Um Olhar Crônico Esportivo

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sábado, fevereiro 03, 2007

Sabatinas matinais

Fevereiro começou, os campeonatos estão a pleno vapor, a realidade ocupa o lugar das previsões nas matérias da imprensa escrita/falada/televisada. E a realidade é feia. Já é feia. As manchetes acenam com catástrofes. O medo se instaura entre torcedores, alimentado pela perspectiva de um ano ruim à frente.

Já vi esse filme antes. Pra ser sincero, vejo esse filme todo ano. Sem mudanças no roteiro, apenas nos atores principais e secundários.

O Trio de Ferro

O Estadão desse sábado ensolarado (podia chover um pouco, pelo menos no sítio...) diz que o Trio de Ferro está mal das pernas. Pra quem não é de São Paulo ou do Brasil, é esse o nome que damos aos três grandes times da cidade de São Paulo: Corinthians, Palmeiras e São Paulo.

Não creio que o Trio de Ferro esteja tão mal, exceção feita ao Corinthians, onde os problemas políticos e administrativos estão destruindo o futebol e, se bobear, o próprio clube, ainda como o fruto podre e previsível da parceria feita com a misteriosa MSI, dona de não menos misteriosos milhões de dólares. Para mim, qualquer coisa que emane dos russos que fugiram da Rússia pós-URSS é podre.

Abramovich, encastelado em Londres e dono do Chelsea...

Berezovsky, alçando vôo sobre as terras tupiniquins, também encastelado em Londres.

E mesmo outros que ainda continuam na Rússia.

Tudo podre e contaminante à distância, sem necessidade de trocar fluidos corporais ou o que quer que seja.

Bom, digressões à parte, o Corinthians é um time abandonado à própria sorte. Seu treinador, fruto do ódio ou antipatia de muitos, porta-se de forma quase heróica, conduzindo uma barca furada e lutando não só para mantê-la à tona, como também para leva-la a um porto seguro, abrigado, sem risco de naufrágio. E, a auxilia-lo, nada e ninguém. Não é de estranhar, portanto, que seu artilheiro tenha defenestrado tão depressa, sobre o que falarei logo mais.

Essa crise, porém, não vem de agora, vem de longe, tudo isso é apenas continuação, um ato a mais numa comédia de erros com cara e jeito de drama.

O Palmeiras é um caso diferente. Está com tudo arrumadinho para dar certo, exceto a boca grande e irritante de seus torcedores “importantes”, também conhecidos como “turma do amendoim”. Vivem no passado, nos tempos da gloriosa “Academia de Futebol” e nunca fizeram o mínimo esforço para modernizar e trazer o clube para os dias de hoje, onde a sobrevivência é conseguida a duras penas, com muito trabalho a partir das bases e alguma inteligência. Independentemente dessa turma, porém, o técnico Caio Jr. reuniu um grupo razoável de jogadores, em condições de manter o Palmeiras à tona e até mesmo em boas posições. Nada vai ganhar, com certeza, mas é um time para atravessar 2007 e lançar as bases para anos melhores.

Só não aposto cegamente nisso porque essa “turminha” citada é braba.

Finalmente, o São Paulo. O fato do time não começar o ano goleando, vencendo tudo, afirmando-se como Campeão Brasileiro e coisa e tal foi o que bastou para as críticas começarem. O time não vai resistir à saída do Mineiro. A diretoria errou ao não contratar ninguém para seu lugar imediatamente. O elenco é pequeno. Falta gente no meio-campo, falta atacante. Até o trabalho de Muricy Ramalho recebeu um ou outro questionamento.

Impressionante!

Mas o elenco é ótimo – em especial para o padrão atual do futebol brasileiro e sul-americano – e a estrutura por trás continua excelente. Nas próximas semanas o time vai engrenar, adquirir alguma coisa mais próxima de uma boa forma física e jogar bem.

Tal como o Palmeiras e, acredito, o próprio Corinthians. Mas enquanto esse dia não chega, o sentimento de catástrofe continuará sendo dominante.

Pré-temporada fictícia

Diz-se que os times fazem pré-temporada no Brasil.

Mentira.

