Um Olhar Crônico Esportivo

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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

As festas dos estaduais


Muitos jogos do Campeonato Paulista são verdadeiras festas. É o que acontece quando os times das cidades menores recebem os grandes clubes. Os estádios ficam lotados em todos os setores. O dinheiro das bilheterias garante alguns meses de manutenção dos times chamados pequenos. Mais alguns meses de emprego garantido para três dezenas de jogadores, jovens e desconhecidos em sua maioria. Nas arquibancadas cheias, bandeiras sacudidas e muita animação, tudo é festa.

E é mesmo bonito ver a festa dos torcedores.

As famílias vão ao campo, os pais aproveitam para levar os filhos pequenos e mostrar a eles as camisas famosas só vistas na televisão. E também para mostrar os grandes jogadores, claro, os grandes nomes, que ainda existem, apesar da maioria estar jogando em terras d’além-mares.

Inevitavelmente, o estádio fica meio dividido, pois o grande time visitante sempre tem bom número de torcedores na cidade. Às vezes acontece até da torcida do time de fora ser maior que a do time local. E, também para esse pessoal, é uma grande oportunidade poder assistir ao vivo o jogo do time do coração, que normalmente manda seus jogos na Capital, impossibilitando ou dificultando muito a presença até dos mais fanáticos torcedores.

Quando o grande time vai para o interior é tudo festa. Uma beleza.

E esse é um forte argumento a favor dos defensores da manutenção dos campeonatos estaduais. No caso de São Paulo, o estadual tem muitas e belas histórias. Grandes times e muitos e muitos grandes jogadores foram formados nesses times do interior paulista. É um verdadeiro patrimônio histórico e esportivo, algo digno de ser preservado.

Sim. Sem dúvida. Mas... Preservado por quem?

E aqui o bicho pega. Todo mundo acha lindo o espetáculo, enaltece a história, elogia a torcida que comparece, mas “todo mundo” só vê o grande jogo, o jogão contra o time grande. No jogo seguinte contra outro pequeno, o estádio fica às moscas, a festa desaparece, as famílias não saem de suas casas e os atletas jogam para meia dúzia ou pouco mais de testemunhas, muito mais que torcedores. E tudo fica desse jeito até o próximo time grande jogar na cidade, quando volta a festa e o dinheiro corre novamente nas bilheterias.

Os times pequenos dependem dos jogos contra os times grandes para sobreviver. Essa é a verdade, simples e clara.

E nesse domingo, em Bauru e Guaratinguetá, tivemos dois bons exemplos, com o Guaratinguetá enfrentando o Corinthians e o Noroeste pegando o São Paulo. Os dois estádios lotados, o de Bauru com alguns lugares sobrando, em virtude dos preços cobrados pela direção do Noroeste. As rendas, com certeza, foram boas. Os torcedores fizeram festa, ficaram felizes, tudo no melhor dos mundos. Exceto por um detalhe: eram esses os jogos que deveriam jogar São Paulo e Corinthians?

Eu diria que não. Nesse momento deveriam estar ainda em treinamento, recém-passando da metade da pré-temporada e começando a jogar amistosos, jamais jogos oficiais, ainda mais dois por semana, todos duríssimos e disputados. Isso tudo como preparação correta para as disputas continentais, para a disputa nacional. E, futuramente, para uma disputa inter-continental.

R$ 413.300,00 foi a renda em Bauru, com 16.801 pagantes.

R$ 293.835,00 foi a renda em Guaratinguetá, com 12.683 pagantes.

R$ 314.490,00 foi a renda no Parque Antártica, com 18.676 pagantes.

Noroeste e Guaratinguetá farão boa “festa” com suas rendas, sem dúvida. Já o Palmeiras, ao pensar pequeno e acanhado e exigir o jogo contra o Santos no pequeno Parque Antártica, teve uma renda pífia, com um público idem. Pior que isso: é um estádio que não se presta a jogos de duas torcidas em função de seu entorno e acessos. Resultado: confusão e pancadaria antes do jogo. Mas isso é outra história.

O Noroeste cobrou pela presença do São Paulo e o preço médio do ingresso foi de R$ 24,60.

Em Guaratinguetá o preço médio foi de R$ 23,16.

E no Parque Antártica, confirmando a visão tacanha, foi de R$ 16,84.

Disso se deduz que os times do interior foram profissionais, inteligentes e ágeis. Cobraram mais caro e, mesmo assim, os estádios lotaram. Não fosse pela “meia-entrada”, as rendas seriam maiores.

E essa é a real e a mais verdadeira de todas as razões para a manutenção dos estaduais, ao lado da mais forte e poderosa, que é a manutenção da estrutura de poder viciada e corporativa, muito longe de qualquer conteúdo democrático.

Dinheiro & Poder...

Sim, as festas são bonitas, mas são festas realizadas às custas dos grandes times, que não são e não devem ser responsáveis pela existência dos pequenos. Esses devem ser mantidos por suas próprias comunidades. Fora disso é esmola, é subsídio, é sustentar uma estrutura falsa. E estruturas profissionais como as que já existem no interior de São Paulo, sobreviverão bem sem o campeonato estadual, substituído por um nacional que dure a maior parte do ano.

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3 Comments:

  • At 12:53 AM, Anonymous Garamba said…

    Olha, cuidado com os palmeirenses raivosos. Sofri muito com eles. A melhor tirada contra os Estaduais continua sendo tua. Campeão da rua. Muito bom.

     
  • At 12:48 AM, Blogger Emerson said…

    Essa tirada, Garamba, é do blogueiro Ricardo CRF, do Rio.

    É muito boa, mesmo.

    :o)

     
  • At 7:18 AM, Blogger José Antonio da said…

    Sou totalmente a favor dos campeonatos estaduais, principalmente o Campeonato Paulista. Este argumento usado contra os campeonatos estaduais, de que os pequenos dependem dos grandes, também se aplica ao campeonato brasileiro, pois um jogo como Juventude x Paraná atrai público bem pequeno. Segundo seu raciocínio, o campeonato brasileiro também deveria acabar, ou fazer um campeonato somente com os grandes clubes. No futebol a realidade brasileira é diferente do mundo inteiro. Somos um país de grandes dimensões tanto territorial quanto populacional.
    Mesmo nos campeonatos europeus, nos jogos de times pequenos o público também é pequeno. Existe um vídeo famoso que rola na internet sobre o far play em um jogo do PSV da Holanda. Se prestarem bastante atenção poderão notar que as arquibancadas estão vazias.
    Todo campenato é assim, tem jogos de muito público e jogos com pouco público.

     

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