Um Olhar Crônico Esportivo

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segunda-feira, agosto 20, 2007

Por trás de um mito


Ainda em recente votação feita pela revista World Soccer, a seleção da Hungria de 54, vice-campeã mundial, foi considerada o segundo melhor time da história do futebol. Perdeu apenas para a seleção brasileira Tri-campeã no México, em 1970. O time de Puskas virou um mito.

Pouco sabemos desse mito por aqui. Eu mesmo, só agora vim a conhecer um pouco mais de sua história, graças ao “A Dança dos Deuses”, do Hilário Franco Júnior, um livro “inlargável”.

A ascensão da seleção húngara deu-se num momento histórico importante e propício a ela. Aliás, é impressionante como podemos ver, hoje, a estreita correlação entre grandes momentos da história européia e mundial e mudanças no futebol, tanto nas regras como na ascensão de times, seleções, esquemas de jogo. Simplesmente fascinante.

Finda a II Guerra, entramos na Guerra Fria, a disputa ideológica entre o mundo capitalista e o mundo socialista. É um período interessante na história paralela do futebol e o próprio Real Madrid, ao seu jeito e condições, foi um protagonista desse período, embora num país periférico – à época. A Hungria socialista acreditava que sua seleção poderia mostrar ao mundo a superioridade de sua concepção política. Nesse ponto ela não foi única, e aqui mesmo, ao lado, Fidel desde o começo colocou o esporte de alto rendimento a serviço de uma concepção ideológica.

O mito húngaro começou com uma revolução no esquema de jogo, a introdução do 4-2-4. Até então prevalecia o famoso WM, numericamente definido como 3-2-2-3, criado pelos ingleses na década de 30 e dominante em toda a Europa até antes da Copa da Suécia. O 4-2-4 foi criado pelo técnico húngaro Markon Bukovi, técnico do MTK, por volta de 1948. Já em 1949, Gustav Sebes, treinador do selecionado húngaro e importante dirigente do Partido Comunista, introduziu-o na seleção nacional.

Na Hungria, desde 1948-1949, todos os times eram nacionalizados, entregues, cada um, a diferentes organizações como o Exército, sindicatos, empresas – todas do Estado. Sebes pegou todos os jogadores que considerava como titulares de sua seleção e colocou-os num só time, o do Exército, que passou a chamar-se Honved – “Defensores da Pátria” – e colocou todos os reservas em outro time, o MTK, patrocinado pela polícia secreta do Estado. Os dois times passaram a treinar somente no 4-2-4. Enquanto isso, os outros times que disputavam o campeonato nacional foram treinados, um por um, de acordo com os diferentes padrões de jogo de cada seleção adversária da Hungria. Sebes transformou o campeonato húngaro num grande treinamento.

Dessa forma, a conquista da medalha de ouro olímpica no futebol nos Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952, foi um resultado até certo ponto óbvio.

E uma clara e gloriosa vitória do socialismo sobre o capitalismo.

Além dessa medalha olímpica, a seleção húngara protagonizou outras grandes conquistas, marcando dezenas de gols e sofrendo pouquíssimos. Era o time tido e havido por todos como o campeão do mundo. A Copa, na Suíça, seria apenas uma etapa burocrática, nada mais.

Em 1953 morreu o Grande Líder e Condutor dos Povos, o “Paizinho” Josef Stalin. Sua morte viria a mudar o mundo um pouco mais tarde, mas, de imediato, mudou a Hungria, com uma liberalização do regime e um clima de mais liberdade, ou menos repressão, que parece ter animado ainda mais a seleção que já era um mito.

Veio a Copa de 54 e o jogo final em Berna, com a derrota para a Alemanha. Uma parte do mundo chorou, antecipando outro choro, 28 anos mais tarde.

Mas isso tudo já é assunto para um livro, não para um modesto post dum mais modesto blog. O que quero dizer com tudo isso é que o time mítico de 54, que jogava como por telepatia, segundo Puskas, tinha atrás de si uma grande história de treinos, treinos, treinos e muita aplicação tática. Tanta aplicação tática que transformava uma teórica prisão em liberdade. Dizem que o time parecia jogar por música, por telepatia, por magia. No fundo, era a fusão de um brilhante grupo de atletas, um técnico inteligente e visionário e uma quantidade insana de trabalho, trabalho, trabalho e mais trabalho.

Guardadas todas as proporções e diferenças, era o que fazia Telê Santana, é o que faz Muricy Ramalho.

Engana-se redondamente quem pensa que um time aparece pronto, ou que seja fácil e rápido montar uma equipe vencedora. Não, nada disso. É tarefa dura que demanda toneladas de transpiração e, havendo, gramas, quem sabe alguns quilos de inspiração. E, mesmo assim, nem sempre a vitória é o resultado lógico e matemático.

Pois, se há um esporte imprevisível, sujeito a caprichos mil, esse é o futebol. Com certeza, justamente por isso é tão apaixonante.


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