa notícia da dívida, não se preocupe com o curto prazo. Um acordo será feito, mas ela continuará assombrando e sugando os recursos do clube pelos próximos anos.

    Do clube, jamais dos que a criaram e são responsáveis por ela.

     
  • At 8:40 AM, Blogger Emerson said…

    Quanto aos patrocínios:

    Hehehehehehehehehehehe...

    Eu também fiquei surpreso quando comecei a 'descobrir' isso.
    Muito surpreso.

    :o)

    Pena que essa surpresa faça-me recordar a existência desses seres tenebrosos chamados 'cartolas'.

    :o(

     
  • At 10:41 AM, Anonymous Julio said…

    o balanço do sp mostra que o clube tem controle da situaçao financeira, o que é louvavel para um clubes do Brasil, não tenho um conhecimento profundo sobre os gastos do spfc, mais acredito que grande parte da receita do clube é investido no CT Cutia, por isso o clube todo ano tem que estar contado as moedas antes de qualquer contrataçao mirabolante como alguns clubes fazem. o CT de Cutia acredito que tenha um alto custo pra manter aquilo, entao todo ano tem que dar bons fruto senao é melhor investir no time a curto prazo, afinal os patrocionios chegam perto dos europeus.

     

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