Um Olhar Crônico Esportivo

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terça-feira, novembro 20, 2007

Vaias? Provavelmente...

Amanhã a Seleção Brasileira jogará em São Paulo, coisa que não acontece há vários anos. Esse é um time que, hoje, joga apenas para consumo externo, do Casaquistão à Cochinchina, passando pelo Circuito Elizabeth Arden (Paris, Roma, Londres). Mais que possível, é bem provável que os jogadores ouçam vaias clamorosas, as mesmas que começavam a pipocar no Maracanã, quando Kaká marcou um gol. Depois disso, os equatorianos abriram a defesa, perderam a consistência tática que possuíam e o jogo virou festa, consagrando Robinho, tanto dentro como fora de campo, o que só se veio a saber nos dias seguintes. O jogo contra o Equador é lembrado pelos vinte minutos finais e no resto foi parecido com outros jogos da seleção treinada por Dunga, como o jogo de domingo, contra o Peru. Por motivos diversos, o time brasileiro não vem jogando bem (na minha opinião desde 1982...), não se encontra em campo, não apresenta boa consistência tática e, sobretudo, não se impõe diante de adversários em que o domínio do jogo e a fácil vitória seriam absolutamente normais. Falam em falta de motivação (bobagem, todo jogador quer ganhar tudo, até jogo de palitinho) e mais isso e aquilo. Creio que esse time joga para o gasto, joga num ritmo menos desgastante e menos competitivo que os demais, a começar pela Argentina – que tem muitos motivos para entrar mordendo em todos os jogos. Portanto, amanhã à noite não espero um time muito diferente do que já se viu até agora nessa Classificatória para 2010.

O Uruguai não é o Equador, longe, muito longe disso. E Brasil x Uruguai é um clássico sul-americano e mundial – nada menos que sete Copas do Mundo estarão em campo, quase o mesmo total de Copas que tem toda a Europa. Não é pouca coisa. Embora novo e em processo de formação, o time uruguaio pode ser perigoso na frente e sólido atrás. O capitão do selecionado, Diego Lugano, estará de volta ao seu grande palco, o Morumbi. Do outro lado, quase o mesmo ocorrerá com Kaká, que tem no San Siro seu maior palco, já que foi escorraçado do Morumbi muito cedo.

A platéia estará atenta e impaciente. Uma boa parte da torcida verá em campo seu ídolo Lugano, não com a camisa do clube do coração, mas de uma seleção de outro país. No time nacional estarão em campo jogadores que não agradam aos torcedores, enquanto outros, preferidos por muitos, sequer convocados estão. A menos que o time brasileiro jogue bem e bonito desde o começo, as vaias não tardarão e poderão ser cruéis. Provavelmente darão o ar de sua falta de graça ainda no primeiro tempo. O público paulistano tem um longo histórico de queixas e desavenças com a seleção nacional. Nas Eliminatórias para 2002, o time treinado por Emerson Leão, técnico paulista, presenciou milhares de pequenas bandeiras brasileiras serem atiradas do alto das arquibancadas para o campo, ao som de estrepitosa vaia. Não é impossível que tal cena se repita, mesmo porque as bandeirinhas serão, uma vez mais, distribuídas na entrada dos torcedores.

Estarei ausente da arquibancada, presente no conforto do sofá.

Mas... Há muitos anos, trinta, para ser mais exato, no longínquo 1977, fui ao Morumbi com mais de cem mil outros torcedores. O objetivo de quase todos era um só: torcer pela seleção de São Paulo e vaiar a seleção do Brasil.

Os dois objetivos foram atingidos com perfeição. O jogo terminou em 1x1, a vaia foi monstruosa o tempo todo, praticamente, mudanças foram feitas na seleção brasileira em boa parte como decorrência dessa partida e a CBF fez desse o último jogo de uma seleção brasileira contra uma seleção estadual.

A velha tradição foi sepultada e não deve ter deixado saudades na confederação, pelo contrário.

Como será amanhã?

Confesso-me curioso.


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6 Comments:

  • At 1:11 PM, Anonymous GIGI said…

    Oi Emerson.
    Sobre a seleção atual, passo.
    Mas como sou "espaçosa", vou colar aqui uma matéria que tem a ver com seu artigo:
    Ano de 1972. A Seleção Brasileira, consagrada tri-campeã mundial no México, dois anos antes, havia convocado todos os jogadores da gloriosa campanha de 1970, para disputar o Torneio do Sesquicentenário da Independência, menos um: o lateral-esquerdo Everaldo, do Grêmio. Único gaúcho atuando no Rio Grande do Sul convocado para a Copa do Mundo de 1970, Everaldo ganhou uma estrela em sua homenagem na bandeira do Grêmio e virou um herói para todas as torcidas dos pampas. Mas Zagallo não pensava assim, e por seu critério, excluiu-o do time de 1972.

    A exclusão não foi aceita e os gaúchos queriam satisfações. Apesar dos protestos, a convocação de Everaldo não ocorreu. Como tira-teima, foi marcado para o dia 17 de junho de 1972 um amistoso, entre a Seleção Brasileira e a Seleção Gaúcha, a ser disputado no Estádio Beira-Rio, de Porto Alegre. No dia do jogo, 106.544 pessoas lotavam o estádio do Internacional, em seu maior público de todos os tempos e na maior lotação já feita num jogo em solo gaúcho. E, na entrada em campo, a Seleção Brasileira sofreu a maior vaia de sua história jogando em solo nacional. Sim, pois naquele dia, o pensamento mais provável que se passava na cabeça dos gaúchos diante do time do Brasil era "mata, que é brasileiro".

