Um Olhar Crônico Esportivo

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sexta-feira, agosto 31, 2007

Rivalidade e História



Quarta-feira à noite no Parque Antártica tivemos mais um embate entre Palmeiras e São Paulo. Frequentemente é um jogo que gera discussões, polêmicas e até eventos menos agradáveis, como alguns de anteontem.

Muitos palmeiristas (uma das antigas denominações) da velha guarda dizem que "o Corinthians é nosso adversário, o São Paulo é nosso inimigo", o que dá bem uma idéia da rivalidade antiga entre os dois clubes.

Mas, como começou, por que é assim?

Não vou explicar tudo, longe disso, vou apenas relatar um episódio que foi bastante significativo, tentando encaixá-lo (linguagem de boleiro moderno, né?) no clima de uma época da qual não temos a mais remota idéia de como foi, realmente.



A história remonta a 1942.

Governado pelo ditador Getúlio Vargas, fascista de carteirinha, o Brasil mantinha-se neutro em relação à II Guerra, apesar da maioria do povo ser a favor dos aliados.

Mesmo com nossa neutralidade, submarinos alemães atacavam navios brasileiros. Mais de uma dezena deles já tinham sido torpedeados e afundados, com muitas mortes de marinheiros e passageiros.

Na noite de 15 de agosto, o U-507 torpedeou e afundou o cargueiro misto Baependi, a 30 km do litoral nordestino. Indo do Rio para Recife, o navio transportava 306 pessoas, entre elas muitas crianças. Apenas 36 conseguiram salvar-se, nenhuma criança, e o navio afundou em 3 minutos.

Na mesma noite, esse mesmo submarino afundou o cargueiro Araraquara.
De 142 pessoas a bordo, apenas 11 conseguiram salvar-se.

Antes do dia raiar, uma nova vítima: o Aníbal Benévolo, outro cargueiro misto, a menos de 10 km da costa. Todos os 150 passageiros (16 crianças) e tripulantes morreram.

Numa só noite o U-507 matou 551 brasileiros de forma covarde e assassina.

As reações populares foram intensas e até brutais em muitos casos, com reações contra alemães, italianos e japoneses. Parte de minha própria família materna, de origem Brassaroto, da Calábria, e que trabalhava na roça em fazendas de café no interior de São Paulo, sofreu com perseguições, ofensas, olhares atravessados...

Dez dias depois, a ditadura fascistóide de Vargas declarou guerra ao Eixo – Alemanha, Itália e Japão.

O Brasil entrava na guerra.

Nas cidades, a gritaria contra os alemães, italianos e japoneses era enorme.
Acho que hoje não podemos aquilatar com toda a intensidade o choque daqueles tempos, lembrando, ainda, no caso paulista, que São Paulo sofrera uma derrota em 1932, na Revolução Constitucionalista, para o mesmo ditador, cuja imagem era associada aos nazistas e fascistas. O clima era pesado. Tínhamos a conjunção dos ataques covardes na calada da noite contra navios neutros, as mortes, a repressão e a ojeriza crescente à ditadura Vargas, enfim, era um caldo complexo, movido a paixões intensas e temperado por uma guerra mundial.

No futebol, os times do Palestra Itália de São Paulo e Belo Horizonte mudaram seus nomes para Palmeiras e Cruzeiro. Foram forçados a isso pela pressão popular cada vez mais forte e ameaçadora.

O primeiro jogo do Palmeiras foi contra o São Paulo, no Pacaembu, dia 20 de setembro. Foi nesse jogo que os palestrinos entraram em campo com a bandeira do Brasil, afirmando-se como brasileiros e buscando cativar a platéia.

Deram uma surra no São Paulo e venceram por 3x1.

Pior: o São Paulo saiu de campo antes do final e foi eliminado daquele campeonato paulista.

Pior ainda: diretores e torcedores do São Paulo tinham feito campanha contra o Palestra, pedindo até o fim do clube e queriam, com o seu fechamento, tomar posse das instalações esportivas palestrinas. Não eram todos, apenas uma parte, ou facção, mas que ocupava a mídia e falava bastante. Em épocas como aquela todo discurso radical pega fácil e inflama as massas.

Foi uma pena ter perdido o jogo. Tirando a vontade de ter o patrimônio palmeirista e de personificar a luta anti-fascista no time verde, a história e a razão estavam com os torcedores na luta anti-fascista e anti-nazista.


Esse foi o começo dessa rivalidade que perdura até hoje, esmaecida ou desconhecida pelas novas gerações de torcedores. Acho que é bom que assim seja.

(Dias atrás a Veja publicou excelente resenha de um livro que foi lançado agora,
"O Brasil na Mira de Hitler", do Roberto Sander, que conta as histórias dos afundamentos de nossos navios e a entrada do Brasil na guerra. Foi a minha fonte de consultas, além, é claro, do Almanaque do São Paulo e a memória tomada pela leitura de um monte de coisas a respeito em outros tempos.)


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