Um Olhar Crônico Esportivo

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quarta-feira, novembro 28, 2007

Ouvindo Ferran Soriano – Parte III - Salários


Um dos muitos pontos interessantes da palestra de Ferran disse respeito a um dos pontos nevrálgicos do futebol de hoje, talvez o mais sensível de todos: salários.

Inegavelmente, os salários dos futebolistas de alto nível atingiram valores estratosféricos, que escapam à compreensão dos mortais comuns. Não só dos jogadores de futebol, é bom que se diga, mas de todos os esportistas de alto nível, inclusive atletas olímpicos.

Lembro-me com clareza do assombro que foi tomar conhecimento dos valores envolvidos em lutas de Cassius Clay, depois Mohamed Alli. Mais adiante, vieram os valores astronômicos – para a época – pagos a Mike Tyson, quantias na ordem de vinte e cinco, trinta milhões de dólares por uma simples luta.

A bem da verdade, melhor dizer uma “simples” luta. Realmente, nunca consegui imaginar-me perante Tyson, creio que nem para um aperto de mão, quanto mais para lutar contra ele.

Valores assombrosos, teoricamente pagos a um negro americano pobre, nascido e criado num verdadeiro gueto, o oposto de um grande empresário branco, nascido em berço de ouro e geneticamente acostumado a lidar com valores até superiores a esses. Realmente, alguma coisa estava mudando, parte do grande dinheiro que circula pelo mundo começava a mudar das mãos que sempre foram exclusivas em sua posse.

Por trás desses valores, naturalmente, estava a televisão e a transformação do esporte em entretenimento de massa. Dois boxeadores deixavam de lutar para quinhentas pessoas num ginásio de periferia, e passavam a lutar numa arena com milhares de aficionados, pagando valores altíssimos pelo prazer – a meu ver muito estranho – de ver dois pesos-pesados trocando murros, tudo isso levado ao ar para cinqüenta, cem milhões de pessoas ao redor do mundo.

O futebol não demorou nada a entrar nessa nova órbita do esporte, assim como o tênis, a Formula 1 e os esportes americanos de massa: baseball, futebol americano, hóquei sobre o gelo e, sobretudo, o basquete da NBA.

Milionários nasceram do dia para a noite e toda uma nova cultura nasceu e começou a desenvolver-se em torno desses novos astros e – por que não? – seus ganhos astronômicos.

Ainda ontem, no jogo Lyon x Barcelona, válido pela UEFA Champions League, o melhor jogador em campo foi Bojan, um garoto de 17 anos de idade. Não imagino seu salário, mas lembro das palavras de Ferran mostrando seu espanto, admiração, indignação e preocupação, ao falar de garotos com 15 – isso mesmo, quinze – anos de idade e já ganhando um milhão de euros por ano.
Repito: um milhão de euros por ano.
Como ele mesmo disse, de que forma pode um pai exercer autoridade sobre esse jovem? Ou um professor, que, com muita sorte e competência, precisará trabalhar uns 20 anos ao menos para ganhar esse valor? Claro, refiro-me a um professor europeu, ganhando em euros, naturalmente. Um professor brasileiro não ganhará isso a menos que trabalhe por volta de 125 anos. Se pensarmos, porém, numa professora primária trabalhando no interior de um estado nordestino, ela precisará de uns 400 anos de trabalho para acumular a mesma quantia que o menino de 15 anos acumula em um simples ano de sua jovem vida. Pior ainda: se ele corresponder ao milhão em seu primeiro ano, o mais provável é que já ganhe mais que isso no segundo ano, digamos, com 16 anos de idade. Por aí vai...

São números escandalosos?

Com certeza são.

Então, de quem é a culpa?

Não se trata, a meu ver, de culpas e sim de méritos reconhecidos ou não.

A sociedade de consumo de massa reconhece seus ícones através do dinheiro. A sociedade e o estado brasileiro, e de todos os países subdesenvolvidos ou não desenvolvidos, nada reconhecem em seus professores, e até por isso não deixam de ser o que são: pobres e atrasados.

Voltando ao mundo da bola, um jogador que faça parte do grupo de profissionais de um time de ponta europeu, não ganha menos de um milhão de euros por ano. Esse valor é uma “bandeirada”, pode-se dizer, e é pago àqueles que jogam bem o bastante para fazer parte do grupo, mas são ainda muito novos e não serão astros de primeira grandeza. As grandes estrelas ganham por volta de dez milhões de euros por ano. Esse valor, porém, é o que é pago pelo clube. Uma estrela de primeira grandeza no futebol europeu, ganha outros vinte milhões de euros por ano graças aos contratos publicitários. Ou seja, temos aí nada menos que 30 milhões de euros/ano, a bagatela de setenta e cinco milhões de reais por ano. A megassena, por exemplo, nunca pagou valor tão elevado num sorteio.