    O Rio Grande do Sul esteve representado por um combinado da dupla Grenal, que contava com craques de outras nacionalidades. O time gaúcho daquele dia foi: Schneider (Internacional); Espinosa (Grêmio), Figueroa (I), Ancheta (G), Everaldo (G); Carbone (I), Tovar (I), Torino (G); Valdomiro (I), Claudiomiro (I) e Loivo (G). Já o Brasil, entrou com seu poderosíssimo time: Leão (Palmeiras); Zé Maria (Corinthians), Brito (Botafogo), Vantuir (Atlético Mineiro), Marco Antônio (Fluminense); Piazza (Cruzeiro), Clodoaldo (Santos), Jairzinho (Botafogo), Leivinha (Palmeiras); Rivellino (Corinthians) e Paulo César Caju (Flamengo).

    Favorito, o Brasil estava invicto há 30 jogos, desde antes da Copa do Mundo de 1970, e ao que tudo indicava, não teria dificuldades contra o combinado rio-grandense. Não foi o que ocorreu. O jogo esteve sensacional desde o primeiro minuto, com ânimos acirrados, torcida fanática e motivações diversas em campo. O espetacular confronto acabaria em 3x3 (o Rio Grande do Sul chegou a estar vencendo por 3x2), e com o "orgulho farroupilha" reestabelecido. O time gaúcho não decepcionou sua torcida e lutou bravamente contra o então melhor time do mundo. Os torcedores presentes no Beira-Rio também mostraram seu espírito: ao fazer seu gol, Jairzinho bateu no peito e proclamou às rádios "aqui é Brasil" - a resposta, vinda das arquibancadas foi "aqui é Rio Grande". E o dia mágico de futebol terminou com Everaldo sendo vingado, embora não tenha sido convocado.
    Abs.

     
  • At 2:33 PM, Anonymous Lita said…

    Emerson, uma curiosidade:

    A renda do jogo de hj pertence a quem? Aproveito o espaço para me referir tbém à renda do jogo no Maracanã.Aliás, a CBF arca com quais despesas exatamente em jogos da seleção? (sejam eles amistosos ou oficiais)

    abs

    Lita

     
  • At 3:01 PM, Blogger Emerson said…

    hehehehehehe Parte I

    Gigi, eu lembro desse episódio. Vagamente, mas lembro do tititi.

    Só acho que, ao que se comenta, a maior vaia foi nesse jogo do Morumbi. Há tempos estou pensando em escrever a história desse jogo, mas nunca tenho tempo para ir ao arquivo do Estadão refrescar a memória.

    Ah, se o NYT cobrisse o futebol brasileiro! Tá tudo na net, desde o número 1 no começo do século XIX.

    Eu gostava do Everaldo.


    hehehehehehehe... Parte II

    Lita, estou certo que você conhece a resposta, mas...

    Pense bem: tem dinheiro grosso em jogo, certo? A renda vai chegar aos 3 milhões de reais, certo?
    Então, você mesma pode responder a essa pergunta.
    Isso! Acertou de prima. O dinheiro da renda é da CBF, tal como você já imaginava. Onde tem dindin alto, tem CBF presente.

    O São Paulo ficará com 12% da renda como aluguel, algo como 360.000 reais.

    Deve ter uma taxa pra CONMEBOL, com certeza (na Libertadores é de 10% e na Sul Americana abaixaram para 5%), e talvez uma pra FIFA.

    :o)

     
  • At 3:04 PM, Blogger Emerson said…

    Ah, é verdade, as despesas: que eu saiba correm por conta da CBF.
    Lembre-se, porém, que além da bilheteira a CBF recebe uma grana boa pelos direitos de TV.

    Nos casos de amistosos, é comum o anfitrião se encarregar das passagens e estadia, além do cachê, é claro.

    Uma seleção como a brasileira é uma mina de ouro ambulante.

     
  • At 3:33 PM, Anonymous Lita said…

    Saber, saber, a gente sempre "deduz" meu caro Emerson, das vagas leituras aqui e ali....mas nada como ter uma garantia a mais (comentário de quem entende e sabe mais do assunto)pra poder participar do papo hj à noite.

    valeu Emerson!
    :)
    Lita

     
  • At 4:13 PM, Anonymous Fernando said…

    Falando sobre a Copa 2014, gostaria que em algum post você falasse mais de como será a Copa do Mundo aqui. Abrir os olhos do povo..

    Por que eu digo isso?!?!

    Simples..
    No dia em que começaram a vender os ingressos para o jogo da Seleção (foi em um Sábado), eu acordei meio atrasado, mas fui pegar o ingresso.

    Era, aproximadamente, 1:30 da tarde. Cheguei lá, não haviam mais ingressos. Comecei a conversar com o pessoal que lá se encontravam.
    Um homem me falou que, aproximadamente 30 MIL ingressos foram vendidos SOMENTE pela Internet.

    Fora os credenciados do cartão Master Card.
    E aí entra a pergunta: Como ficará o torcedor comum?!?!
    Aquele que não tem possibilidade de comprar pela Internet, ou que não possui cartão Master Card.
    Aquele que já madrugou em filas para ver seu time regional lutando pelo título.

    Essa Copa do Mundo não será para qualquer um. Na teoria, não existe restrição para assistir a um jogo na Copa do Mundo. Na prática, será totalmente diferente.

    O povão não terá espaço nesse tipo de competição!

     

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