Um Olhar Crônico Esportivo

Um espaço para textos e comentários sobre esportes.

<

sexta-feira, maio 11, 2007

A dor da derrota ou a vítima de sempre


- Essa conta de luz não vence só na próxima semana?

- Hum hum...

- Então, por que ela está na frente do teu monitor?

- É pra eu não esquecer.

- Mas se ela ficar na pasta você não vai esquecer dela.

- Não, não é isso. É pra eu não esquecer que eu tenho que pagar essa conta. Se eu – e você, claro, mas nesse exemplo deixa eu ficar na primeira pessoa – não for à luta e ganhar dinheiro, o meu São Paulo não vai pagar essa conta pra mim. E aí, adeus luz.

- Bom, não sei se entendi, mas acho bom mesmo você botar isso na cabeça e não tirar mais.

E assim decretando, lá se foi minha racional – às vezes – esposa para cuidar de afazeres outros. E eu fiquei aqui, a olhar a conta de luz que irá vencer em alguns dias e pensando na morte da bezerra. Ou melhor, na derrota do São Paulo.

Ah... A dor da derrota. Não há dor pior que a dor da derrota. A dor de não conseguir o que tanto era desejado, seja por incompetência, seja porque alguém foi mais competente e levou, seja sei lá porque. Perder dói. Eu odeio perder. Jogo de buraco, palitinho, dominó, disputa verbal sobre qualquer coisa, não importa, odeio perder. Quando moleque e depois adolescente e, portanto, quando ainda jogava bola, esportividade era algo um tanto quanto estranho ao meu vocabulário. Quando perdíamos um jogo eu queria sei lá o que, um misto de morrer com vingar a derrota imediatamente. O que não conseguiria se morresse, claro. Mas essa história de morrer era conversa pra boi dormir, ninguém tem vontade de morrer porque perdeu. Mas a vontade da vingança, ah, essa todo mundo tem. Duvido que alguém não tenha. Se for honesto, de fato, é melhor dar o nome logo pra ser canonizado em vida pelo Bento. O desejo de vingança, de dar a volta por cima – um nome meio metido para vingança -, de mostrar quem é quem e outros sinônimos, é o que mantém vivo um torcedor.

Sim, estimadas e estimados raros leitores, essa é a inegável verdade. Torcedor que se preza faz troça ou coisa pior do velho Coubertin. Ou faria, já que o Barão há mais de século repousa em sua tumba, se é que os bravos integrantes da fauna tumular deixaram alguma coisa em descanso. Do pó ao pó, etc e tal. Nesse caso, de ausência de restos para se revirarem na tumba, o espírito do nobre barão deve estar furioso com essas mal digitadas linhas. Sorry.

Todavia, nem só de vingança vive o bravo torcedor, ou torcedor bravo, acho que é mais claro e conveniente. O torcedor que se preza quer, também, uma, duas, três, onze, vinte e duas, quarenta vítimas para descarregar sua frustração, sua dor, sua raiva, seu ódio. Como mais de um geralmente complica, o irado torcedor escolhe uma e uma só vítima.

Sim, vocês acertaram, claro. São inteligentes, coisa que a leitura desse blog só confirma como se fosse cartório reconhecendo firma e existência. Falo da vítima usual, a vítima de sempre, a eterna vítima: o treinador.

Pobre coitado. O fato de ganhar bem, geralmente, não o torna merecedor de ser a vítima. O que ele de fato é, mas da injustiça com que é tratado. E não apenas os torcedores o elegem para bode expiatório, sobre o qual descarregar todos os pecados do mundo (já já começo a escrever discursos pro Bento... Se o Vaticano pagar bem, quem sabe?). Também muitos jornalistas fazem isso. Que pobreza e que covardia. Mas é a pura verdade. O mesmo escriba ou comentarista que prega a permanência dos treinadores, é o primeiro a apontar o dedo acusador para a vítima usual, a vítima fácil.

A vítima da vez chama-se Muricy Ramalho. Sua cabeça, supostamente, aplacará a dor de nossa derrota.

Supostamente, nunca realmente. Será que algum dia essa verdade banal será apreendida? Duvido.

Ah, sim, a conta de luz...

Pois é. Sua visão e a lembrança do muito que tenho de ralar para pagá-la, ajudam-me a colocar certas coisas em perspectiva. Entre elas que essa dor da derrota é meio besta e é bom que seja superada com rapidez. Que ver futebol e torcer é uma diversão, acima de tudo.

E que o treinador do meu time é o que menos culpa tem pela derrota.

Bom, agora tenho que ir, parece que os caras com a camisa-de-força já chegaram. Ou agora só injetam algo prozaquiano na gente?


.

Marcadores:

2 Comments:

  • At 9:12 AM, Blogger Iara N. de Alencar said…

    Ola Emerson, a dor da desclassificação ainda bate na alma...
    nao quero falar de futebol....
    nao vou ver jogo.

    Acho que o Muricy nao sai nao..

     
  • At 9:14 AM, Blogger Iara N. de Alencar said…

    até porque, quem iria pro lugar dele???
    leoa?
    autuori??
    e meu aluguel vence hoje...mas so tenho grana pra pagar so na terça..
    o dono a casa ontem foi bater na porta e ficou com raiva..

     

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home