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quarta-feira, junho 21, 2006

Entrevista com Parreira - II


'Brasil não pode se defender só com cinco'

Para o treinador, Brasil "volta rapidinho para casa" se jogar assim, em uma Copa onde todos se defendem com oito, nove

Daniel Piza

Nesta segunda parte da entrevista, Parreira fala da preparação da seleção, de Ronaldo e sua atual forma, do jogo contra o Japão e da pressão sobre ele e o time.

- É por isso também que você pede para marcar só no nosso campo?

Nosso time não tem característica de marcar sob pressão. Pode até acontecer numa situação de jogo, pois treinamos isso, mas não é característica. No Barcelona, por exemplo, você tem jogadores como Eto'o e Giuly que vão e voltam o tempo todo. Isso também nós não teríamos nem com Robinho e Fred. Nossa marcação tem dado certo, tanto que não tomamos gol há cinco, seis jogos.

- Retrospectivamente, agora, você considera que foi bom não ter feito amistosos com grandes seleções?

Você gasta um dia antes do jogo, um dia para o jogo e outro depois, viajando e tudo. Se você faz quatro amistosos, perde 12 dias. Com amistosos mais fáceis, não desgastamos. O trabalho foi bem feito porque contra a Croácia o time estava bem fisicamente. Eles se cansaram antes da gente.

- Seu primeiro degrau era o preparo físico? E depois?

Era. Era dar ritmo ao time, uma base física. Dar saúde ao time para agüentar. Nosso planejamento não pode ser outro a não ser pensar na final. Temos que planejar em cima de 7 jogos, não só da primeira fase. O segundo degrau era começar com vitórias, ganhar coletividade. Nesse último jogo já juntamos mais o time, com Kaká e Ronaldinho mais pelo meio, para ficar mais tempo com a bola. Agora é ir melhorando o time.

- Existe o risco de cadenciar demais?

Nesse tipo de jogo não tem como acelerar muito. Eles (os adversários) ficam concentrados com dez jogadores entre a intermediária e a grande área. Tentamos algumas bolas esticadas nas costas do zagueiro, mas o que aconteceu? Foi na mão do goleiro ou o zagueiro cabeceou. Não tem espaço. Ninguém joga veloz sem espaço. O jogo contra a Austrália ficou melhor depois que eles botaram três na frente. Aí nos últimos dez minutos nós manda mos no jogo. Porque surgiu espaço. Tem que ter paciência, não tem jeito. Mas não teve sufoco. É sufoco classificar no segundo jogo? Conseguimos um respiro de dez dias, para recuperar, sair da pressão. O que a gente deve é circular a bola mais rápido. Tocar a bola com mais velocidade até encontrar a hora da jogada aguda.

- Há muitas críticas à dupla "de peso" lá no ataque.

O Ronaldo está precisando ganhar ritmo mesmo. Chegou aqui sem jogar durante dois meses. Ele não chegou em forma porque, por mais que o jogador treine, não é a mesma coisa. Tem que jogar. Ele é motivo de preocupação para o adversário. Mas o pessoal não percebe. Vale a pena investir no Ronaldo por tudo que ele representa e pela diferença que ele pode fazer numa partida. No primeiro jogo, ele travou um pouco.

- Por quê?

Não tem explicação. Talvez seja psicológico, mas não tem como explicar. Não sei o que deu nele. Agora ele já foi bem melhor. O importante é que ele jogue mais uns 70 minutos contra o Japão para pegar mais ritmo ainda. Queremos que ele chegue bem às fases eliminatórias, porque aí é que é a hora da verdade. Ele não está gordo, o corpo dele é que mudou por causa das lesões; só precisa de mais condicionamento. A experiência que ele tem e o respeito que os adversários têm por ele ninguém substitui.

- Qual a importância de ele fazer um gol?

É toda a motivação que ele precisa. Acredito que ele possa pensar em bater o recorde de Gerd Müller (14 gols em Copas, dois a mais que Ronaldo), mas o foco maior dele é ser campeão do mundo e jogar bem. O gol ajuda a soltar, a ganhar ânimo.

- Qual o limite?