E em São Paulo mentira ao quadrado, pois dez ou doze dias de treinos não podem ser chamados de pré-temporada. Para tornar o quadro pior, o campeonato começa com dois jogos por semana. E os jogos acabam ficando “quentes” e, naturalmente, os jogadores não se poupam e disputam. Resultado: cansaço prematuro, desgaste acentuado, contusões musculares.

Souza, do São Paulo, é um bom exemplo. Atleta leve, bem condicionado, ficou 2006 praticamente sem saber o que era tratamento de contusão. E agora, em seu quinto jogo, estiramento no adutor da coxa direita. Contusão típica de atleta fisicamente mal preparado, ainda. E não é culpa da Comissão Técnica do time, pelo contrário. É tão somente fruto do calendário irracional e burro ao extremo.

Cristhian e a ética fora de lugar

Fez cinco jogos pelo Corinthians, marcou cinco gols.

Caiu nas graças da torcida.

Mas em nenhum momento deixou de ver e ouvir a loucura fora de hora em torno de Nilmar, o jogador que não pertence a ninguém. Além disso, e de Amoroso, sendo considerado desde já como mero reserva, e vivendo o ambiente conturbado do clube, onde uma crise sucede a outra, os pagamentos atrasam e mesmo assim os dirigentes falam em contratações bombásticas, Cristhian recebeu uma boa oferta do Internacional e voltou para Porto Alegre, nem dando chance ao Corinthians de fazer uma contra-proposta. Que a bem da verdade nem seria feita, pois o clube corre ensandecido atrás de dinheiro para honrar com atraso compromissos básicos e banais. Além da proposta compreender aumento de salário e um contrato de dois anos (no Corinthians, seu contrato era de somente seis meses), o jogador morava sozinho em São Paulo, pois sua família ficou em Porto Alegre e sua mulher não queria morar na megalópole.

Naturalmente, Cristhian não pensou duas vezes e pediu demissão.

Ops... No futebol não se pede demissão. Mas é a mesma coisa. Pediu demissão, arrumou sua mala e foi embora, acusado por um mundaréu de gente como anti-ético, epíteto extensivo ao Internacional. Vale dizer que de nada adiantou o clube gaúcho ter pago direitinho a multa contratual. Tirar o jogador de outro clube foi anti-ético e ponto.

Ora, ora, ora...

Que bobagem.

O Brasil é um país singular. Diz-se, nos papéis e discursos, um monte de coisas que não é ou pratica na vida real. E, periodicamente, o país é tomado de assalto por palavras bonitas, plenas de significados. Viram moda, saem de todas as bocas, até das mais improváveis. Vale tudo. É o que acontece agora com a palavra ética.

Apenas uma abobrinha a mais, como cidadania, constituição, direitos, participação e outras mais.

Claro que ética não é abobrinha, mas na maioria das bocas de onde sai no atual momento não passa disso, uma reles abobrinha.

O jogador optou por outra proposta de trabalho, cumpriu suas obrigações contratuais e foi embora. Só isso. Nada mais que isso. Plenamente ético.

Por ora, basta. Talvez, se o tempo e a vontade abundarem, eu volte com novas sabatinas, ainda que no domingo.

Bom fim de semana.

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2 Comments:

  • At 9:16 PM, Anonymous GIGI said…

    Emerson, a partir de um comentário do "Observador "no JA, percebi que as críticas ao Christian, não partiram da diretoria do Corinthians. Pelo contrário, a dietoria elogia a postura do mesmo e diz que as portas do clube estão abertas para ele. Nem uma crítica também foi dirigida a diretoria do Internacional, o que me leva a pensar que há muito mais coisas entre a terra e o céu do que supõe nossa vã filosofia.
    Abraços ao amigo

     
  • At 9:53 AM, Blogger Emerson said…

    Gigi, já cansei de dizer que futebol é apenas uma profissão a mais e jogador é um trabalhador como outro qualquer, com a diferença que só pode trabalhar, de fato, por uns doze anos.

    Esse papo de ética é cansativo e chato. Ética está na moda, só isso. Mas só a palavra, é claro, que é usada e abusada, o que, em si, já não é nada ético.

    Frequentemente acusam o São Paulo de agir sem ética. Não adianta expor caso a caso, o falatório continua. Esse caso "Cristhian" entrou para o mesmo rol. Nada teve de errado, mas foi taxado como não-ético.

     

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