Esses mesmos valores, por sinal, determinam um ponto importante, segundo Ferran: hoje, é quase inviável a transferência de uma grande estrela entre clubes, não pelos valores que um clube possa pagar, pois nesse ponto os grandes europeus mais ou menos se equivalem, mas sim porque a estrela precisa pensar com cuidado em seus ganhos publicitários. Sem dúvida são ganhos obtidos por serem estrelas globais, mas a maior parte deles está ligada ao próprio país em que atua e aos demais países grandes da Europa Ocidental. Uma transferência mal feita pode provocar uma queda sensível na popularidade e nos ganhos a ela associados.

Para o G 14, a poderosa associação dos 18 maiores clubes da Europa, a conta “salários” deve consumir entre 55 e 70% das receitas de um clube. Ficar dentro desse parâmetro equivale a dizer que o clube está saudável financeiramente, e ao mesmo tempo bem armado em campo. No momento, o Barça gasta 54% de suas receitas, num exemplo de vigorosa saúde financeira, sem perder qualidade ou competitividade em campo. Apenas para se ter uma idéia, o gasto anual do Barça, tomando essa temporada como parâmetro, é de
170 milhões de euros
, equivalentes a 430 milhões de reais.
Em termos comparativos, o clube brasileiro com maior receita em 2006 foi o São Paulo, com 123 milhões de reais (transferências incluídas). A massa salarial do FC Barcelona, portanto, sozinha, equivale a três vezes e meia toda a receita do São Paulo.

Os salários cresceram espetacularmente nos últimos 5 anos, disse Ferran, mas agora estabilizaram, aparentemente. Que bom!

Hoje, controlar custos é uma necessidade vital, sem, ao mesmo tempo, perder competitividade. Isso está levando os grandes clubes europeus a dar maior valor e importância à formação própria de jogadores – o Barça tem em Messi seu melhor exemplo, agora seguido por Bojan e Giovani. Essa formação própria inclui garotos trazidos de fora da Europa ainda muito novos, como os já citados Messi e Giovani, o primeiro argentino, e o segundo mexicano, filho de Zizinho, jogador formado na base do São Paulo e negociado, com meros 18 anos, com o Azteca do México, por indicação de Cláudio Coutinho, ainda. Na época, foi uma transação gigantesca – pela idade do jogador – que passou despercebida pela imprensa.
O valor? Meros quinhentos mil dólares.

Cada vez mais teremos Madrid, Barcelona, Manchester, Milan e outros, investindo e investigando por aqui, à caça de potenciais valores. Isso vai dar-se também, inclusive, através da criação de clubes-filiais, como o que o Barça está negociando na Argentina e, possivelmente, em breve no Brasil.

O pano de fundo para tão intensa disputa é a previsão descrita por Ferran que o mundo comportará apenas 5 a 7 grandes marcas globais. Nenhum dos atuais grandes quer ficar fora dessa pequena elite.

Lulinha renova

Finalmente, antes tarde do que nunca, a diretoria corintiana renovou o contrato de Lulinha em bases mais razoáveis. O garoto, com 17 anos, tem novo contrato até 2012, com multa rescisória de 50 milhões de dólares, e é detentor de 25% de seus direitos econômicos.

Lulinha ganhava três mil reais por mês e, obviamente, terá esse valor multiplicado, mas ninguém pronunciou-se a respeito. Pelos números envolvidos, entretanto, pode-se inferir que seu novo salário estará por entre sessenta e oitenta mil reais mensais no primeiro ano de contrato, pelo menos.

Foi uma medida inteligente da nova direção alvinegra. Se nada fosse feito, o jogador cumpriria seu contrato até o final, em dezembro do próximo ano, e sairia do clube sem custo algum de transferência. Com o novo contrato, ganham todas as partes envolvidas, principalmente o clube, que poderá fazer bom dinheiro com seu jogador a qualquer momento a partir de agora. O jogador e sua família, por outro lado, ficam mais tranqüilos e já começam a auferir, de verdade, os ganhos proporcionados pela habilidade do garoto no jogo da bola.


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1 Comments:

  • At 9:46 PM, Anonymous Anônimo said…

    Emerson, obrigado pelo post e quem me dera se tivessemos possibilidade de fazer isso no Brasil. Os dirigentes aqui não pensam no conforto e na segurançã dos seus torcedores. Adoraria frequentar estadios mas da maneira que é não da para pensar nisso.

    Um abraço,

    Joao Luiz Hollanda

     

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