É a coerência. São os interesses da seleção brasileira. Enquanto ele estiver melhorando, como está, confiamos nele. As coisas caem nele porque ele é celebridade desde os 17 anos. A personalidade dele provoca notícia. O Ronaldinho Gaúcho é mais quieto. É igual ao Roberto Carlos, o cantor, que quase nunca dá entrevistas. Mas a culpa não é do Ronaldo por atrair tanto a mídia. Se ele sair e o Brasil for mal, tudo reverte: "Ah, por que tirou o Ronaldo?" Pode ter certeza.

- O jogo contra o Japão tem valor como aprimoramento?

Muito. Vai ser o mais difícil da primeira fase. Eles têm uma característica que incomoda o adversário: a velocidade. Muita mobilidade, muita aplicação tática. É um time que não se entrega. A Austrália ganhou do Japão em lances fortuitos, teve uma sorte enorme; o placar não traduziu o que foi o jogo. Os gols foram no final, e no primeiro houve uma falha de goleiro. Não foi cansaço nem nada. Este grupo não vai ter goleadas, não. Se o Brasil não estivesse preparado, teria sofrido bem mais. Em nenhum dos dois jogos chegamos realmente a tomar sufoco.

- Mas o esquema, em suma, está funcionando?

O esquema está funcionando. Houve evolução tática, técnica e física do primeiro jogo para o segundo e espero que continue assim. Ronaldinho e Kaká não têm que marcar tanto em seus times. Mas a gente conseguiu vir trabalhando isso desde o jogo contra Hong Kong no ano passado e aqueles jogos contra o Peru e o Uruguai. Não é uma ciência exata, mas estamos trabalhando para isso. Até porque, se a gente quiser ganhar a Copa do Mundo, vai ter que melhorar. Faltam cinco jogos, é muita coisa. É uma competição ingrata; bobeou, está fora.

- Por que o Ronaldinho ainda não rendeu o que pode? Por motivos táticos, psicológicos ou circunstanciais?

Não tem nada a ver com tática. Vai botar o Ronaldinho onde? No meio dos zagueiros adversários? Ele tem liberdade total, não está preso; está muito marcado, sempre tem um colado nele. Ninguém joga contra o Brasil como joga contra o Barcelona. Contra o Brasil, todo mundo se defende mais. Se perder a bola - o Ronaldinho, o Kaká -, não vai cruzar os braços e ficar olhando para o céu, né, mano? O Brasil não pode defender com cinco, numa Copa em que todo mundo defende com oito, nove, dez. Vai voltar rapidinho para casa.

- A falta de movimentação dos dois da frente o atrapalha?Não. O Adriano se movimenta bastante, o Ronaldo está se movimentando mais. Mas o zagueiro fica em cima. Há sempre uma cortina de oito atrás. Toda vez que o adversário se fecha atrás, o jogo fica cadenciado. Em qualquer lugar do mundo. Não tem espaço, então não tem velocidade. A sintonia de acertar o momento certo da penetração, o time vai adquirindo a cada jogo. Mas não pode perder a bola no nosso campo ou no meio. Acho que só há três equipes que não mudam a forma de jogar quando enfrentam o Brasil: a Alemanha, a Argentina e a Holanda. Eles marcam por pressão e tentam impor seu padrão de jogo.

- Como você lida pessoalmente com a pressão? Lê os jornais?

Leio alguma coisa só, mas tem muita incoerência; o cara não faz a leitura do jogo e não leva em conta o adversário. O treinador da Austrália veio nos cumprimentar quando acabou a partida, feliz da vida porque perdeu só de 2 a 0. No Brasil, é o contrário. E por quê? Porque ficaram com esse negócio de show. Não tem show, não. Copa do Mundo na Alemanha tem que ganhar. Show é ganhar. Não vai ter jogo fácil nenhum.

- O que mais tem lhe chamado a atenção nesta Copa?

A dimensão que o futebol brasileiro ganhou. A melhor coisa que eu vi foi a capa do Olé, que dizia, de gozação, "Eles são humanos". Adorei isso. E usei na minha palestra. Eu disse aos jogadores: "Vocês são humanos". Somos humanos, não somos galáticos. Só vamos vencer se nos esforçarmos. A gente quer jogar bonito, não tem limitações. Mas o torneio é curto e deixa tudo mais difícil. Não se pode perder.


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